O Alentejo foi desenhado como zona de extração. Extrai-se cortiça e envia-se para fora. Extrai-se minério e envia-se para fora. Extrai-se água para regar culturas intensivas cujo lucro vai para fora. Agora extrai-se sol e envia-se para fora. O valor acrescido acontece noutro lugar.
Paro o carro na berma da estrada e olho para as torres de alta tensão que atravessam o Alentejo. Seguem um corredor que vem de Sines. E aqui está a ironia que ninguém comenta: Sines não tem mais sol que o resto do Alentejo. O que Sines tinha era porto.
Nos anos 1970, após as crises petrolíferas que fizeram disparar o preço do fuelóleo, Portugal precisava de diversificar as fontes de energia. A solução foi o carvão. E o carvão, ao contrário do sol, não nasce da terra; tem de ser importado. Sines, com o seu porto de águas profundas inaugurado em 1978, era o local lógico. A construção começou em 1973 e criou um dos poucos portos europeus com 28 metros de profundidade natural, capaz de receber os maiores navios do mundo sem dragagens.
A central termoeléctrica veio a seguir: construção iniciada em 1979, primeiro grupo em funcionamento em 1985. Durante 35 anos, recebeu entre 24 e 25 navios cargueiros por ano. O carvão vinha da Colômbia, dos Estados Unidos, da África do Sul e da Rússia. Ao todo, 699 navios, 105 milhões de toneladas de rocha negra descarregadas no cais, transportadas por tapete rolante até ao parque de armazenamento, queimadas para produzir eletricidade.
No pico, nos anos 1990, a central de Sines fornecia um terço da eletricidade consumida em Portugal. Um terço do país alimentado por um único ponto geográfico, escolhido não pelo sol nem pelo vento, mas pela profundidade do mar e pela capacidade de receber cargueiros transatlânticos. Todo esse poder era injetado na rede através de linhas de muito alta tensão que partiam da subestação e atravessavam o Alentejo em direção a Lisboa, ao Norte, aos centros de consumo. As torres que hoje vejo pela janela do carro são o esqueleto desse sistema.
A central fechou a 15 de janeiro de 2021. O último carvão ardeu, os 500 trabalhadores diretos e indiretos foram dispensados, e Sines deixou de queimar. Mas a subestação ficou. As linhas ficaram. A infraestrutura de escoamento permaneceu intacta, à espera de nova função. E é aqui que a história se torna reveladora.
Olho à minha volta: painéis solares até onde a vista alcança. A maior central fotovoltaica da Europa está a ser construída a poucos quilómetros daqui; a Central Fernando Pessoa, em Santiago do Cacém, com 1.200 MW de capacidade. Quase exatamente a mesma potência da antiga central a carvão. Coincidência arquitetónica que não é coincidência nenhuma.
O projeto, desenvolvido pela Iberdrola em parceria com a Prosolia Energy, ocupará 1.262 hectares; mais de mil hectares cobertos por 2,164 milhões de módulos fotovoltaicos. Investimento de 800 milhões a mil milhões de euros. Energia suficiente para alimentar 430 mil habitações, quase o dobro da população do Porto.
E para onde vai essa energia? Para a subestação de Sines. A mesma subestação. O novo eixo de muito alta tensão; Ferreira do Alentejo, Vale Pereiro, Sines, a 400 kV; está a ser construído especificamente para escoar esta produção. A rede a sul de Portugal está saturada de capacidade fotovoltaica atribuída, e o ponto de convergência é sempre o mesmo: Sines.
O sol brilha em todo o Alentejo. A radiação solar aqui é das mais altas da Europa; mais de 3.000 horas por ano, comparável apenas ao sul de Espanha e à Sicília. Mas os megaparques concentram-se ao longo de um corredor específico. Não porque ali faça mais sentido captar sol. Porque ali estão as linhas. E as linhas estão ali porque ali chegava carvão de barco.
Uma decisão de logística portuária dos anos 1970, baseada em combustível fóssil importado por mar, está a determinar a geografia das energias renováveis em 2025. Mudou a fonte. Não mudou a lógica.
A eletricidade que aqui se produz continua a viajar centenas de quilómetros antes de ser consumida. Pelo caminho, perde-se cerca de 10% em transmissão e distribuição. Calor dissipado nos cabos, valor evaporado no ar. Os painéis que cobrem hectares de montado não servem as aldeias vizinhas. Servem a rede nacional. E a rede nacional serve quem a controla.
Os investidores são internacionais: Iberdrola, uma das maiores eléctricas de Espanha; Prosolia Energy; fundos de capital que nunca pisaram esta terra; empresas cotadas em bolsas estrangeiras. O padrão é exatamente o mesmo de há 40 anos: o Alentejo produz, outros consomem e lucram. Antes era carvão que entrava; agora é eletricidade que sai. A direção do fluxo inverteu-se, mas a relação de extração permanece.
Há quem argumente que os megaparques trazem emprego. É verdade: a Central Fernando Pessoa promete criar até 2.500 postos de trabalho durante a construção. Mas construção é temporário. E depois? Painéis solares requerem manutenção mínima. A terra ficará coberta de metal e silício durante décadas, gerando riqueza que flui para acionistas em Madrid, Frankfurt, Nova Iorque. As comunidades locais ficam com o quê? Com a paisagem alterada, com os sobreiros abatidos para as linhas de transmissão; 200 só no corredor do Cercal; com a promessa vaga de «energia renovável para as comunidades vizinhas» que raramente se materializa.
A centralização energética fez sentido num tempo em que a produção exigia escala industrial. Barragens, centrais térmicas, reatores nucleares; infraestruturas pesadas, caras, que só grandes entidades podiam construir e operar. Mas a tecnologia mudou. Um painel fotovoltaico produz eletricidade onde está. Uma bateria de lítio armazena o que se produz de dia para usar de noite. Uma micro-rede pode gerir fluxos locais com software que cabe num telemóvel. Nada disto é ficção científica. É tecnologia madura, cada vez mais barata, cada vez mais acessível.
O que não mudou foi a arquitetura do sistema. E quem controla a arquitetura controla o valor. Então porque é que as aldeias do interior continuam dependentes de uma rede que as trata como pontas terminais de um sistema desenhado para outros? Porque é que pagam a mesma eletricidade que Lisboa, apesar de viverem rodeadas de painéis? Porque é que a energia que nasce aqui não fica aqui?
A resposta não é técnica. É política. É económica. É uma questão de quem desenhou as regras e para benefício de quem.
Em Portugal, desde 2019, a legislação permite a criação de comunidades de energia renovável. O Decreto-Lei 162/2019 estabelece o enquadramento: grupos de cidadãos, empresas ou autarquias podem constituir-se como entidades coletivas para produzir, consumir, armazenar e partilhar energia entre si. A lei existe.
O que falta é tudo o resto.
Os números são reveladores. Até final de 2023, estavam ativos 791 processos de licenciamento; mas apenas 16 eram verdadeiras Comunidades de Energia Renovável; os restantes 775 eram projetos de autoconsumo coletivo, muitos deles empresariais. Desses 791, apenas 85 estavam certificados, ou seja, em condições de operar. Em Janeiro de 2023, funcionavam em pleno exatamente quatro comunidades de energia em todo o país. Quatro. Imagino uma alternativa. Não utopia. Possibilidade concreta.
Uma vila como Odemira, ou Ourique, ou Castro Verde, com o seu próprio sistema energético. Painéis nos telhados públicos e privados. Um pequeno parque comunitário num terreno que hoje não produz nada; há milhares de hectares disponíveis. Armazenamento partilhado numa bateria central. Uma micro-rede que liga casas, empresas, escola, centro de saúde. Ligação à rede nacional para vender excedentes e comprar em picos de consumo extremo, mas com autonomia suficiente para funcionar quando as linhas de Sines falham. O exemplo de Vila Boa do Bispo, no Marco de Canaveses, mostra que é possível.
Com um investimento inicial de 32 mil euros, a comunidade de energia renovável da freguesia; a primeira do país organizada como cooperativa de interesse público; consegue poupar 5.500 euros anuais em eletricidade, distribuídos pelo pavilhão gimnodesportivo, pelos bombeiros, pela Casa do Povo e pela sede da Junta. Pequena escala, impacto real, dinheiro que fica no território.
A 28 de Abril de 2025, às 11h33, a Península Ibérica sofreu o maior apagão europeu em duas décadas. Portugal e Espanha ficaram às escuras durante horas. Transportes paralisados, comunicações cortadas, hospitais a funcionar com geradores, milhões de pessoas sem eletricidade. A rede centralizada falhou; a origem foi uma cascata de sobretensão no sul de Espanha que se propagou por todo o sistema interligado. Um sistema distribuído, com múltiplos pontos de produção e armazenamento local, teria sido mais resiliente. Mas isso exigiria uma arquitetura diferente. Uma que não concentra, distribui.
O Alentejo foi desenhado como zona de extração. Extrai-se cortiça e envia-se para fora. Extrai-se minério e envia-se para fora. Extrai-se água para regar culturas intensivas cujo lucro vai para fora. Agora extrai-se sol e envia-se para fora. O valor acrescido acontece noutro lugar. Os empregos qualificados estão noutro lugar. As decisões são tomadas noutro lugar.
A descentralização energética não resolve tudo. Mas é uma alavanca. Uma comunidade que produz a sua própria energia ganha margem de manobra. Pode oferecer eletricidade barata como fator de atracção económica. Pode manter serviços que de outra forma seriam inviáveis. Pode negociar de igual para igual em vez de aceitar o que lhe impõem.
E há um efeito menos quantificável mas igualmente real: a dignidade de não depender. De saber que o que se consome se produz. De ver no telhado do vizinho um painel que contribui para a rede comum. De participar em decisões sobre algo tão fundamental como a energia.
Quando olho para as torres de alta tensão, não vejo apenas infraestrutura. Vejo uma escolha cristalizada em metal e betão. Vejo um modelo de organização territorial que serviu determinados interesses durante décadas e que agora, apesar da mudança de fonte energética, continua a servir os mesmos interesses.
As linhas que nos atravessam podiam deixar de ser apenas canais de extração. Podiam tornar-se ligações entre sistemas locais autónomos, cada um produzindo o que pode, partilhando o que sobra, cooperando em vez de depender. Uma federação energética em vez de um império.
Não é uma questão de tecnologia. A tecnologia existe. É uma questão de escolha. De desenho. De vontade política e organização comunitária.
O sol que bate nestas planícies não pertence a ninguém. Mas a eletricidade que dele se faz pertence a quem controla os sistemas que a captam, armazenam e distribuem. A pergunta que importa não é se vamos produzir energia renovável; isso já está decidido. A pergunta é: a quem vai pertencer?
As linhas de Sines dão uma resposta. Há outras possíveis.
Nuno Mamede Santos | Fundador da Terracrua Design e do Instituto de Planeamento Regenerativo. Com mais de 20 anos de experiência em três continentes, dedica-se ao planeamento territorial regenerativo, integrando hidrologia, ecologia e economia numa visão sistémica do território.