Várias embarcações de pesca do polvo do Algarve têm sido vítimas de roubo e vandalismo das suas artes de pesca. Uma situação que acontece em pleno mar e há suspeitas que os prevaricadores sejam colegas de profissão.
«Tem sido uma autêntica razia ao longo das últimas semanas», diz ao «barlavento» José Agostinho, da Associação Armalgarve Polvo, uma das maiores do setor na região, com mais de uma centena de barcos associados.
O dirigente está preocupado com os «atos de banditismo sem precedentes» que estão a acontecer ao largo da costa entre Olhão e Portimão. Uma situação inédita que está a motivar os armadores a desistir.
Em poucas palavras, os pescadores lançam as suas artes ao mar. Quando regressam para as recolher, têm uma surpresa desagradável: ou desapareceu tudo ou não há pescado. Alguém esteve lá antes, de forma ilegítima, a pilhar o vier à mão.
Os prejuízos são ainda maximizados pela própria Natureza. Estamos numa fase em que a pesca é mais fraca, porque o polvo encontra-se em fase de crescimento e a população adulta é menor. Consequentemente, o rendimento da atividade é menor.
Em declarações ao «barlavento», José Agostinho garante que já denunciou a situação às capitanias de Faro e Portimão, tendo até enviado pistas sobre os eventuais «suspeitos», que a seu ver se tratam de colegas de porto. «Enquanto não forem apanhados em flagrante» tudo não passa de desconfiança.
O que é facto é que «cortam, despedaçam, roubam. Chegou a um ponto em que disse: levem as artes para terra e vão para o subsídio de desemprego», aconselhou às vítimas, inclusive aos pescadores de Sagres, Alvor e Fuzeta.
«Informei o secretário de Estado das Pescas, que esteve cá num almoço em Quarteira. Falei com ele pessoalmente. Pediu-me para mandar tudo por escrito. Mandei também para os deputados eleitos pelo Algarve e para a Direção-geral das Pescas, a pedir uma solução urgente», diz.
Contudo, a situação «tem vindo a piorar. No passado, isto era uma coisa superficial. Este ano é por demais! Até eu próprio sofri. Só em cerca de 30 covos grandes levaram-me à volta de 3000 euros. E mais de 1000 euros em pescado», contabiliza.
Para Agostinho, o aumento das despesas de quem vai ao mar, entre combustível e o custo das artes, e «a concentração massiva da pesca no limite das seis milhas para terra», podem explicar a origem do problema. «Antes, com o isco vivo, o pessoal espalhava-se mais pelo mar. Desde que proibiram o caranguejo, está tudo muito mais concentrado. Quem pratica estes atos, agora está à vontade, pois está tudo na faixa costeira». Ou seja, na opinião deste dirigente, trata-se da consequência de uma decisão política.
Rui Santos Pereira, capitão do Porto de Portimão, contactado pelo «barlavento», diz apenas ter «conhecimento informal» sobre esta situação, não tendo recebido qualquer queixa formal. «Esta não é uma situação fácil de apanhar» na fiscalização de rotina. «Uma embarcação que está a recolher covos ou outra arte qualquer, nem sempre é possível verificar se é sua», admite. «Que eu tenha conhecimento, esta não é uma situação normal», conclui.
Pesca do polvo: a importância do Algarve no panorama nacional
O polvo é a principal espécie comercializada nas lotas do Algarve e a mais importante no panorama geral da pesca artesanal na região, representando 43 por cento dos desembarques a nível nacional.
Em 2013, geraram uma receita de 16,2 milhões de euros, ou seja, cerca de metade do total vendido em lota em Portugal (37,6 milhões de euros). Estes valores representam 15 por cento da receita total da primeira venda gerada por todas as pescarias. Desta forma, o polvo aparece em segundo lugar no que respeita ao valor da primeira venda. Acresce ainda o facto de o Algarve possuir a maior frota em todo o país dedicada a esta pescaria, com 765 licenças emitidas em 2014, distribuídas pelos 14 portos de registo.