O entusiasmo das crianças da turma de quarto ano da EB1 nº 2 de Monchique, em São Roque, em visitar trilhos da Serra de Monchique era grande, na segunda-feira, 22 de outubro. No meio do verde da Via Algarviana, o grupo desperta para os sons, cheiros e cores da floresta. Um tablet e jogos didáticos ajudam a compreender a importância daquele espaço, ainda a recuperar dos incêndios de agosto, que consumiram 27 mil hectares nos concelhos de Monchique. Odemira, Silves e Portimão. As crianças recordam ainda as memórias desses dias, até porque algumas delas foram evacuadas com as famílias.
«Algumas vivenciaram cenários um pouco assustadores e do contacto que temos com elas percebemos isso. Estão tristes com o que aconteceu e atividades como esta são importantes para ir ao encontro desse problema, mas é essencial sobretudo para que possam valorizar a sua terra», afirmou Rui André, presidente da Câmara Municipal de Monchique.
Não foi, portanto, por acaso que a Região de Turismo do Algarve (RTA) e a associação Almargem escolheram este município para iniciar a projeto «Algarve Natural», um conjunto de ações de sensibilização direcionada ao 1º ciclo do Ensino Básico, com saídas de campos, que percorrerá os 16 concelhos algarvios.
«Já tínhamos feito iniciativas semelhantes, como a Via Algarviana Júnior. Esta é mais uma vez dirigida às crianças e o facto de ter começado em Monchique é icónico, pois faz três meses sobre a calamidade que aqui tivemos. Queríamos assinalar esse facto numa perspetiva futura e positiva. A ideia é sempre sensibilizar as crianças para a riqueza do património natural e cultural», explicou João Fernandes, presidente da RTA.
Um exercício que será replicado com escolas em diversos locais. Para já, decorreram em Olhão e São Brás (dia 23), Aljezur e Albufeira (dia 24). Até dia 9 de novembro passará ainda por Tavira e Vila Real de Santo António (dia 25), Faro (dia 26), Alcoutim (dia 29), Portimão e Vila do Bispo (dia 30), Silves (dia 31), Lagos (dia 2), Castro Marim (dia 6), Loulé (dia 7) e Lagoa (dia 9).
«Vamos a cada concelho dar oportunidade a crianças do primeiro ciclo de conhecerem as ofertas de turismo de natureza no município onde vivem, sempre na perspetiva de que o turismo não é um fim em si mesmo. Deve também contribuir para o bem estar dos cidadãos. As crianças têm esta capacidade de ser uma caixa de ressonância, educando os adultos», constatou João Fernandes.
Um turismo de natureza que, no caso de Monchique, ganha impulso ao mostrar que continua vivo, apesar do fogo e que conta já com algumas medidas no terreno. É exemplo a candidatura que ascende quase ao meio milhão de euros e que deverá merecer a resposta do Turismo de Portugal dentro de dias.
«Estamos já a mapear novas soluções, com propostas que vão desde a capacitação dos agentes, do trabalho em torno dos recursos endógenos, da estruturação da oferta, até à promoção internacional com a realização de fam e press trips», enumerou. Aliás, nessa tarde, a RTA reuniu com a Câmara Municipal para operacionalizar os primeiros passos da candidatura de meio milhão, que tem prevista a realização de festivais de caminhadas e trabalho a nível dos traços identitários da região, como pode ser referência o artesanato ou os produtos agroalimentares.
«Engloba vários parceiros, desde a RTA, que encabeça a candidatura, à Câmara Municipal de Monchique, à Almargem, associação que organizou esta saída de campo com as crianças a trilhos pedestres na região, e a Associação de Turismo do Algarve (ATA) como parceira a nível da promoção internacional», disse ainda. Logo a seguir ao incêndio, a RTA e a autarquia retomaram um caminho histórico, utilizado pelos populares, entre as Caldas e Monchique. Foi limpo, sinalizado e está a ser utilizado, exemplificou.
Também as linhas de apoio estão em execução, segundo João Fernandes, havendo candidaturas aprovadas e outras à espera da luz verde do Turismo de Portugal, como na unidade hoteleira MacDonald, que aproveitou a medida para criar uma sala de reuniões. «Há as linhas de apoio à tesouraria também, para fazerem face a dificuldades com fornecedores ou dificuldades em pagamento de salários ou para investir nas despesas correntes», acrescentou.

No que toca a residentes e produtores agrícolas lesados, Rui André efetuou também um ponto de situação. «No caso dos apoios agrícolas, houve um prolongamento do prazo até 31 de de outubro, o que significa que a avaliação das candidaturas e a entrega do dinheiro será empurrada para o princípio de novembro. São processos que obrigam a uma candidatura e, que eu saiba, ainda ninguém começou a receber dinheiro», explicou.
No terreno, segundo o autarca, estão equipas do Ministério da Agricultura a validar dados, ao mesmo tempo que as pessoas vão apresentando as candidaturas, o que na opinião do autarca, será uma forma de agilizar o processo, a apreciação e a decisão final.
Os lesados têm até ao final deste mês, na quarta-feira, para se candidatarem a um apoio para os bens que perderam, desde prejuízos com tubos de rega, máquinas ou armazéns agrícolas.
Para ajudar, a autarquia criou um Gabinete de Crise, com técnicos especialistas, que ajudam no preenchimento dos formulários. Outra das facilidades foi o Ministério da Agricultura ter anunciado que aceitará a inclusão de pagamentos a dinheiro para despesas até cinco mil euros. «As pessoas têm que apresentar a fatura e até há poucos dias essa tinha que ser paga ou através de cheque ou de uma transferência bancária. Parte das pessoas não tem esse meio de pagamento e acabou por pagar em dinheiro. Ficaram assustados, porque pensaram que essas despesas não iam ser ressarcidas», daí a importância deste anúncio da tutela.
Em relação às habitações, Rui André confirmou que foi efetuado um levantamento em conjunto com o Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), tendo sido depois validados os casos, com todos os autarcas do concelho (Assembleia Municipal e Juntas de Freguesia). Ou seja, os projetos a apoiar foram validados em conjunto. «Algumas foram excluídas, porque se apresentavam como primeira habitação quando não o eram, ou porque as pessoas ainda não apresentaram os documentos necessários», explicou Rui André. Ainda podem apresentá-los e reverter a decisão. O próximo passo será assinar um protocolo com o IHRU para que depois seja transferido o dinheiro para as pessoas. No caso das reparações menores, o procedimento será agilizado, havendo, contudo, situações mais problemáticas que precisam de ser vistas caso a caso.
«A nossa principal preocupação é para com as primeiras habitações. Tínhamos um número inicial de 61 casos, nos quais se incluem primeira habitação própria, arrendada ou empréstimos. Após uma triagem e avaliação temos cerca de 50 casos de primeira habitação que devem ser apoiados».
Apesar de desejar que fosse um processo rápido, há condicionantes que prolongam a decisão acerca do apoio. «Por um lado, depende muito da vontade das pessoas na solução a adotar e, por outro, depende do tipo de projetos, pois não se consegue passar por cima da vertente legal. Por exemplo, algumas das habitações afetadas têm partes construídas que não estão legalizadas. Estamos a tentar aproveitar para legalizá-las, o que atrasa o processo. O que queremos acima de tudo é que não se repitam situações como as que vimos acontecer noutras partes do país», garantiu.
Será um apoio que ronda os dois milhões de euros, pelo IHRU, sendo uma parte atribuída pela Cáritas, que se enquadra no apoio social privado.

