Liga dos Bombeiros Portugueses alertou hoje que o acionamento de meios apenas pela distância pode atrasar o socorro e desguarnecer concelhos, e defende critérios ajustados ao terreno.
Os soldados da paz argumentam que o critério agora usado para acionar meios de socorro, baseado sobretudo na distância, pode atrasar o socorro e deixar concelhos desguarnecidos, e avisam que nem sempre quem está mais perto é quem chega primeiro.
Numa carta enviada ao presidente do INEM, a que a Lusa teve acesso, o presidente da LBP, António Nunes, afirmou que a informação recebida indica que os Centros Operacionais de Doentes Urgentes (CODU) estão muitas vezes a acionar meios «exclusivamente com base na distância», o que, segundo a Liga, está a prejudicar a organização territorial do socorro.
«O critério de distância tem de ser enquadrado numa matriz de circulação rodoviária, obstrução temporária de vias, horas de ponta em ambiente urbano, etc.», escreveu António Nunes na missiva.
A LBP recordou que os bombeiros asseguram cerca de 90% dos transportes de urgência pré-hospitalares e defendeu que normativos técnicos internos com impacto na sua atuação «têm de ser acordados com os bombeiros», para que possam ser analisados em conjunto os inconvenientes e as vantagens.
A Liga sublinhou ainda que existem instrumentos legais que determinam que o acionamento dos meios dos corpos de bombeiros «deve fazer-se tendo em conta as áreas de atuação atribuídas a cada um deles», admitindo situações «de caráter excecional», mas rejeitando que esse princípio seja substituído, de forma sistemática, «por um mero critério único de distância».
Contactado pela Lusa, António Nunes afirmou que o INEM «deu uma diretiva interna para acionar o meio mais próximo, entendendo o mais próximo como a distância mais curta», sublinhando que, no terreno, proximidade não é o mesmo que distância.
Para ilustrar, explicou que, para transportar um doente de Almeirim para Santarém durante a manhã, o trajeto mais curto passa pela ponte de Almeirim, mas que, em determinados períodos, a alternativa pela A13, embora com mais 10 a 15 quilómetros, permite chegar mais rapidamente.
«A matriz para o acionamento de meios de socorro tem de ser construída de acordo com as situações», afirmou, acrescentando que a LBP transmitiu ao INEM que não pode ser aplicado de forma unilateral «um critério que é determinado pelo Google e não pelas condições reais do terreno».
Outro exemplo apontado pelo responsável prende-se com o acionamento de uma ambulância a partir de Tondela, com base no critério da proximidade, que acaba por transportar o doente para o hospital de referência, em Coimbra. Nessa situação, o concelho «fica todo o dia sem ambulância», já que a deslocação de ida e volta pode demorar pelo menos quatro horas.
«Para economizar 50 ou 30 segundos, desguarneci um concelho», afirmou.
António Nunes insistiu que o critério de acionamento de meios previsto no acordo com o INEM é o da área geográfica de atuação dos corpos de bombeiros e recordou que o instituto «não paga 100% da equipa/ambulância», sendo o restante custo suportado pelos municípios ou pelas associações.
«Se o corpo de bombeiros só recebe 60% ou 70% das despesas, tem de ir à câmara municipal e aos sócios buscar o resto, e os sócios depois não entendem, por exemplo, que o concelho fique sem ambulância», afirmou.
Considerando meritória a tentativa do presidente do INEM de encontrar respostas para os problemas identificados à chegada ao instituto, António Nunes salientou que, no caso das situações emergentes, o critério acordado era o da proximidade, «não o critério da distância».
«O princípio pode estar bem. Agora, é preciso um conjunto de normativos técnicos, administrativos e de correlação que não foram estudados», concluiu, alertando que mudanças desta natureza têm «implicações fortes noutros domínios».
Fotos: Bruno Filipe Pires
