Um pequeno estúdio portátil, montado no auditório do Fortaleza de Sagres esperava Alexandra Gonçalves, diretora regional de Cultura do Algarve. Luzes, câmara e uma série de perguntas colocadas pelo realizador belga Luc Dumoulin, da ICF/Mostra, empresa que têm feito uma série de reportagens em vídeo e fotografia para a Comissão Europeia, no âmbito da Marca do Património Europeu (European Heritage Label). Apesar do pouco tempo para desenferrujar o inglês, mas segura nas repostas, a responsável falou um pouco sobre a história do Promontório, a sua importância na epopeia dos Descobrimentos, e ainda sobre a vida e obra do Infante D. Henrique.
Ao «barlavento», Gonçalves explicou a importância desta distinção, uma candidatura apresentada pela entidade sob a sua tutela. «A marca e o reconhecimento por parte de um organismo europeu, que teve um júri de especialistas que deliberaram que este espaço merecia ser distinguido, é muito bom. É sobretudo importante pelo que representa para quem trabalha nestes lugares, onde nem sempre têm uma tarefa fácil no acolhimento de milhares de pessoas ao longo do ano, de várias nacionalidades, línguas e culturas».
Em 2015, a Comissão Europeia abriu a participação a todos os Estados-Membros que quiseram propor a um painel de especialistas sítios cuja importância contribuiu significativamente para a história e a cultura europeias, selecionando um total de 18 candidaturas.
Sagres, metaforicamente, «representa um pouco o que é a Europa, que é uma mistura de culturas. Acaba por estar representada neste espaço, até porque foi daqui que houve uma estruturação de um pensamento que levou à descoberta de um novo mundo que até então era totalmente desconhecido», sublinhou Gonçalves.
«Este ano, mesmo com as obras em curso, já temos um aumento em relação a janeiro do ano passado, e 2015 foi um ano extraordinário em termos de visitantes. Há 14 anos que não tínhamos números que ultrapassassem os 300 mil visitantes e no ano passado chegámos aos 320 mil. Portanto, as expetativas de crescimento são boas. Apesar da loja fechada e cafetaria em obras, mas as pessoas vêm na mesma. Sentem que há aqui qualquer coisa muito além do edificado».
Ponto de situação das obras
A Direção Regional de Cultura do Algarve iniciou, em 2009, o Programa de Requalificação e Valorização do Promontório de Sagres, uma intervenção de fundo que tem decorrido em várias fases. A última culminará com a abertura do centro expositivo, a instalar em parte dos edifícios construídos nos anos 1990, da autoria do arquiteto João Carreira. «O cumprimento dos prazos neste lugar é complicado. As condições climáticas na envolvente são muito agrestes. E, por vezes, o que está em projeto não pode ser aplicado na realidade», esclarece Alexandra Gonçalves. «Sofre adaptações aprovadas pelas várias entidades envolvidas na obra, que tem financiamento de três fundos diferenciados. Isso obriga a reuniões semanais dos técnicos das empreitadas em curso». Na opinião desta responsável, a espera vai compensar, já que o futuro centro expositivo vai ser o grande fator de atração que falta a este monumento. Sobre os conteúdos, «o tema é a viagem, pegando na epopeia dos Descobrimentos, e no pensamento por detrás deste desafio que o Infante D. Henrique fez aos seus homens, de tentar passar além da costa africana. Existem em guião científico e em projeto» e a sua execução depende do próximo quadro comunitário. Será um processo célere, com uma fase de execução de seis meses. Antes do final de 2016, a Direção Regional de Cultura espera ter tudo pronto e a funcionar.
Novo ministro da Cultura, mensagem antiga
O ministro da Cultura João Soares esteve de passagem pelo Algarve, no passado dia 1 de fevereiro, mas não trouxe novidades. «Acho que mais importante do que possa trazer, é a preocupação em vir ao terreno conhecer o que está a ser feito e as questões que esta região levanta, em termos da sua cultura e património», explica Gonçalves. No entanto, o governante deixou «a mensagem que vivemos uma situação difícil e temos de continuar o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, com alguma imaginação e criatividade, procurando parcerias para ir fazendo mais». Questionada sobre se vai haver mais dinheiro para a Cultura no Algarve, a diretora considera que «ainda não estou em condições de responder, pelo menos até à plena aprovação do Orçamento de Estado».
Programa DIVAM 2016 vai mostrar «o espírito do lugar»
O DiVaM, programa de Dinamização e Valorização dos Monumentos, implementado pela Direção Regional de Cultura do Algarve, para sensibilizar o público para as potencialidades do património vai continuar em 2016. «Recolhemos as propostas e estamos a desenhar o programa. É provável que por não haver ainda Orçamento de Estado aprovado, haja algum atraso», remetendo a apresentação do programa para abril. «O tema será o espírito do lugar, aquilo que estes monumentos têm para nos transmitir, que vai além do que está visível, conciliável com várias atividades artísticas». Segundo adianta Alexandra Gonçalves, haverá uma diversidade na oferta, desde programas familiares, a atividades de interação com os visitantes. «Queremos as pessoas a experienciar estes lugares, através de sensações e emoções que não são visíveis a partir das paredes, mas que podem ser transmitidas através destes eventos».
Fortaleza vai ter novo filme para juventude e website
Este verão, de acordo com Alexandra Gonçalves, vai ser lançado um novo filme promocional sobre Sagres, destinado a um público entre os 15 e os 20 anos. «De facto, o mais difícil de atrair é a juventude, pois cada vez mais há outros interesses em termos de lazer que concorrem com estas ofertas culturais». A apresentação será integrada no DIVAM. Será também apresentado um novo website, atualmente em fase de teste.