barlavento – Voltou a ser reconduzida pelo secretário-geral do Partido Socialista, António Costa, no Secretariado Nacional do PS. É um sinal do reforço da confiança em si e no Algarve?
Isilda Gomes – Não me cabe a mim fazer apreciações sobre a minha prestação, enquanto membro do Secretariado Nacional do PS. Digo apenas o óbvio, se o secretário-geral não considerasse positiva a minha prestação, não me teria convidado a acompanhá-lo em mais um mandato. Também considero que a minha experiência como autarca e o contributo que possa dar, num mandato que terá como ponto alto eleições para as autarquias, possa ter pesado na escolha do António Costa. É ainda um sinal de que o secretário-geral se preocupa com o Algarve, quer que as questões da região façam parte da agenda nacional do partido e da atual governação, e que deposita em mim essa enorme responsabilidade de ser a porta-voz desta região na estrutura máxima do partido. Como sabem sou algarvia de coração, pelo que esta nomeação é uma grande honra para mim. Garanto que tudo farei para que a voz do Algarve esteja sempre presente e que seja ouvida. É um trabalho de todos os que foram eleitos para os órgãos nacionais do PS.
Quais são as responsabilidades que tem neste cargo?
Como órgão executivo, cabe ao Secretariado assegurar a execução das deliberações e decisões dos órgãos nacionais do partido. É uma espécie de governo do partido, onde são debatidas as grandes questões, mas também por onde passa a gestão corrente do PS.
Quais as mais-valias? A região e, em concreto, Portimão continuam a ter uma voz ativa na defesa dos seus interesses?
Na sequência da resposta anterior quero sublinhar que no Secretariado se discutem questões de âmbito nacional, mas como diz o povo e com razão «longe da vista, longe do coração». Seria insensato não aproveitar o facto de estar no Secretariado para defender as grandes questões do Algarve. Relativamente a Portimão, deixe-me dizer-lhe que, infelizmente, existem outras autarquias com problemas de sobre-endividamento. Portimão, neste aspeto, está longe de ser um caso isolado. Garantir que essas autarquias têm por parte do governo a ajuda necessária é fazer a minha obrigação enquanto autarca, vice-presidente da Associação Nacional de Municípios e também enquanto membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista.
António Costa tem considerado as eleições autárquicas como um dos desafios. Qual o objetivo e a estratégia a seguir?
O principal objetivo será o de vencer estas autárquicas. O acordo parlamentar, que permitiu formar este governo, tem provado que é possível, mesmo num quadro de grande exigência, ter políticas de esquerda que contrariem o empobrecimento forçado nos últimos quatro anos. Temos a consciência plena que o futuro do próprio governo também dependerá da força que o PS conseguir demonstrar nestas eleições. A principal tarefa do Partido Socialista será a de continuar a manter-se como o maior partido português em termos autárquicos, renovando dessa forma a liderança da Associação Nacional de Municípios Portugueses.
Lidera uma Câmara Municipal de tradição socialista. Pela sua experiência como presidente, qual será o grande desafio para manter a autarquia?
O grande desafio não é de agora, começou quando eu e a equipa que me acompanha tomou posse e esse desafio tem evoluído ao longo de quase estes 1000 dias de governação. Começou por ser o de manter a porta da Câmara de Portimão aberta, de parar a «sangria» de penhoras e, ao mesmo tempo, conseguir que se pagassem salários, continuando a pagar a dívida para recuperar a confiança dos credores e dos cidadãos. Depois, foi o desafio de colocar as contas em dia. Conseguimos, no final do segundo ano de governação, que a Câmara de Portimão atingisse resultados positivos. Há 10 anos que isso não acontecia tendo sido este o melhor resultado de sempre. Ao mesmo tempo, apresentámos a nossa candidatura ao Fundo de Apoio Municipal (FAM) e conseguimos que a Direção Executiva do FAM, após parecer positivo da Comissão de Acompanhamento, aprovasse a candidatura de Portimão. Muita gente dizia que isso não seria possível. O nosso dossier está, neste preciso momento, a ser analisado pelo Tribunal de Contas. Mas há um grande desafio que me continua a mover, o de desonerar os portimonenses que, nestes últimos anos, têm pago impostos sempre no máximo e o de, simultaneamente, conseguir que esta autarquia fique sem constrangimentos legais para voltar a prestar serviços públicos condizentes com os impostos que os portimonenses pagam. Numa frase, o meu grande objetivo é começar a devolver aos portimonenses o seu esforço, melhorando o espaço público, apoiando o movimento associativo e continuando a apoiar aqueles que têm mais dificuldades.

Não pretendo individualizar, mas começo por afirmar que tenho muito orgulho na equipa de autarcas que o Partido Socialista tem no Algarve. Nas últimas eleições autárquicas, o PS conseguiu conquistar o maior número de câmaras, apresentando programas realistas e candidatos que tinham em comum a proximidade com as pessoas, o dinamismo na sua atuação diária, o bom senso e a solidariedade para com os mais necessitados. Se formos capazes de repetir esta fórmula de sucesso, penso que seremos capazes de manter e até conquistar autarquias.
A saúde tem sido a sua grande «batalha», enquanto presidente da Câmara Municipal. No entanto, apesar das medidas anunciadas ainda são notícia problemas no Serviço Nacional de Saúde (SNS) na região. Qual é a sua opinião sobre a atual situação da saúde no Algarve?
Considero que as medidas que foram tomadas, nos últimos três anos na área da saúde no Algarve, foram criminosas. Tenho a esperança que quem as tomou seja politicamente julgado por aquilo que fez com a saúde da nossa região. E, sobre isto, tenho pena que, na altura em que determinadas decisões foram tomadas, certas pessoas, que exerciam funções públicas relevantíssimas na área da saúde, não tenham assumido publicamente o seu desacordo e se tenham calado. Se na altura certa tivessem falado, talvez hoje não fosse necessário recorrer a «salvadores da pátria». Está-se a tentar reverter decisões tomadas no passado recente e demorará tempo até que se notem os resultados. É muito mais fácil destruir do que construir. Sei que criminoso pode parecer excessivo, mas o que se pode dizer de um conjunto de medidas cujo objetivo deliberado foi racionalizar de forma cega, diminuindo a qualidade da assistência médica a uma parte significativa da população de Portimão e do Algarve – e isto depois de um Tribunal ter dado razão à providência cautelar que foi interposta por mim. Face ao atual estado, depois da sangria a nível dos recursos humanos, onde médicos saíram em debandada do SNS no Algarve, é extremamente complicado repor os níveis assistenciais de outrora. Caso a situação não comece, no curto prazo, a dar sinais de melhoria, não terei nenhum pejo em dar a cara pelo nosso hospital e liderar os portimonenses nesta luta que deve ser de todos.
E como vê a situação das portagens na A22, com a EN125 cheia de estaleiros de obras?
Parecia-me da mais elementar justiça que, enquanto durassem as obras na EN 125, se pudessem suspender as portagens na A22 e tive a oportunidade de dizer isso mesmo ao senhor secretário de Estado das Infraestruturas. Ainda na semana passada, o trânsito na ponte nova foi cortado e o transporte pesado, para e de Portimão, apenas se podia fazer pela A22. Não podemos começar uma intervenção da magnitude da que está a ser feita neste momento na EN125 sem acautelarmos dois aspetos fundamentais: que as obras não apanham o período de verão e que não existam alternativas viáveis para se circular no Algarve sem constrangimentos. Também me parece que vai ser possível reduzir o valor das portagens permanentemente na A22 sem pôr em causa a sustentabilidade financeira do concessionário. Espero que esta medida esteja para muito breve.
Um dos grandes investimentos para Portimão é o Porto de Cruzeiros. Foram aprovadas as dragagens para viabilizar a prova de Motonáutica, mas há mais intervenções prioritárias a fazer. Sempre avança a requalificação do Porto e da envolvente, falava-se do encurtamento da barra, do alargamento do cais comercial utilizando o cais da Marinha?
Vamos ter de separar as águas. A intervenção que se vai agora fazer visa tão só o desassoreamento de uma parte do Rio Arade, em frente ao Clube Naval, que permitirá, além da prova de motonáutica, a navegabilidade naquela parte específica do rio, o que se traduzirá numa maior segurança para a navegação, nomeadamente das embarcações marítimo turísticas. Quanto ao resto, existe um conjunto de intervenções que visa permitir que navios de maior calado possam atracar em Portimão. Trata-se de dotar o porto comercial com capacidade para receber navios de cruzeiro de maiores dimensões, logo mais passageiros. Este conjunto de intervenções estão a cargo da Administração dos Portos de Sines e Algarve e, quer pela sua dimensão, quer pelos recursos que absorve, deve ser um investimento feito com grande critério. Está em fase de estudo para se encontrarem as melhores soluções. Espero em breve ter acesso a esses estudos para que, finalmente, possamos ter a potencialidade do nosso porto maximizada e um turismo de cruzeiros pujante na nossa cidade. Esta é uma obra fundamental para toda a região com especial incidência no Barlavento algarvio. Portimão tem uma localização privilegiada, relativamente às principais rotas de cruzeiros, e a barra mais segura do país, pelo que desperdiçar esta oportunidade seria um atentado contra o desenvolvimento económico do Algarve.
Pode levantar o véu sobre algum investimento ou projeto futuro para Portimão, seja pela autarquia ou por privados?
Quero que fique claro que, tal como disse na campanha eleitoral, as nossas grandes obras são as pessoas. No entanto, existem um conjunto de intervenções que, pela sua urgência, não podemos continuar a adiar. Estou a falar do novo cemitério, cuja proposta de nova localização já se encontra em consulta pública, através do Plano de Pormenor da Quinta do Malheiro. Como todos sabem o antigo cemitério já esgotou a sua capacidade e é urgente encontrar uma alternativa condigna. A nossa ideia é que se localize na parte norte da cidade, numa zona tranquila, e que permita o fácil acesso daqueles que querem homenagear os seus entes queridos. Outra obra que é urgente é a construção de uma gare rodoviária que permita que quem chegue ou parta de Portimão de autocarro tenha condições mínimas para aguardar sem estar à chuva ou ao sol, como hoje acontece. Espero poder lançar esta obra ainda durante o verão. Não queremos nenhuma obra megalómana. Iremos aproveitar parte do mercado por grosso, que se encontra desativado, e adaptar aquela infraestrutura para um novo uso. Uma cidade turística tem de ter condições para receber quem nos visita e não nos podemos esquecer que este tipo de transporte é utilizado sobretudo por estudantes e por pessoas de mais idade. Temos ainda que resolver dois ou três constrangimentos na circulação automóvel em Portimão. Serão pequenas intervenções que reduzirão a sinistralidade e procurarão tornar mais fluido o trânsito na cidade. Gostava de realçar que nenhuma destas obras constava das cem medidas que apresentei aos portimonenses, quando me candidatei e que só serão possíveis porque conseguimos estabilizar a Câmara do ponto de vista financeiro.
O evento âncora do verão será o Festival da Sardinha. O que está previsto?
Está previsto um evento de forte cariz popular, que decorrerá de 3 a 7 de agosto, onde a entrada será livre, com o melhor da música portuguesa. Oportunamente divulgaremos o cartaz, com a animação de rua a percorrer as principais artérias do casco urbano da cidade e uma zona ribeirinha com muito para desfrutar. A grande novidade deste ano é a de que todos os restaurantes que vendam sardinha assada na área de influência do evento, possam integrar os restaurantes oficiais do Festival da Sardinha.
Representantes algarvios no PS
Na primeira reunião deste mandato, a 16 de junho, a Comissão Nacional do Partido Socialista elegeu militantes algarvios para a mesa (Luís Graça), para o Secretariado Nacional (Isilda Gomes) e para a Comissão Política Nacional (Vítor Aleixo, efetivo, Josélia Gonçalves e José Águas da Cruz, suplentes). Antes, durante o Congresso Nacional, no início de junho, havia sido eleita a Comissão Nacional, na qual estão integrados Jorge Botelho, Luís Graça, Ana Passos, Joaquina Matos, Fernando Anastácio, António Miguel Pina, Miguel Freitas (efetivos), Francisco Martins, Vítor Guerreiro, Célia Brito, Ana Sofia Belchior e Ricardo Veia Calé (suplentes), a Comissão Nacional de Jurisdição (Francisco Oliveira) e a Comissão Nacional de Fiscalização Económica e Financeira (Pedro Pimpão, suplente).