Estamos a meter água onde realmente faz falta. Mas… e agora? Vamos relaxar, fingir que o problema acabou e voltar ao velho hábito de desperdiçar como se não houvesse amanhã?
Desta vez, literalmente. Depois de meses (ou melhor, anos!) de seca severa, a chuva finalmente chegou e estamos a encher barragens como há muito não se via. Aleluia!
Estamos a meter água onde realmente faz falta. Mas… e agora? Vamos relaxar, fingir que o problema acabou e voltar ao velho hábito de desperdiçar como se não houvesse amanhã?
Pois é, mal a chuva cai, parece que a memória evapora. O discurso muda: «Agora já temos água, não há crise! Campanhas de sensibilização? Que ridículo!».
E lá voltamos nós ao erro clássico: achamos que o ciclo da abundância dura para sempre. Mas sabem que mais? Esse é exatamente o pensamento que nos faz meter água no pior sentido possível!
A ilusão da abundância
O Algarve, tal como em muitas outras regiões, vive entre extremos: ou falta água ou cai tanta que até nos esquecemos de que um dia tivemos seca. Mas a questão é simples: a chuva de hoje não apaga os anos de escassez que temos vivido, e o mais recente desde 2018. Se gastarmos sem pensar, se não fizermos uma gestão inteligente, voltaremos a secar tudo em menos tempo do que levamos a ler este artigo.
E depois? Depois voltam os alarmes, os cortes, as medidas de emergência e de contingência (…). Voltamos ao chorrilho de desculpas e pedidos de «uso responsável». Mas não devíamos aprender de uma vez por todas que a água é para ser bem usada SEMPRE, e não só quando nos falta?
O que fazemos com esta oportunidade?
Agora que a natureza nos deu um pequeno alívio, temos duas opções: ou usamos esta água com cabeça, garantindo reservas e investindo na sua gestão eficiente, ou continuamos a desperdiçar até à próxima crise.
Se optarmos pela segunda, daqui a uns meses, quando voltarmos a ver barragens a esvaziar, ouviremos de novo aquele discurso: «Ai que azar, estamos sem água! S.Pedro esqueceu-se de nós» Mas não é azar. É irresponsabilidade.
Por isso, um aviso a todos: celebremos a chuva, sim! Mas sem esquecer que a água não se guarda na memória, guarda-se nas barragens, nos aquíferos, nos nossos bons hábitos. Se a gastarmos como se não tivesse fim, voltamos ao ponto de partida.
E aí, quando a torneira secar, de nada vale dizer que foi azar. Porque azar é só uma desculpa para quem não aprende com os erros!
Teresa Fernandes | Especialista em Estratégia de Comunicação e Educação Ambiental