Investigação de Brígida Baptista sobre a pesca do atum no Algarve, com forte impacto social, patrimonial e educativo, foi ontem distinguida pela NOVA FCSH.
A arqueóloga e investigadora Brígida Baptista, do Centro de Humanidades (CHAM) da NOVA Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (NOVA FCSH), venceu um dos cinco prémios da iniciativa Research Impact Narratives, que distingue trabalhos científicos com impacto social, cultural, ambiental e em políticas públicas.
Pela terceira vez, a NOVA desafiou os seus investigadores a comunicarem o impacto dos seus projetos de investigação através de um concurso de escrita de narrativas. As duas primeiras edições contaram com submissões provenientes de diversas áreas científicas, envolvendo 354 docentes e investigadores.
Este ano, o júri reconheceu a narrativa «Tuna Odyssey: the story of a fishing village and the resource that sustains it», baseada em mais de uma década de investigação sobre a pesca do atum no Algarve, com especial incidência em Santa Luzia e na antiga armação do Barril.
O prémio tem um valor monetário de 2.000 euros e distinguiu cinco projetos entre 29 candidaturas apresentadas.
Mais do que um exercício académico, o trabalho agora premiado da investigadora algarvia, demonstra como a investigação histórica e arqueológica pode transformar-se em ação concreta no território, envolvendo comunidades piscatórias, escolas, autarquias e entidades culturais, com efeitos mensuráveis na valorização do património marítimo.
Da memória familiar à investigação científica
A investigação de Brígida Baptista teve início em 2010, a partir de histórias familiares ligadas à pesca do atum. Parte da sua família esteve associada a armações do Algarve e a contextos de pesca no Norte de África, o que conduziu a um percurso académico centrado na relação entre comunidades marítimas e o mar. Esse trabalho evoluiu para um doutoramento sobre a pesca do atum no Algarve entre os séculos XVI e XVIII.
«O que a narrativa de impacto tenta mostrar é o que é que o meu trabalho, enquanto investigadora do CHAM, impacta numa comunidade», explicou ao barlavento. Segundo a investigadora, o objetivo passa por «trazer uma história que estava silenciada» e devolvê-la às comunidades, aos pescadores e às famílias que viveram da pesca do atum.
A investigação cruza fontes escritas e cartográficas de arquivos nacionais e internacionais com história oral e património material. No âmbito desse trabalho foram realizadas entrevistas e registos fotográficos a cerca de 25 antigos pescadores e familiares ligados à última armação de atum da região, permitindo recuperar uma memória coletiva que esteve durante décadas em risco de desaparecer.
Odisseia do Atum: ciência, educação e comunidade
Da investigação nasceu a marca certificada Odisseia do Atum, concebida para um horizonte de dez anos. O projeto alia história, ciência cidadã, educação, turismo cultural e gastronomia, e envolve parcerias com a associação Lais de Guia – Associação Cultural do Património Marítimo, o município de Tavira, a Junta de Freguesia de Santa Luzia, a Real Atunara e a Cátedra UNESCO «The Ocean’s Cultural Heritage».
A marca inclui uma maleta pedagógica desenvolvida no âmbito do CHAM, concebida para alunos do 1.º e 2.º ciclos, com conteúdos adaptados à idade, linguagem acessível e recurso a objetos táteis, jogos e narrativas visuais, aproximando ciência, história e património de públicos não especializados. Estas atividades tiveram impacto particular em alunos com ligações familiares à pesca, promovendo o diálogo intergeracional.
A Odisseia do Atum esteve presente em eventos nacionais de divulgação científica, como a Noite Europeia dos Investigadores, em Lisboa, onde participaram mais de três mil pessoas, e o Festival Internacional de Ciência de Oeiras, alcançando cerca de 350 alunos.
Rotas do Atum com impacto medido
Outro pilar do projeto são as Rotas do Atum, percursos interpretativos no Barril que incluem painéis informativos bilingues, folhetos, atividades escolares, palestras abertas e caminhadas com antigos pescadores e famílias.
Inicialmente pensadas para a comunidade local, as rotas passaram a integrar o programa Ciência Viva no Verão, em colaboração com o Centro Ciência Viva de Tavira. Entre 2017 e 2024 foram realizadas 42 rotas, envolvendo 622 participantes. Só entre 2021 e 2023, realizaram-se 29 rotas para um total de 435 pessoas, incluindo escolas, universidades, empresas, turistas e residentes. Em 2023, uma das rotas foi preparada para 77 participantes no Congresso Nacional de Informação Turística.
Cada percurso é adaptado ao público, tendo em conta idade, necessidades especiais, nível de escolaridade e nacionalidade, reforçando a dimensão inclusiva do projeto.
Do Algarve para o Atlântico e o Mediterrâneo
O trabalho centra-se no atum-rabilho, uma espécie hoje protegida e de elevado valor económico, que ao longo de séculos estruturou economias locais, redes comerciais e formas de vida no Algarve. A investigação enquadra-se no projeto europeu For Oceans – Human History of Marine Life, financiado por um ERC Synergy Grant, e aponta para uma leitura transnacional da pesca do atum.
O Algarve surge como território de passagem de um recurso que liga o Atlântico ao Mediterrâneo e que uniu, ao longo do tempo, comunidades da Noruega ao Norte de África, da Galiza à Itália e à Turquia. «As coisas são muito transversais. O que existia na época moderna manteve-se quase igual nos anos 40 e 50», explicou a investigadora, referindo-se às técnicas, instrumentos e formas de conservação do atum.
Reconhecimento, futuro e continuidade
Além do prémio agora atribuído pela NOVA FCSH, o trabalho de Brígida Baptista foi distinguido em 2024 com a Medalha de Mérito de Grau Prata da Junta de Freguesia de Santa Luzia. Nesse mesmo ano, a associação Lais de Guia recebeu a Medalha Municipal de Mérito de Grau Prata da Câmara de Tavira.
O projeto foi ainda convidado a integrar a Rota do Atum na Rede Portuguesa de Turismo Industrial, num processo em curso. A investigadora prepara agora novos projetos e candidaturas a financiamento europeu, procurando alargar esta abordagem a outras comunidades atlânticas e mediterrânicas ligadas à pesca do atum.
O trabalho vencedor será publicado na revista da Universidade. Em paralelo, Brígida Baptista prepara a edição de um livro sobre a pesca do atum, com lançamento previsto para a primavera de 2026.
«As narrativas nunca estão fechadas. Estamos sempre a correr contra o tempo, porque quando alguém morre leva consigo uma parte da história», afirmou. Conhecer, pertencer e partilhar surgem, assim, como passos essenciais para proteger um património comum que cruza ecossistemas naturais, memória coletiva e comunidades humanas.
No âmbito deste desafio já foram distinguidos 12 vencedores e atribuídas 11 menções honrosas, que podem ser consultados aqui, bem como nas edições da Revista NOVA Science 2023 e 2024.
Barril, Santa Luzia e um património em risco
Outros dos eixos centrais do trabalho de Brígida Baptista é a antiga armação do Barril, também conhecida como armação dos Três Irmãos, uma das mais importantes estruturas da pesca do atum no Algarve e um caso paradigmático da industrialização desta atividade na costa sul.
Foi fundada em 1867 por José Pires Padinha, comerciante, armador e industrial de Tavira, em parceria com dois sócios, inserindo-se numa rede de armações que, ao longo do século XIX e início do século XX, moldou profundamente a economia marítima regional.
O ano de maior registo ocorreu em 1881, com a captura de 46.825 atuns de direito e de revés, um número que ilustra não só a abundância do recurso, mas também a capacidade organizativa e logística da armação.
O funcionamento era sazonal, entre abril e setembro, e implicava a mobilização de dezenas de trabalhadores, muitos deles com as famílias instaladas no local, dando origem a uma verdadeira aldeia industrial dedicada à pesca, transformação e conservação do atum.
A armação dispunha de habitações, armazéns, oficinas e infraestruturas de apoio, configurando um modelo de ocupação costeira fortemente dependente do ciclo do peixe. O encerramento em 1966 marcou o fim de uma atividade secular e deixou um vasto património material e imaterial — edifícios, utensílios, memórias e práticas — que permaneceu durante décadas sem uma leitura histórica integrada.
Esse trabalho de leitura histórica teve consequências práticas na gestão do território.
No antigo complexo do Barril, 248 grandes âncoras de ferro depositadas nas dunas, durante anos sem qualquer proteção, passaram a estar vedadas e sinalizadas após alertas fundamentados dirigidos às entidades responsáveis, reduzindo riscos para a segurança pública e travando a degradação de um património considerado único à escala nacional.

