José da Glória Santos, conhecido como Zé Bala, figura central da arte xávega na Meia Praia, em Lagos, faleceu aos 74 anos, este sábado, 13 de dezembro.
A sua morte assinala o desaparecimento de um dos principais responsáveis pela continuidade de uma prática de pesca artesanal que sobreviveu mais por convicção comunitária do que por viabilidade económica.
Nascido em Lagos, a 27 de maio de 1951, Zé Bala cresceu ligado ao mar. Filho de um homem que conhecia as marés e de uma operária da indústria conserveira, entrou cedo na vida marítima. Aos 15 anos já possuía cédula marítima e trabalhou em traineiras e no arrasto, onde adquiriu conhecimento empírico da pesca, da leitura das marés e do comportamento do peixe. Na boca de todos, haveria de ser apenas Zé Bala, alcunha ganha no serviço militar pela agilidade e rapidez.
Apesar de, mais tarde, ter garantido trabalho estável na hotelaria, quis regressar à Meia Praia e à pesca artesanal. Em 1983, adquiriu duas licenças para a pesca da arte xávega na Praia da Salema, então pertencentes ao armador Alcindo Pereira. Nessa fase inicial, ainda se fez ao mar com uma embarcação de maiores dimensões, um calão, outrora utilizado no apoio às armações do atum.
Com o passar do tempo, o barco revelou-se demasiado pesado. Mais tarde, adquiriu a mítica embarcação José Fernando, em Sagres, um barco valente de madeira que soma hoje cerca de 50 anos de marés e que se tornou imagem indissociável da xávega em Lagos.
A embarcação resistiu às ordens de abate impostas por Bruxelas e ao advento da fibra de vidro. Manteve-se sempre em atividade apesar do desgaste provocado pela exposição permanente ao sal e aos elementos. Zé Bala confiou-lhe todas as intempéries e nunca o abandonou.
Durante décadas, foi ele quem coordenou os trabalhos. Ao amanhecer, juntavam-se dezenas de pessoas para puxar a rede em cadência. O gesto repetia-se semana após semana na forma de um ritual coletivo. Moradores, visitantes e veraneantes participavam na faina, atraídos pela experiência partilhada e pelo cheiro da maresia, por vezes recompensado pela generosidade do mar, com o peixe a ser distribuído por todos.
A arte xávega praticada em Lagos distingue-se por manter um modelo apeado, sem recurso a tratores ou a outras formas de mecanização, ao contrário do que acontece noutras zonas do país. Essa opção implicava maior esforço físico e menor rendimento, mas preservava o caráter tradicional. Zé Bala foi um acérrimo defensor dessa abordagem e manifestava-se contra a mecanização e a descaracterização da prática.
O rendimento obtido raramente cobria custos. Ainda assim, recusou sempre vender licenças ou retira-se da atividade. O que o movia era a dimensão cultural, a transmissão do gesto braçal, que fazia da Meia Praia um espaço de encontro, convívio e vizinhança. Nos últimos anos, contudo, a saúde frágil afastou-o das marés.
Muitas vezes, Zé «Bala» fazia uma cena quase bíblica: arremessava com força dois ou três punhados de areia molhada à arte.
«Os antigos já faziam isso. Mas não tem nenhum significado. É só para enxotar o peixe graúdo que vem à boca da rede. Os robalos e os sargos assustam-se e vão lá para dentro», contou ao barlavento.
Com a sua morte, a Meia Praia perde um dos seus guardiões mais emblemáticos. A rede continuará, ainda assim, a ser lançada, levando a memória de quem soube manter viva uma arte antiga, não por nostalgia, mas por convicção.
Boas marés, e até sempre!

