O músico Carlos Martins propõe «um novo olhar para o cante» alentejano no seu novo álbum, «Vagar», que definiu como «coisa fora do comum», ao combinar instrumentos, um sabor do Mediterrâneo e o saber do jazz.
Disponível a partir de hoje, «Vagar é uma nova maneira de olhar para o cante, de uma maneira como nunca se olhou para o cante até agora», disse o músico em entrevista à agência Lusa.
«Habitualmente o cante não é cantado com instrumental. Às vezes é acompanhado de uma guitarrinha ou alguma coisa do género”, explicou o músico e compositor, um nome do jazz, saxofonista, divulgador e professor. “Mas um grupo tão alargado”, com «uma série de instrumentos e de arranjos [musicais] que reorganizam todo o sistema, acho que é uma coisa fora do comum».
«Vagar» marca uma dupla estreia do músico: como autor de letras, e como disco totalmente cantado. Em doze canções, Carlos Martins assina as líricas de «Ausência Presente», «Eternidade (no céu um calor frio)» e «Mediterrâneo (Mães sem Lar)»; as restantes nove são de José Luís Peixoto.
Martins disse que lhe «agradou imenso» a experiência de escrever, algo que sempre fez e ao qual não é estranha a sua «consistente biblioteca».
«Fui roubar aos melhores e depois construí as minhas próprias ideias a partir daí. Como eu gosto muito de ler poesia, não estava propriamente fora do meu território», assegurou à Lusa.
Sobre o trabalho de composição, explicou que «criei estruturas harmónicas e melódicas que fossem mais ou menos minimalistas, para fazer um contraponto ao minimalismo do cante. O cante é uma música muito particular, minimal, vive muito da expressão, do sentimento, daquele conjunto, daquela respiração».
O álbum apresenta «formas de olhar para o cante, para o Alentejo e para o vagar, de quem já saiu, voltou, e enriquece a maneira como se olha para o nosso próprio Alentejo», acrescentou Carlos Martins, nascido no concelho de Grândola, com um percurso de mais de três décadas no jazz, que o levou mundo fora.
«Vagar», defendeu o músico, «é uma viagem pela planície e pelo mar Mediterrâneo», de «onde vem o cante e uma certa forma de improvisar no jazz».
Carlos Martins já pensava este álbum desde 2019, quando fez uma «pequena experiência», mas parou devido à pandemia e retomou o projeto em meados do ano passado.
Para o concretizar, constituiu o Grupo ProCante, de cantadores «escolhidos a dedo».
É formado por Hugo Bentes, Pedro Calado, Francisco Pestana, Luís Aleixo, Carlos Franco Nobre, Moisés Moura, Luís Soares e Francisco Bentes, que foram «fundamentais para adaptarem as palavras de José Luís Peixoto ao cante».
«Algumas palavras como estão no disco, não são as mesmas que o Peixoto escreveu. Há pequenas alterações que, digamos, são praticamente sagradas neste disco, porque fazem com que os cantadores sintam, respirem e cantem a música da mesma maneira, e que possam no fundo sentir que a tradição do cante e a maneira de cantar está toda lá presente».
Os cantadores «adaptaram algumas entradas e algumas formas de dizer as palavras ao cante», explicou.
«Depois, dessa forma de dizer, [foi necessário] alterar a música, para que voltasse a ser possível manter a estrutura toda. Foi um trabalho de dias e dias, de encontros, e mais encontros».
Do elenco do álbum faz parte o cantor Manuel Linhares, «uma voz única». Sobre a sua participação, Carlos Martins afirmou que «era importante criar uma ligação entre uma certa forma de improvisar, mais livre, ligada ao jazz, e a capacidade de flutuar com melodias meio árabes e sefarditas, que pudessem, no fundo, voar sobre uma estrutura rítmica que tinha na cabeça».
«Sempre achei que a voz do Manuel Linhares era a voz que podia fazer isso, de uma forma que juntasse, de uma maneira não tradicional, esse lado mediterrânico da música que eu queria imprimir no disco e fizesse a ponte entre o Cante alentejano e o Mediterrâneo, de onde vem o cante».
A escolha do título, «Vagar», é uma homenagem à filosofia de vida alentejana, disse o músico à Lusa; uma filosofia que concilia tradição e modernidade no seu próprio tempo, constituindo em simultâneo um alerta para a voracidade com que vivemos e até para o «consumismo atroz» que nos cerca.
«A forma alentejana de viver é altamente sugestiva pelo respeito de várias ecologias, e o planeta Terra e a nossa vida precisam de desacelerar. Precisamos de respeitar a natureza, as ecologias de cada um, respeitar uma vida que não é só feita da violência neoliberal. O Alentejo em si é a grande lição, a grande inspiração».
O disco é, «definitivamente, um manifesto pela desaceleração, mas também pretende lembrar às pessoas a função espiritual da música e não pensar só nos [seus] termos comerciais».
Além de Carlos Martins, no saxofone tenor, o álbum conta com Alexandre Frazão, na bateria, Carlos Barretto, no contrabaixo, João Bernardo, no piano e sintetizador, Joana Guerra, no violoncelo e efeitos, e Paulo Bernardino, no clarinete baixo e efeitos. André Fernandes, em guitarra, e João Barradas, acordeão, são músicos convidados.
Martins é o compositor de raiz de todos os temas, exceto dos tradicionais, que recria: «Romã (A Romãzeira do Meu Quintal)», «Rouxinol (Negros do Sado)» e «Extravagante (Um Rapaz Brilhante)».
O álbum vai ser apresentado no próximo dia 17, às 21h00, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa – e será apresentado «de forma inédita, ao juntar a projeção das fotografias [do Prémio Pessoa] José Manuel Rodrigues», que também estão na edição em CD.