José Pedro Soares sabe desde o início que tem uma longevidade máxima de nove anos no cargo, podendo ser substituído pelo principal acionista, o Estado, a qualquer momento. Contudo, explicou-nos que «quando aceitei o cargo, a minha questão, nunca foi como ia entrar, mas como iria sair. É essa a dúvida que me acompanha. Farei tudo ao meu alcance para o desenvolvimento dos portos, além das funções que me estão a ser atribuídas noutras áreas, em sede da Associação de Portos e nos sistemas de informação». Numa atitude altruísta, sacrifica a família ao desenvolvimento portuário do Algarve e do país. Mas diz que a esposa e a filha o apoiam na sua missão.
barlavento – Como surgiu essa paixão pela atividade portuária?
José Pedro Soares – Encontrava-me como diretor de marketing da Propesca, quando surgiu a possibilidade de vir estagiar para a Expoarade. Agarrei-a, porque sentia necessidade de ter know-how na área dos eventos. Em outubro de 2007, fui convidado a ficar na instituição e aceitei, terminando o contrato que me ligava à Propesca. Mais tarde, já na Portimão Urbis, iniciei a minha ação no porto de Portimão. Havia um protocolo entre o município de Portimão, a Portimão Urbis e o IPTM para a promoção deste porto. As pessoas que estavam ligadas ao turismo, como era o meu caso, começaram a ter uma ação direta na sua promoção e, às vezes, na gestão e controlo de operações no porto. Costumo dizer que, quando entramos nesta área, jamais conseguimos sair dela, porque é um setor extremamente aliciante, quer em termos de conhecimento, quer em termos de mecanismos que permitem dar um maior impacto à economia local, regional e até nacional.
É verdade que teve uma ação preponderante na fusão dos portos do Algarve com a APS?
Quando este governo iniciou a sua atividade, eu tinha a responsabilidade do cluster do mar dentro da distrital do PSD Algarve, e em nome do presidente da distrital fui falar com a tutela, a Secretaria de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, exigindo que se fizessem os investimentos em Portimão e Faro e a eventual criação da Administração dos Portos do Algarve. Foram-me apresentadas várias possibilidades, sendo que a única que garantia que os investimentos podiam ser feitos no Algarve era uma possível fusão com Sines. O nosso [PSD Algarve] objetivo era o investimento nos portos. Ter uma administração portuária sem poder para investir e sem capacidade para alavancar as áreas de negócio não nos servia de nada. Ficou, então, estabelecido que, havendo uma fusão com a APS, um dos administradores seria do Algarve e que os investimentos nunca poderiam prejudicar o porto de Sines. O Estado cumpriu e os investimentos nos portos do Algarve estão a decorrer, avaliados em 2,8 milhões de euros.
Portanto, acabou por ser o algarvio responsável pelos portos algarvios? Sou um dos administradores da APS que tem a sensibilidade e um olho mais atento sobre estes portos. Cada administrador tem a sua área de influência. Eu sou o responsável pela área de sistemas informáticos e comunicações, segurança, ambiente e qualidade das áreas de jurisdição da APS. Obviamente, dentro da segurança e da qualidade, há a exploração, que está ligada diretamente à operação portuária, onde se inclui o porto de Portimão e a área dos cruzeiros.
O porto de Portimão ficará destinado exclusivamente aos cruzeiros e o de Faro à carga?
Não forçosamente. Há uma natureza nata em cada um destes portos, mas poderá haver cruzeiros em Faro e carga em Portimão. E esperamos poder vir a movimentar alguma carga neste porto, desde que não colida com a área dos passageiros. Terá de ser carga limpa. Ou então, operações de abastecimento de combustíveis aos navios, podendo mesmo se vir a criar tancagem para o efeito. Repare que os navios, neste momento, têm de aportar a Gibraltar para esse fim.
O abastecimento não acarretará o perigo de poluição, afetando as praias e o turismo?
Embora esse tipo de operações, atualmente, se revista de grande segurança e o perigo seja quase inexistente, vamos adquirir duas viaturas de combate à poluição, mangas, toalhetes e absorventes. Em termos reais, a APS possuirá cerca de dois quilómetros de barreiras antipoluição, compatíveis com as da marinha, para uma ação eficaz e imediata, na eventualidade remota de um derrame.
Especula-se muito sobre o futuro do porto de Portimão na área dos cruzeiros. Há dragagens, não há dragagens, entram navios maiores, não entram?
Neste momento, os estudos do LNEC estão concluídos. Estamos a ultimar os estudos de pilotagem para definir qual o maior navio que poderemos receber, qual o investimento necessário e o que é que vamos ganhar com isso, em termos de mercado. As expetativas são muito grandes. Gostaria de ter aqui os maiores navios do mundo, mas não sei se tal será possível. A informação estará disponível no curto prazo, para podermos decidir. Serão necessários ainda os estudos de impacto ambiental, impacto económico e financeiro e a elaboração do caderno de encargos – os últimos passos, antes da execução da obra. Gostaria de deixar claro que, quando a APS assumiu a gestão dos portos de Portimão e Faro, não existia qualquer informação sobre o que fora feito no passado. Nem qualquer sustentação técnica ou factual, exceto um pequeno estudo do LNEC, insuficiente, feito nos últimos meses da administração IPTM. Embora, no papel, os portos estejam sob a jurisdição da APS desde março de 2014, os quadros e os recursos humanos só em setembro passaram para nós. Quer isto dizer que, temos menos de um ano de gestão real deste porto. Fizemos mais neste período do que nos últimos vinte anos.
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Cruzeiros podem ser oportunidade para jovens
Soares revelou ainda que tem vindo a motivar a Escola Náutica Infante D. Henrique, o IEFP e o Turismo de Portugal, responsável pelas escolas hoteleiras, a iniciar cursos destinados ao ingresso de jovens algarvios nos navios de cruzeiro, tornando-se embaixadores do Algarve e do porto de Portimão entre os passageiros. Será necessário acertar alguns pormenores para assinar um possível acordo.