A hotelaria do Algarve vai poder aderir, muito em breve, ao novo selo «Save Water» que certificará a poupança de água nas unidades de alojamento turístico.
Face à situação de contingência de recursos hídricos no Algarve, André Gomes, presidente do Turismo do Algarve, referiu hoje na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, «o compromisso do sector do turismo para dar o seu contributo para mitigar este problema», revelando uma novidade, o selo «Save Water».
«Estamos aqui com a responsabilidade, por assim dizer, não só de levar a cabo a campanha de sensibilização Água é vida, em conjunto com todas as entidades envolvidas», mas «muito, em particular, a implementação de um selo de eficiência hídrica que traz consigo a implementação de um conjunto alargado de medidas específicas de eficiência hídrica», e cuja base técnica foi trabalhada com a ADENE – Agência para a Energia.
«Vem trazer algo que o próprio sector já tinha identificado anteriormente: que nos falta muitas vezes, uma validação técnica, específica, da eficácia da eficiência hídrica que temos vindo a implementar, em grande medida nos nossos empreendimentos. Portanto, já temos preparado um conjunto de 60 medidas» associadas ao novo selo «Save Water», cuja adesão será voluntária e gratuita.
Destas 60 medidas, qualquer unidade de alojamento turístico «vai poder identificar quais já estão implementadas, o que permitir-nos-á ter um retrato daquilo que é o nível de eficiência hídrica do sector na região» e, por sua vez, assumir «um compromisso de implementação de um conjunto de medidas adicionais até ao final do ano, que venham, de facto, contribuir para o objetivo de redução de 15 por cento do consumo ao nível do sector urbano, onde está inserido o sector doméstico e não doméstico e o sector do turismo», explicou ao barlavento.
Para implementação do selo, a data prevista era 1 de março, embora, ainda falte finalizar alguns detalhes de «parametrização da plataforma» online, onde toda a informação será centralizada.
«Este conjunto de medidas vai ser trabalhado com os alojamentos turísticos ao nível de uma plataforma online que, neste momento, está a ser finalizada entre a ADENE e o Turismo de Portugal, porque nós exigimos, obviamente, que haja um cruzamento de dados, devido às questões de legalização, de preenchimento prévio, entre outras».
O modelo é semelhante ao do selo «Clean & Safe» implementado durante a pandemia de COVID-19.
«Sim. É um selo de adesão voluntária e gratuita. Como já tivemos oportunidade de referir, para as unidades de alojamento turístico, desde os empreendimentos até ao Alojamento Local».
A apresentação formal do selo «Save Water» será agendada para breve, «assim que estiverem reunidas as condições para as pessoas voluntariamente aderirem e poderem começar a submeter os compromissos», previu André Gomes.
«Fazem a sua assunção do compromisso e identificam entre a lista das 60 medidas de eficiência hídrica quais as que já têm implementadas. Estão divididas entre 20 prioritárias e 40 estruturantes», sendo que «as unidades podem escolher» o rumo a seguir.
«Prioritárias no sentido de poderem dar um resultado, um contributo mais imediato para a situação que vivemos e que, portanto, passam pela instalação de redutores de caudal que reduzam dos habituais 12 litros (l) para 9 l nos chuveiros, autoclismos eficientes, toda uma série de coisas que se podem fazer. São prioritárias porque entendemos em conjunto, pois todas estas medidas foram trabalhadas com uma forte participação por parte das associações representativas do sector da hotelaria».
Do ponto de vista da identidade gráfica, o selo apresenta uma gota de água com um código QR que remete para a plataforma online.
Os hóspedes, turistas e comunidade vão poder «consultar quais os estabelecimentos hoteleiros que aderiram» ao exemplo do que acontecia com o anterior «Clean & Save» e também conhecer «qual o nível de eficiência de cada um deles, em função do número de medidas implementadas».
André Gomes admite que a adoção do «Save Water» terá que ser gradual. «O compromisso é que cada unidade de alojamento turístico aderente possa implementar, até ao final de 2024, um conjunto de 30 medidas, em três fases».
Uma primeira fase até abril, uma segunda até junho e a terceira e última entre julho e dezembro, numa média de 10 medidas em cada fase.
A cada 10 medidas implementadas, será atribuída à unidade aderente uma «gota» na plataforma online. O objetivo é atingir as três «gotas», que significa que as três fases foram completadas.
«O sector depois também vai querer comunicar o facto de ter o selo e o nível de implementação», prevê André Gomes.
«Além da implementação das medidas, é muito importante a área do ambiente, referir que vai existir uma monitorização dos consumos» das unidades hoteleiras aderentes, ao longo das três fases de implementação das medidas, cuja parte técnica será assegurada pela ADENE.
Desta forma, o novo selo «Save Water» «não será apenas uma formalidade e uma coisa passiva», destaca o presidente da RTA.
«Este selo é da responsabilidade do Turismo do Algarve com o Turismo de Portugal e com ADENE, tendo claramente a vertente da monitorização da responsabilidade por parte da agência».
O mais importante é que essa informação seja disponibilizada na plataforma, que quem a consulte, quer os próprios hoteleiros, quer o público em geral, possa não só identificar que unidades aderiram ao selo, mas também qual o nível de eficiência e de implementação das medidas por parte de cada um».
«Temos tudo fechado: a declaração de compromisso, a listagem das 60 medidas e o plano de ação», assegura.
Questionado sobre se estas 60 medidas garantem efetivamente alguma poupança, André Gomes é assertivo: «têm de contribuir, até porque é a própria ADENE que as propõe. É o tal caráter técnico e científico que muitas vezes falta ao sector. Temos unidades hoteleiras que se dizem bastante eficientes, mas elas próprias, neste processo e nas reuniões de trabalho que temos tido, julgam que são eficientes. Mas se calhar, agora têm oportunidade de serem muito mais eficientes. A ADENE, com estas medidas, veio-nos trazer essa certificação».
Há ainda outra uma boa notícia, pois os aderentes não terão de gastar dinheiro no processo.
«Pelo contrário, têm acesso a um mecanismo de financiamento do Turismo de Portugal, de 10 milhões de euros, para a implementação destas medidas», que pode chegar aos 100 por cento, nalguns casos. «Mas têm de aderir ao selo, obviamente, para ter acesso a estes financiamento para implementar as medidas», acrescenta.
«Estamos a preparar todo um plano de comunicação associado à divulgação do Save Water», aponta ainda.
«Como contributo para esta questão da água, fomos nós que nos chegámos à frente e que dissemos o que poderíamos fazer especificamente para a eficiência hídrica, na base do compromisso da adesão voluntária e gratuita. São medidas fiáveis e credíveis que vão dar resultados», nas palavras de André Gomes.
«Sei que muitas unidades já estão a agir. A partir do momento em que tiveram conhecimento das medidas, começaram a implementar. Por exemplo, a reconversão e redução de espaços verdes para áreas de deck. Não o fazem porque estão à espera do selo, mas porque reconhecem a urgência deste problema», conclui.
Objetivo é chegar aos 70 por cento de adesão
Ouvida pelo barlavento na BTL, em Lisboa, Ana Paula Rodrigues, vice-presidente do conselho de administração da ADENE, revelou «quando fomos desafiados para apoiar o plano de contingência para a eficiência hídrica do Algarve, rapidamente acedemos, até porque somos tutelados pelo Ministério do Ambiente e da Ação Climática. Temos estado com Turismo do Algarve, sobretudo a desenvolver um conjunto de ações que permitam melhorar a eficiência hídrica do sector do turismo. A nossa preocupação pela identificação de um conjunto de medidas e vamos ter também agora aqui um papel relevante na monitorização, mas também na sensibilização e na formação».

A dirigente admitiu que a plataforma ainda está a ser finalizada. «O que vamos monitorizar, vamos ter uma componente de identificação do empreendimento ou do alojamento e depois vamos fazer o acompanhamento da evolução dos consumos e dos respetivos indicadores que permitam também a avaliar esta evolução em função da evolução da atividade».
Esta agência já tem experiência nesta matéria através do sistema de classificação AQUA+: aquamais, «que permite avaliar e classificar eficiência hídrica de edifícios e temos um especificamente dirigido aos hotéis. É um sistema que nos permitiu adquirir muita informação sobre este sector, de uma forma muito próxima. O que este sistema permite é que as entidades possam conhecer melhor os seus consumos, das suas várias origens e como é que podem melhorar o seu desempenho hídrico. Passa também pelo apoio de um auditor externo que identifica 10 aspetos diferentes, desde os dispositivos de utilização da água, as torneiras, os duches, a forma como a água é usada para as piscinas, para o golfe, nas cozinhas» e no final é feito um plano de ação.
No caso do selo «Save Water», «fizemos algo um pouco diferente, de aplicação mais rápida, porque estamos a falar de uma situação de emergência. São 60 medidas, umas de aplicação rápida e de efeito rápido e outras mais estruturantes que devem adotadas a mais longo prazo», disse ainda.
Ana Paula Rodrigues sublinhou que «há unidades em situações muito distintas. Algumas já adotam medidas de eficiência hídrica e não estão todas no mesmo patamar. As que podem ter um resultado mais rápido são aquelas que estão ligadas à alteração dos dispositivos que usam menos água para atingir o mesmo objetivo».
Em relação à reformulação dos espaços verdes, «esse tipo de medidas leva mais tempo a ser implementadas. Há obviamente que optar por espécies autóctones, mais resilientes e que necessitem de menos água. Há um duplo benefício, consomem menos água, mas também estão mais adaptadas ao território».
Por fim a dirigente revela que o objetivo é ter o novo selo «Save Water» em 70 por cento das unidades de alojamento do Algarve.
«Penso que haverá uma grande adesão. Temos estado a trabalhar com as associações do sector e de facto, vejo um grande empenhamento», conclui.