O final de tarde luminoso, o ambiente conventual do Museu Municipal de Faro, a forma como os vários trabalhos estão dispostos e o exotismo das peças africanas a temperar todo o conjunto expositivo, surpreenderam José de Guimarães, na sexta-feira, 29 de julho.
«Fiquei surpreendido. Para mim, esta é uma exposição reinventada. Embora as obras sejam as mesmas, já nada tem a ver com o que se fez em Lisboa. Adaptaram–se a este espaço que é exemplar», disse, durante o discurso de inauguração.

Fernando Nogueira, presidente do conselho de administração da Fundação Millennium BCP, enalteceu a parceria entre esta instituição, o Museu Municipal, a Câmara de Faro e o artista «que cedeu muitas das suas obras ao espólio da coleção Millennium BCP, para permitir esta exposição de espectro alargado que faz a ligação intercultural entre relicários africanos e aquilo que produz, hoje, em termos de contemporaneidade».
«Acredito que esta exposição pode muito bem suscitar o interesse daqueles que visitam Faro nesta altura do ano. Este diálogo, num espaço onde há vestígios da presença islâmica, da igreja católica, das ordens religiosas, tudo isto são camadas sucessivas da história da humanidade, a que acrescentamos agora o talento e a criatividade de José de Guimarães», acrescentou o responsável.
«A parceria que temos estabelecida com a Câmara Municipal de Faro tem sido frutuosa e da nossa parte desejamos desenvolvê-la e aprofundá-la», garantiu. Nogueira sugeriu um momento musical para assinalar o encerramento da exposição, a 11 de setembro, data em que será assinado um protocolo «para que a Fundação Millennium BCP durante três anos se comprometa com o Prémio António Ramos Rosa, esse grande nome da poesia algarvia».
Também presente, Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, sublinhou a «política cultural de descentralização» levada a cabo pelo responsável da Fundação Millennium BCP, «com uma grande visão daquilo que deve ser o país, a cultura, e não se tem ficado pelos grandes centros urbanos».
Um «feitiço» africano

Nuno Faria, curador da exposição, explicou as «várias camadas de interesse» aos presentes. Na capela, «um espaço muito carregado de memórias e de uma certa retórica, mostramos um conjunto de peças de várias épocas», com destaque aos neons e os LEDs, em quatro pinturas recentes que fazem alusão ao ritual da serpente de uma tribo de índios do Novo México.
Destacou também um raro conjunto de tapeçarias de Portalegre de grandes dimensões mostradas pela primeira vez. Mas a grande surpresa até é uma peça da casa. Trata-se de Nkisi Nkondi, um relicário africano trazido para Faro em 1917. Desde 1971 que estava afastado dos olhares do público.
«Experimentem ficar a sós com esta peça de feitiço», sugeriu Nuno Faria. De estatura tosca e pejada de pregos, é um dos ex-libris do Museu. Chegou ao Algarve pela mão de um militar farense, João dos Santos Viegas que a trouxe da fronteira de Angola com o Congo.
«É uma peça de esconjuro, esconjura e guarda os feitiços e o mau-olhado. Tem um valor extraordinário, quer antropológico, quer escultórico, quer histórico», explicou Nuno Faria.
E, por isso, foi aqui colocada «de forma mais ou menos provisória. Antes de vir a ter uma presença mais efetiva neste museu», é agora mostrada «em ressonância muito forte» com um conjunto de relicários africanos da coleção particular de José de Guimarães, escolhidas pelo próprio.
De referir que este artista foi durante muitos anos, um dos regulares do Centro Cultural de São Lourenço, em Almancil. Aliás, a co-fundadora deste espaço agora encerrado, a alemã Marie Huber, fez questão de estar presente na inauguração.
A última grande mostra do artista na região remota a 2010. «Negreiros e Guaranis» esteve patente no Palácio da Fonte da Pipa, em Loulé, integrada na programação do extinto programa «Allgarve».