«É uma estrela espacial. É um cometa. É um objeto extraterrestre», descreve Tó Quintas, cenógrafo, inventor, aeromodelista e mestre artesão que tem dado vida a muitos cenários e adereços das peças da ACTA e de outros tantos coletivos das artes cénicas da região.
A peça (instalação) está exposta na rotunda em frente ao Teatro das Figuras, conhecida pela acentuada assimetria com a envolvente, e também pela pejorativa alcunha de vagina, referente à forma da fonte que pouco funcionou.
A «Estrela» é, porém, outra história. Foi uma encomenda da Câmara Municipal de Faro para assinalar a quadra natalícia. «Incluía, além da decoração da Rua de Santo António, uma peça para uma rotunda. Claro que eu nunca iria fazer algo convencional. A estética já me estava na cabeça há muito tempo», confidenciou ao «barlavento» Tó Quintas.
Para isso concebeu e construiu uma estrutura de «aros concêntricos em ferro soldado que convergem em tubos de PVC». A esfera central tem um metro de diâmetro, a partir da qual sai uma centena de varas que, no máximo, alcançam cinco metros de extensão.
«A ideia original era usar também tubos de acrílico para criar mais níveis de luz, de forma a não ficar tudo concentrado nas pontas, embora estas tenham diferenças de tamanho entre si», explicou o criador.
«Já que aquela rotunda é tão vazia e não tinha nada, resolvi colocá-la ali. Tem passado um pouco despercebida. Só agora, que o Natal já passou, é que as pessoas estão a reparar».
Filipe Marques, 33 anos, fundador da microempresa algarvia de domótica, engenharia e informática «Smotics», concebeu toda a eletrónica que se esconde na estrutura e o software que lhe dá vida. Nunca tinha feito arte pública, mas aceitou o desafio que o amigo Tó Quintas lhe colocou.
«O trabalho foi mais moroso do que eu estava à espera. Ao todo, a estrela tem 100 pontas e cada uma necessitou de oito soldaduras. Foram 40 horas de trabalho em duas semanas». Toda a programação e a parte física envolveu entre 800 a 1000 soldaduras. «Foi preciso preparar todas as pontas dos cabos, de uma ponta à outra. Eu sabia que os LEDs (Light Emitting Diode) tinham de mudar de cor e ser à prova de água. Depois de muita pesquisa acabei por encontrar os adequados. Liguei-os todos em série. Explicado de forma simples, o primeiro LED comunica com o seguinte, informando qual a cor que o próximo deve seguir até formar toda a sequência», num total de oito combinações aleatórias… ou não.
Apesar do prazo apertado para concretizar e entregar o projeto, Filipe Marques quis incorporar uma inovação: a capacidade da «estrela» interagir com o público. Qualquer pessoa pode enviar uma mensagem de telemóvel (SMS) pré-definida para o número de telefone 920 554 262, com as palavras (Arco-íris; Neve; Fantasma; Aleatório; Twinkle;Cor vermelha; Cor verde; Cor azul). Mas essa possibilidade, contudo, não foi divulgada por fonte oficial.
«Acho que a Câmara nem sabia do que a peça é capaz de fazer. Pediram-nos uma coisa bonita que desse luz… e pronto. Tudo o resto foi iniciativa nossa. Se fizermos uma análise fria ao número de horas de trabalho que isto envolveu, claro que não se justificava. Mas achámos que valeria a pena fazer acontecer e oferecer isto à nossa cidade». Num próximo trabalho, Filipe Marques quer aprofundar a interatividade e ambiciona criar, por exemplo, uma página na internet onde as pessoas possam submeter os pedidos para controlar o jogo de luzes.
No futuro «eu gostava que a estrela ficasse na cidade. Acho que é uma peça interessante. Pode pensar-se que é muito alusiva ao Natal, mas acho que também funciona muito fora dessa temática. Pelo feedback que tive, toda a gente acha que Faro deveria ter mais interação», por exemplo, com arte pública, à semelhança do que acontece noutras urbes europeias. «É um ponto forte deste projeto. O único problema é ter sido colocada num sítio em que a iluminação é fraca. Perde-se um pouco. Ao longe não se percebe bem o que é. Ficou a faltar iluminação no centro» para se destacar que o Algarve hoje já tem inteligência e mão de obra sofisticada e hábil para realizar pequenas grandes obras, fora do tempo presente, mas projetadas para o futuro.
«Estrela» fica onde está até às obras na rotunda
Paulo Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Faro e responsável pelo pelouro da Cultura, explicou ao «barlavento» que «quando pensámos no conceito da decoração de Natal este ano, surgiu a ideia de convidar artistas locais para colaborarem. Assim, desafiámos o Tó Quintas a desenhar diversas soluções, na baixa da cidade e não só. Para a rotunda do Teatro das Figuras, pedimos–lhe que concebesse algo que não se circunscrevesse ao período festivo. O resultado foi muito positivo. A peça ficará ali durante mais alguns meses, até avançarmos com a obra de remodelação da rotunda, o que deverá acontecer dentro de alguns meses. Estamos agora a pensar no destino a dar a esta instalação que está a ser, com toda a justiça, alvo de uma atenção especial à qual não somos indiferentes», garantiu.



