É uma manhã diferente em Londres e um dia histórico com o projeto europeu a entrar em território desconhecido.
A primeira consequência política do referendo que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia, com 51,9 por cento dos votos foi a demissão do primeiro-ministro britânico, David Cameron.
Sem adiantar uma data precisa para novas eleições, Cameron disse que o futuro chefe de governo do Reino Unido deverá tomar posse até Outubro e liderar as negociações com vista à saída da União Europeia.
Cameron anunciou que sairá também da liderança do seu Partido Conservador.
«O país precisa de uma nova liderança», afirmou Cameron, numa declaração à porta do nº 10 de Downing Street, a sua residência oficial desde 2010.
«Farei tudo para manter o navio estável, mas não seria certo ser eu o capitão que vai levar o país até ao seu próximo destino», afirmou.
A primeira decisão que o novo primeiro-ministro terá pela frente será a de escolher o momento para accionar o Artigo 50º do Tratado de Lisboa, que põe em marcha as negociações para a separação. Só depois deste passo deverão começar as negociações para a separação.
Durante meses, o líder conservador insistiu sempre que o seu futuro político não estava ligado ao resultado do referendo, da mesma forma que, no decorrer da campanha, assegurou que se os britânicos votassem a favor da saída da UE iria desencadear o processo para a saída da UE «na segunda-feira seguinte».
Mas o governo e o partido que ainda lidera apresentaram-se divididos neste referendo e, durante a campanha, um e outro lado trocaram acusações e até insultos que tornaram insustentável a posição de Cameron.
Na despedida, o líder conservador – que há pouco mais de um ano conseguiu, contra todas as expectativas, maioria absoluta no Parlamento – afirmou-se «orgulhoso» do trabalho do seu governo e reafirmou a sua convicção de que o Reino Unido conseguirá superar a instabilidade que o processo de saída da UE trará.
Entretanto, os analistas já falam em «sexta-feira negra» nos mercados, com a libra a cair para mínimos históricos.
Recorde-se que este cenário não é favorável ao Algarve, que tem no Reino Unido o seu principal mercado emissor. Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), previu ao «barlavento» que a saída da UE, «se isso se viesse a verificar, as implicações no turismo do Algarve seriam terríveis. A depreciação da Libra Esterlina face ao Euro poderia atingir os 20 a 30 por cento, afetando seriamente o poder de compra dos turistas britânicos e, por essa via, a competitividade e os resultados económicos das nossas empresas, consubstanciados em um aumento do desemprego e número de insolvências. O volume de investimento em segundas residências e turismo residencial envolve mais de 750 mil ingleses em cada ano. O turismo do Algarve acabava? Não, mas que levava um grande rombo… lá isso levava».
Em termos de resultados finais, apenas a Escócia (62% a votarem a favor da permanência UE) e a Irlanda do Norte (55,8% a votarem a favor da permanência na UE) defenderam o projeto europeu. Ainda assim não foi possível travar a vitória dos que escolheram a saída na Inglaterra (53,4%) e o País de Gales (52,5%). Veja os resultados aqui.