A EN125 é um «laboratório» irresistível para um geógrafo como Álvaro Domingues, habituado a estudar o bestiário urbano e imobiliário à beira das estradas do país. No entanto, o autor dos ensaios «Rua da Estrada» e «Vida no Campo» não veio a Loulé falar da realidade, mas de «utopia» que, normalmente, é o contrário desta. E que tem isso a ver com o Algarve?
Na literatura e na ideologia, a utopia surge como forma de pensar um futuro diferente do presente. «Não vejo isso assim. Para mim, a utopia é um enunciado de uma realidade que se deseja. E que, no limite, se pode construir, mesmo por absurdo», explicou Álvaro Domingues ao «barlavento».
O académico esteve de passagem por Loulé, na sexta-feira passada, 2 de outubro. Foi o convidado da primeira de duas conferências no âmbito do 20º aniversário do Museu Municipal, juntamente com a especialista e também docente da Universidade do Porto, Fátima Vieira.
«Antes de vir, li sobre a cidade Lacustre, em Vilamoura. É claramente um enunciado de uma utopia. Ou seja, de uma vida feliz. Etimologicamente, utopia significa apenas lugar nenhum. Mas, muitas vezes, as pessoas pensam que, além de um lugar que não existe, é um lugar feliz, um paraíso. Senão, seria uma distopia».
«E qual é a ideia mais popular que temos de um mundo feliz? O turismo. Quando somos turistas, queremos sair do quotidiano, das nossas rotinas. Em linguagem popular, não queremos chatices. Só queremos coisas boas. Que o mar esteja bom. Que não haja nortada. Que não chova. Que a comida no restaurante seja excelente e de preferência barata. O turismo, mesmo que depois seja um inferno, com calor, filas de espera e praias lotadas, é um desejo. É um enunciado utópico», comparou.
«Isto é, o Criador zangou-se e expulsou a criação do paraíso. Mas agora podemos construir um paraíso por 15 dias. Como é que o sonhamos? Acho que o Algarve é o lugar de muitas utopias. Uma muito pop é o hotel com tudo incluído, festas todos os dias, ginástica na praia, caipirinhas. O turismo devia dizer-se no plural. É muito complicado e redutor dizê-lo na mesma palavra, porque é um animal de 30 mil cabeças. É produto de uma transformação cultural constante. E como trata de coisas que não têm a ver com o quotidiano, surpreende e contraria a rotina, está sempre a mudar», explicou.
«É muito difícil, por exemplo, encontrar um discurso sobre o turismo que não contenha o lamento, o trauma da perda da natureza e das suas maravilhas. Ou então que matou a agricultura tradicional e outros tipicismos. É muito fácil estes temas colidirem. Ou seja, parece um disparate, mas o turismo é aquilo de que se fala, quando se fala de turismo», sublinhou. «E não é raro haver contradições. Por isso, o turismo é um assunto infinito, um dispositivo de produção de discurso que atrai qualquer tema, qualquer polémica».
Álvaro Domingues especializou-se em desmontar essas ambiguidades nos seus livros que dão ao leitor «chaves para perceber a realidade». Apesar de ter ainda material por publicar, confidenciou-nos que o Algarve poderia ser o guião principal para o próximo, «dada a diversidade que há aqui». Já tem título provisório: «O grande livro do Turismo». Se arranjar apoios, talvez ganhe forma.
Abordaria «desde determinadas especificidades culturais, a coisas que são iguais em todo o mundo, tipo cidade Lacustre, que tanto poderia estar aqui, como na Austrália, na África do Sul, como na Califórnia. Aquilo a que se chama na arquitetura um genérico».
Sobre a futura cidade aquática, «não li uma única linha sobre a possibilidade de haver mosquitos. Não. Como em todas as visões do paraíso, só se fala das coisas boas. Usa a expressão estilo de vida – um conceito muito usado na antropologia e na sociologia – para padronizar uma vida de estilo. Há uma espécie de semiologia, de linguagem dos símbolos, tudo isso fala e aponta para um mundo mais do que perfeito».
No entanto, «não me interessa se» o futuro livro «diz respeito ao Algarve ou a Florença. Interessa-me esclarecer a realidade múltipla e contraditória do fenómeno turístico. Perceber a fenomenologia como as coisas tomam forma no seu contexto, mas também qual é o motor que as move, quais são os divisores comuns: o barulho, a noite e os seus incómodos, a inflação, a grande sazonalidade» do turismo.
Ainda sobre a região, Domingues desdramatiza a ideia de paraíso perdido. «Estive na costa do Adriático, entre Veneza e Pescara. Não há 100 metros que não estejam massivamente urbanizados», comparou.
A próxima conferência tem lugar a 30 de outubro, no Museu Municipal de Loulé, às 21 horas. Fátima Vieira vai ter a seu lado José Eduardo Reis, da Universidade de Vila Real e Trás-os Montes, para abordar o tema «Utopia – O Futuro e o Devir».
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Durante a sua passagem pelo Algarve, Álvaro Domingues escreveu um texto inédito e exclusivo para o barlavento. Leia-o aqui.