«Pergunto-me se alguém já se preocupou em saber o que é que um estudante que vive em Vila Real de Santo António ou em Albufeira tem de fazer para estar no campus de Gambelas ou da Penha às 8h30 para as aulas?» A questão colocada por António Branco durante um encontro com os jornalistas é pertinente, numa altura em que a AMAL – Comunidade Intermunicipal, assume o desafio de solucionar o quebra-cabeças da mobilidade. E «se olharmos para a realidade percebemos que numa população de 60 mil habitantes, a universidade movimenta cerca de 10 mil pessoas. É uma percentagem elevadíssima. Isto configura claramente Faro como cidade universitária», identidade que o reitor desejava que «fosse mais assumida do que aquilo que é».
E explicou porquê. «Os estudantes estrangeiros são quem mais nos manifesta estranheza por não terem ciclovias diretas para os campi. Com este clima, com esta paisagem, com a qualidade que aqui encontram, estranham como não é possível irem do centro de Faro para qualquer um dos campi em segurança? Como é possível que numa cidade, por onde passam 10 mil pessoas por dia nos dois campi e, cuja maioria não usa carro próprio, nós ainda não tenhamos sido capazes de sentar os responsáveis, por exemplo, da CP, da EVA e empresas subsidiárias para articularem os horários dos comboios com o dos autocarros urbanos?», voltou a frisar.
Questionado sobre a falta de quartos para estudantes em Faro, já que muitos foram agora convertidos em Alojamento Local para o turismo, António Branco considerou que os «agentes ativos da cidade» devem perceber que podem transformar este problema «numa oportunidade de negócio» com impacto positivo na economia local.
A UAlg tem hoje 1200 alunos estrangeiros de 70 nacionalidades que representam 15 por cento da população estudantil, e que colocam a academia algarvia na quarta posição no país em termos de proporcionalidade. «Estamos a proporcionar a Faro uma oportunidade de ser uma cidade mais cosmopolita, se quiser assumir ainda mais uma identidade universitária», considerou. Este raciocínio é também válido para o Algarve, embora o reitor lamente que «a região, em aspetos muito básicos e evidentes, não consegue compreender a importância que a sua universidade tem, nem a importância de dar qualidade» de vida à comunidade académica.
Dotação orçamental insuficiente
Também não foi surpresa para os jornalistas que o Orçamento de Estado (OE) para 2017 não agrada ao reitor. «Não posso deixar de dizer que a dotação da Universidade do Algarve é manifestamente insatisfatória», sublinhou. Em 2010, «o ano de transição para a crise, tivemos cerca de 40 milhões de euros. Para 2017 vamos ter uma dotação de 33 milhões», esclareceu António Branco. «A aplicação do memorando da troika implicou cortes em todo o sector público. Isso já acabou, e portanto há a expectativa que nos voltemos a aproximar de alguma maneira de valores de dotação que correspondam àquilo que o país e que a universidade precisam. Ainda estamos muito longe», disse.
Ainda assim, entre o ano letivo passado e o presente, houve um aumento de 2,5 por cento na dotação que serão «absorvidos por um dispositivo legal que nos obriga a repor os vencimentos a partir deste último trimestre» por inteiro.
Também as consequências do desinvestimento do Estado no ensino superior «são as mesmas que têm vindo a acontecer. Esta verba é insuficiente para pagar despesas com pessoal» pois só cobre 75 por cento. O reitor soma as alternativas que tem para «tentar ir garantido algum equilíbrio orçamental. É muito simples. As propinas e o esforço das famílias, as receitas de projetos que dependem das candidaturas que fizemos e que ainda assim não são aplicáveis às necessidades básicas da universidade. As prestações de serviços e pouco mais», enumerou.
«Não estamos a fazer investimento quase nenhum, nem manutenção do património edificado. Vamos fazendo remendos. Não temos a possibilidade de renovar o equipamento tecnológico que vai ficando obsoleto. E vamos continuar a pedir a todas as pessoas que aqui trabalham níveis de contenção enorme».
«Serei tentado a dizer que em Portugal já nos habituamos à palavra crise. Já se normalizou. A consequência disto é percebermos até quando é que nós aguentamos, enquanto coletivo, este nível de crise em que vivemos e em que estamos a normalizar coisas que não são muito normais», disse o reitor.
Este ano, o aumento das impopulares propinas foi travada pelo Conselho Geral. O impacto não foi trágico graças ao «aumento muito significativo de estudantes internacionais, que têm uma propina diferenciada, mais cara, que ajudou a ultrapassar uma parte do problema». Entraram 185 novos alunos em full time para licenciaturas. Em relação às contas do ano passado, nada ficará em dívida, e serão fechadas graças a «uma ginástica terrível».
Dinâmicas de procura e oferta
«Não tenho a certeza ainda que haja alguma área condenada na Universidade do Algarve. É evidente que há um problema nas engenharias, que é nacional» frisou, deixando claro que «não há nenhum curso com zero alunos. O curso de engenharia civil que tem sofrido sistematicamente esse problema, está neste momento, a recuperar através dos estudantes estrangeiros».
Para o reitor é uma prova «que a estratégia de internacionalização para a captação de alunos para áreas em que há massa crítica instalada, equipamentos, professores, investigação, mas com poucos alunos, pode vir a resultar». Ainda sobre a oferta formativa, António Branco explicou que o curso de Ciências do Mar, foi renovado e acreditado dando origem a uma nova licenciatura em Gestão Marinha e Costeira.
«Vemos aí uma oportunidade de recuperar alunos numa área que é estratégica para a universidade, para a região, e para o país» Na verdade, o curso de Ciências do Mar estava a perder candidatos. «Uma explicação sociológica interessante que ouvi, é que ao longo de muitos anos, o sector das pescas e de tudo o que está ligado ao mar, foi um sector de grande pobreza no Algarve. E portanto, as famílias que entretanto ganharam condições para pôr os seus filhos a estudar, ainda associam esta área à pobreza. Foi uma ideia que os professores do ensino secundário passaram aos nossos. E repare, está a acontecer o mesmo com a agronomia. Suspeito que poderá haver razões deste tipo. Há clara falta de engenheiros agrónomos e o desenvolvimento agroalimentar no país, é aliás, um dos eixos da estratégia Portugal 2020. Mas não tem sido fácil convencer as famílias que é uma profissão que não conduz à pobreza», explicou o reitor.
Medicina de boa saúde
O curso de medicina da Universidade do Algarve, segundo António Branco «está a correr muito bem». A contestação de que foi alvo no início «é como aquelas crianças que quando nascem têm de resistir aos virus e às bactérias. Isso também dá a estas crianças uma força diferente em relação às que não têm que resistir a ataques externos», metaforizou. «Acho que essa história, esse tipo de pressões, já não têm nada a ver com o que aconteceu no início, até porque já formámos muitos diplomados que estão nos hospitais. E portanto, já se começa a perceber que são médicos como os outros, com as mesmas qualificações e qualidades», rebateu. «Quando tomei posse disse aos meus colegas de Medicina que valorizássemos pouco a questão das pressões e valorizássemos muito a formação dos médicos, porque eles seriam a demonstração concreta que esta escolha da Universidade do Algarve iria dar resultado. Temos médicos em internato e outros a fazer especialidades e não há discriminação nenhuma do nossos diplomados», garantiu.
Numa semana em que o ministro da Saúde sublinhou que o Algarve vai precisar de um hospital central universitário, será esta declaração uma garantia que o curso está para ficar? «Temos tido muitos contactos e há uma estratégia política muito clara que retoma a ideia que esteve na base da criação do curso de Medicina», no Algarve, disse António Branco, que fala em «renovação da energia».
«Temos de dar vários saltos de qualidade. A colaboração com a administração do CHA é a melhor possível. Pela primeira vez, faz parte uma professora do nosso curso, e há uma ligação muito próxima. Esse objetivo é desejável para o Algarve e para o país. Creio que temos condições para o atingir» no futuro.
Um canudo para quê?
«O modelo neoliberal que acabou por contaminar quase todos os aspetos da sociedade teve, pelo menos, um efeito muito perverso. Um certo desalento da população em relação aos benefícios do diploma superior na sua relação com a qualidade de vida que se obtém através do emprego» que este poderá possibilitar. «Concordo com uma certa visão negativa, mas os diplomados do ensino superior acabam por conseguir um vencimento 70 por cento superior aos que não o têm», comparou. «Desse ponto de vista puramente economicista, continua a haver razões» para estudar. «O problema é mais de fundo. Que cidadãos queremos para o futuro? Na minha opinião, a formação não é feita apenas para garantir emprego às pessoas. É feita para dar instrumentos que lhes permitam atuar na sociedade de uma forma crítica, construtiva e isso também implica a sua capacidade de trabalho e aquilo que são capazes de fazer», considerou o reitor.
«Ainda do ponto de vista neoliberal, esta tendência que o capitalismo acabou por seguir, faz com que mudemos muito de emprego ao longo da vida. Mais uma razão para termos um diploma de ensino superior. Aquilo que se está a pedir hoje aos trabalhares é uma enorme capacidade de adaptação. Quanto mais informação para a reflexão eu tiver, quanto mais capacidade de encontrar conhecimento, mais capacidade terei para me adaptar a um mercador de trabalho muito difícil», exemplificou.
«Eu sou licenciado em Línguas e Literaturas, formações que são, desde há umas décadas, muito pouco valorizadas. Mas eu sou responsável pela área de finanças e recursos humanos da Universidade do Algarve. Não tive nenhuma formação na área da gestão, mas tenho capacidade de aprender», exemplificou. «Além dos conteúdos, aprendi que tenho uma capacidade ilimitada de aprender», sublinhou. «É esta a mensagem. Temos capacidade ilimitada de aprender e é desperdício não a usar».
