Consumidor português tem a mais baixa literacia financeira da Europa, lidera a ansiedade económica e enfrenta desigualdade financeira crescente.
Portugal lidera na Europa o impacto emocional das notícias económicas e o receio de grandes compras e ocupa o último lugar em literacia financeira escolar, segundo o relatório European Consumer Payment Report 2025, da Intrum.
De acordo com o estudo, em Portugal, 77% dos consumidores dizem pagar todas as contas dentro dos prazos, ficando a meio da tabela europeia. Espanha e Áustria lideram, ambas com 83%, enquanto a Alemanha regista 73%. A Grécia apresenta o valor mais baixo do estudo, com 67%.
Apesar desta posição intermédia, o relatório identifica em Portugal uma ansiedade económica sem paralelo entre os países analisados.
Quase metade dos consumidores portugueses (47%) afirma que as notícias sobre a situação económica afetam negativamente o seu bem-estar financeiro e emocional.
É o nível mais elevado entre os 20 países analisados. A Grécia surge em segundo lugar, com 41%, seguida de Espanha, com 40%. Nos Países Baixos, a percentagem desce para 15%.
O receio estende-se às grandes decisões de consumo. Em Portugal, 68% dos consumidores dizem sentir-se nervosos perante compras de maior dimensão, como casa ou automóvel. Também aqui se trata do valor mais elevado do relatório. Itália surge a seguir, com 66%, e a Grécia com 61%.
Em Portugal, 32% dos consumidores dizem fazer mais compras espontâneas online do que há dois anos — valor próximo da média europeia, que caiu de 45% em 2024 para 30% em 2025, sinal de uma contenção crescente no consumo impulsivo em todo o continente.
O relatório descreve este estado como «survival mode», ou modo de sobrevivência financeira, marcado por prudência, contenção e desconfiança em relação ao futuro. Segundo a Intrum, esta ansiedade é particularmente visível no Sul da Europa, onde a memória da crise da dívida soberana e de uma década de recessão continua a influenciar a percepção do risco financeiro.
Perante este contexto cultural, muitos consumidores procuram reforçar a poupança de emergência. Em Portugal, 60% dizem reservar todos os meses parte do rendimento para um fundo destinado a imprevistos — valor elevado no conjunto dos países analisados.
A mais baixa literacia financeira da Europa
O estudo identifica também um dado que levanta perguntas sobre a preparação financeira da população portuguesa. Apenas 10% dos consumidores portugueses afirmam ter recebido uma boa educação financeira na escola, o valor mais baixo entre os 20 países analisados.
No extremo oposto surge a Noruega, com 31%, seguida da Áustria, com 25%.
Segundo o relatório, níveis mais elevados de literacia financeira tendem a associar-se a maior capacidade para gerir dinheiro. Consumidores com menos preparação financeira revelam maior vulnerabilidade a choques económicos, maior dependência do crédito para despesas correntes e menor capacidade de criar reservas para imprevistos.
O estudo sublinha, contudo, que não estabelece uma relação direta de causalidade entre níveis de literacia financeira e percepção de insegurança económica.
Fosso entre ricos e remediados
Além do retrato português, o relatório documenta uma clivagem crescente entre consumidores com diferentes níveis de rendimento na Europa. É o fenómeno que o estudo designa como o alargamento do «debt divide» — o fosso financeiro entre quem tem capacidade para absorver choques e quem não tem.
A diferença é expressiva. No conjunto dos 20 países europeus, entre consumidores com rendimentos acima da média, cerca de nove em cada dez dizem sentir-se confiantes na capacidade de pagar todas as contas a tempo. Entre os rendimentos mais baixos, esse valor desce para cerca de seis em cada dez.
O fosso alarga-se quando surge um imprevisto. Perante uma despesa inesperada de 400 euros, cerca de 90% dos consumidores com rendimentos mais elevados dizem conseguir suportá-la. Entre os mais vulneráveis, apenas metade consegue fazer o mesmo.
Segundo a Intrum, os efeitos prolongados da inflação explicam parte desta assimetria. Os rendimentos mais baixos gastam uma proporção maior do orçamento em despesas essenciais como alimentação e habitação, o que os deixa com menos margem para qualquer variação de preços — e mais expostos quando acontece.
O European Consumer Payment Report 2025 foi realizado pela FT Longitude entre 1 e 31 de agosto de 2025, com mil participantes por país, num total de 20 mil inquiridos em 20 países europeus. O relatório foi publicado em novembro de 2025.
Foto: Bruno Filipe Pires