Arte xávega da Meia Praia vai continuar em Lagos com protocolo aprovado pela autarquia. Atividade tradicional passa a ser recriação cultural após morte do arrais Zé Bala.
A Câmara Municipal de Lagos aprovou, na quarta-feira, 4 de março, a minuta de um protocolo de colaboração com a Associação de Moradores 1.º de Maio para preservar a arte xávega tradicional da Meia Praia como manifestação cultural.
A decisão surge após a morte, no final de 2025, de José da Glória Santos, conhecido como Zé Bala, figura ligada a esta prática piscatória tradicional e considerada património vivo da comunidade lacobrigense.
Segundo o município, o protocolo pretende garantir a continuidade da arte xávega, que até agora funcionava como atividade económica privada, passando a assumir um enquadramento cultural.
José da Glória Santos dedicou a vida ao mar e à preservação desta prática ancestral, associada à partilha entre gerações e ao espírito comunitário da Meia Praia.
Ao apresentar a proposta em reunião de câmara, o presidente da autarquia, Hugo Pereira, afirmou que a parceria constitui também uma homenagem ao antigo arrais.
«Temos de garantir que a arte xávega não morreu com o José Bala. Em sua memória é muito importante continuar, pelo que com este protocolo ficam reunidas as condições para que tal aconteça», afirmou.
A proposta foi aprovada por unanimidade pela vereação.
O apoio do município à preservação da arte xávega não é recente. Em 2019, foi iniciado o processo para incluir esta prática na Matriz PCI do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.
Nesse âmbito, técnicos municipais, com apoio de serviços externos especializados, realizaram um levantamento dos vários aspetos associados à prática, incluindo um estudo histórico e antropológico e registos audiovisuais e fotográficos.
O processo acabou por não avançar devido à interrupção da atividade, motivada por avarias na embarcação e pelo agravamento do estado de saúde do arrais e proprietário da arte.
As exigências legais aplicáveis a esta arte piscatória tradicional também dificultaram a sua continuidade, já que a licença de pesca dependia, entre outros critérios, de um valor mínimo de vendagem de pescado em lota, raramente atingido, uma vez que a atividade era realizada sobretudo por tradição e não com fins económicos.
Com o novo modelo, município e Associação 1.º de Maio, com orientação da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) e apoio da Autoridade Marítima Nacional (AMN), decidiram enquadrar a atividade como manifestação cultural episódica.
A associação, que integra arrais de pesca marítima, incluindo familiares de Zé Bala, compromete-se a organizar recriações da faina piscatória tradicional.
O plano prevê a realização de pelo menos nove lances de pesca por ano com arte xávega, preferencialmente aos sábados de manhã, dependentes de autorização da DGRM, das condições meteorológicas e do estado do mar.
Por seu lado, o município assegura o apoio financeiro necessário à operacionalidade da arte e garante o espaço de praia necessário à logística da atividade.
O objetivo é preservar e valorizar a arte xávega tradicional — praticada sem recurso a meios mecânicos — como manifestação do património cultural marítimo de Lagos.
Além da preservação deste saber tradicional, a iniciativa pretende reforçar a identidade local e enriquecer a oferta histórica e cultural do concelho, num território com forte vocação turística.
Fotos: município de Lagos.

