O Centro Ciência Viva do Algarve (CCVAlg) testa o Tellmie, protótipo europeu de audioguias infantis que vieram ao sul de Portugal explicar as alterações climáticas às crianças.
O Centro Ciência Viva do Algarve (CCVAlg), em Faro, encerrou a Semana da Ciência e Tecnologia 2025 com a apresentação pública de um protótipo europeu que transforma brinquedos em audioguias interativos de alta tecnologia destinados a explicar temas complexos às crianças.
O dispositivo, conhecido como Tellmie, foi testado pela primeira vez em Portugal em sessões com alunos do Colégio Internacional de Vilamoura e durante uma visita interpretada para famílias.
Um objeto que fala, faz perguntas e responde às crianças
Criado pela empresa holandesa Gowonder, o Tellmie , o Tellmie utiliza tecnologia invisível ao olhar para converter uma marioneta em audioguia.
«Qualquer brinquedo de peluche — ou outro objeto — pode transformar-se num Tellmie graças a tecnologia resistente ao uso e desenvolvida à medida», indica a empresa. No interior são integrados componentes eletrónicos personalizados, sensores táteis e um sistema de localização baseado em beacons que permitem ao dispositivo identificar o espaço, falar com um grupo, colocar questões e reagir às respostas das crianças.
A experiência é partilhada através de pequenas colunas incorporadas, eliminando auscultadores e permitindo que famílias ou grupos escolares permaneçam juntos ao longo da visita. Os sensores escondidos na cabeça, nas costas, na cauda ou nas extremidades permitem interações simples que fazem o objeto parecer «mágico, divertido e, para muitas crianças, vivo». Museus e jardins zoológicos da Holanda e da Bélgica já utilizam Tellmies, e mediadores relatam que as famílias prestam mais atenção às coleções quando acompanhadas por estes guias interativos.
Segundo a empresa, instituições como o Zuiderzee Museum, nos Países Baixos, registam maior concentração e envolvimento do público infantil quando utilizam Tellmies.
Do museu para a ciência ambiental: a adaptação algarvia
No Algarve, o CCVAlg testou uma adaptação temática concebida para abordar alterações climáticas junto de crianças entre os 4 e os 8 anos. A versão experimental introduz conteúdos ambientais em inglês e explica fenómenos como aquecimento global, preservação dos ecossistemas, impacte humano no ambiente e ações simples que as crianças podem adotar no quotidiano. O objetivo passa por transformar um tema complexo numa experiência acessível e envolvente.
O protótipo permanecerá no Algarve durante quinze dias e seguirá depois para a Flandres, onde será testado pelo BAMM!, organização sem fins lucrativos dedicada à educação artística e patrimonial de crianças e jovens. O BAMM! trabalha com quatro programas (Bazart, AmuseeVous, Mooss e Mastiek) que aproximam públicos jovens da arte, do património e de temas societais, incluindo o clima. A organização opera em Flandres e Bruxelas e concentra-se em promover acesso à cultura desde a primeira infância até ao início da idade adulta.
Uma rede europeia que liga ciência, arte e tecnologia
O BAMM! integra o projeto Erasmus+ «Empower the Young», que procura responder a uma questão central: poderão objetos falantes ajudar crianças dos 4 aos 8 anos a refletir sobre clima e cidadania?
A primeira reunião internacional decorreu em Leiden, no Naturalis Biodiversity Center, museu e instituto de investigação de referência mundial dedicado à biodiversidade, paleontologia, evolução e conservação. Durante este encontro, os parceiros observaram Tellmies em ação e debateram como deveria funcionar um Tellmie «ideal», privilegiando perguntas abertas, flexibilidade narrativa e estímulos que incentivem as crianças à exploração artística e material.
O consórcio integra ainda a WisMon, organização neerlandesa especializada em educação STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), abordagem pedagógica centrada na resolução de problemas, experimentação e desenvolvimento de competências do século XXI, como pensamento crítico, criatividade e colaboração. A WisMon desenvolve conteúdos e ferramentas pedagógicas para o projeto, incluindo oficinas e guiões educativos adaptáveis a contextos museológicos e escolares.
A comunicação é assegurada pela agência holandesa Kabritu, dedicada à mediação e design cultural e educativo. O Naturalis lidera o consórcio e estuda a integração dos Tellmies nas suas visitas. O CCVAlg representa Portugal como parceiro científico, aplicando o protótipo num contexto de literacia ambiental e avaliando a sua eficácia enquanto instrumento de comunicação.
A 20 de novembro de 2025, a WisMon divulgou que está a desenvolver duas novas aplicações para os Tellmies: uma oficina dedicada às alterações climáticas — concebida para crianças, famílias e turmas escolares — e uma visita guiada adaptável a museus, em colaboração com o Naturalis e com o CCVAlg. Os primeiros testes decorreram nos Países Baixos.
Os ensaios em Portugal e na Bélgica permitirão ajustar o protótipo no início de 2026. A Gowonder está ainda a criar uma nova versão física do Tellmie, construída a partir de materiais reutilizados e descrita como um «ser de aspeto orgânico» concebido para estimular a imaginação.
Está igualmente previsto o desenvolvimento de conteúdos dedicados à cidadania, reforçando a transversalidade educativa do projeto europeu.
Tecnologia escondida, impacto visível
A passagem pelo Algarve integrou esta dinâmica experimental e reforçou o compromisso do CCVAlg com o uso de tecnologias emergentes na educação científica. O Centro destaca que esta solução permite democratizar a mediação cultural e científica, ao criar experiências acessíveis que dispensam leitura, ecrãs ou conhecimentos prévios. Toda a tecnologia permanece no interior do objeto, reforçando a sensação de «boneco vivo» para o público infantil.
Quando o Tellmie se aproxima de um beacon instalado no espaço, ativa mensagens específicas. Se a criança pressiona uma zona sensitiva, o dispositivo responde com perguntas, desafios ou explicações adicionais. O sistema foi também concebido para crianças com deficiência visual ou dificuldades de atenção, permitindo que acompanhem a narrativa e interajam fisicamente com o objeto. Esta flexibilidade permite reprogramar o Tellmie para temas distintos, como história, biodiversidade ou ciência ambiental.
Semana da Ciência com 30 investigadores e 400 participantes
A apresentação integrou a Semana da Ciência e Tecnologia, que reuniu cerca de 30 investigadores de várias instituições em atividades no CCVAlg e em escolas do Algarve. Mais de 400 crianças e adultos participaram em oficinas e demonstrações científicas que aproximaram a comunidade da investigação feita no território.
O encontro Erasmus+ reforçou a dimensão internacional, reunindo parceiros de vários países para avaliar o primeiro ano de execução do «Empower the Young» e planear as etapas seguintes.
Convite às famílias para testarem o protótipo
Durante as próximas duas semanas, o CCVAlg procura famílias interessadas em participar nos testes do protótipo. As crianças devem ter entre 4 e 8 anos e compreender inglês. As sessões serão gratuitas e orientadas pela equipa de educação do Centro. As famílias podem solicitar a participação nesta fase experimental e contribuir para o desenvolvimento internacional desta nova ferramenta de mediação científica.


