Desde 2016 que Francesca Persano, 43 anos, visita Portugal com regularidade em busca de produtos agroalimentares de produção limitada e denominação de origem, ou então com alguma tradição histórica.
Em Turim, a sua terra natal, criou a marca Miss Dado dedicada à produção e venda de caldos artesanais (dado significa cubo, um preparado de origem vegetal que serve de base para a confecção de outros pratos) cada vez mais apreciados por chefs e consumidores exigentes. São vendidos online e numa rede de lojas gourmet.
O negócio, contudo, tem crescido e a empresária está a expandir a oferta. Foi isso que a trouxe às salinas da Água Mãe, no início de outubro. Veio acompanhada por André de Quiroga, que tem sido consultor nas visitas aos produtores nacionais, e com quem tem organizado alguns eventos promocionais em Itália.
«É uma pequena empresária reconhecida, de uma família muito conceituada do mundo das artes. A ideia dela é ter um portfólio de produtos europeus de alta qualidade que não competem entre si, mas complementam-se», explicou André de Quiroga.
«Itália é uma grande potência agroalimentar, mas também é verdade que Portugal pode ser uma referência naquele mercado. Numa altura em que o país se afirma como destino turístico, e que tem uma imagem reforçada, podemos tirar partido disso para vender os nossos produtos. Se calhar está na altura de usarmos a gastronomia como um motor económico», explicou.
André de Quiroga, organizador de eventos de alta gastronomia há mais de 20 anos, considera que «tão importante como o que se vende cá, é o que se vende lá fora. Se um turista europeu durante a sua estadia cá, provar um bom queijo, um bom vinho ou um bom azeite e os encontrar à venda no seu país de origem, vai continuar a querer consumi-los. E isso funciona com efeito de fidelização, porque vai recomendá-los aos amigos, vizinhos e família, pois são produtos de um país muito bom onde ele vai passar férias», neste caso, Portugal.
Francesca Persano diz estar impressionada com a frescura dos vinhos brancos nacionais, e, em comparação à Itália, onde os pequenos produtores estão quase todos industrializados, diz que em Portugal, ainda se usam muitos métodos tradicionais. É por isso que se tornam tão apetecíveis em Itália.
André de Quiroga concorda: «a dispensa italiana é mais alargada que a nossa, em certas coisas estão mais avançados que nós. Há outras coisas que trabalhamos ambos bem, mas as nossas têm um gosto peculiar. Os italianos têm uma grande consideração pelas conservas e nós temos algumas que eles poderão gostar. Por outro lado, a partir de Itália é possível chegar aos mercados de uma parte de França, à Austria e Suiça, tem a ver com a geopolítica do país».
Filomena Sintra, vice-presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, fez questão de conhecer a investidora. «Sentimos uma alegria enorme porque valeu a pena todo o esforço e todo o investimento material e pessoal destes últimos 15 anos por parte das pessoas e das instituições que gravitam à volta do sal, e sobretudo do município, que muito tem apoiado esta atividade que hoje já voa sozinha por este mundo fora», com qualidade reconhecida, disse ao «barlavento».
De acordo com a autarca, este ano, a safra do sal não correu pelo melhor. «Foi um mau ano por causa das chuvas tardias. Mas sei que as vendas estão garantidas e a produção vai ser escoada» sem problemas. Até porque «a cooperativa (Terras de Sal) consegue alavancar outros pequenos produtores que por si sós não têm capacidade comercial e é isso que nós queremos. Temos uma candidatura no âmbito do Plano de Ação de Desenvolvimento dos Recursos Endógenos (PADRE) do Cresc2020 para levar os nossos produtores a feiras internacionais, à procura de novos mercados», como o italiano.
Esta nova viagem a Portugal de Francesca Persano foi agendada numa altura para dar oportunidade à empresária italiana de «ver as vindimas, porque tenciona vender produtos em que a responsabilidade social e a sustentabilidade ambiental sejam parte relevante do processo», segundo explicou André de Quiroga ao «barlavento».
Aliás, em novembro, Francesca vai organizar em Turim uma feira-boutique de azeites, conservas, vinhos e queijos portugueses, fruto da sua iniciativa empresarial e sem qualquer apoios institucionais. E não faltará à mesa, claro, sal e flor de sal de Castro Marim. No futuro, o mel da Serra de Monchique também se configura um bom candidato para italiano provar.
Empresária desconhece Dieta Mediterrânica inscrita na UNESCO
Depois de um périplo por Setúbal, Palmela e Grândola, de visita a vários produtores vitivinícolas, ao chegar a Castro Marim, Francesca Persano ficou a saber que a Dieta Mediterrânica é hoje reconhecida património imaterial da humanidade pela UNESCO graças à candidatura avançada pela cidade de Tavira. A empresária mostrou-se surpreendida.
André de Quiroga não se mostra admirado com o desconhecimento. E explica porquê: «as pessoas têm que perceber que para lá da esfera pura da política e da propaganda, há outras coisas. Isto tem uma leitura complicada. Quando se diz a um espanhol, ou a um francês do sul, ou a um italiano, ou a um grego, que a Dieta Mediterrânica é Portugal, se algum deles souber alguma coisa de geografia, ficará confuso. Ou seja, não basta fazer, ganhar e celebrar uma candidatura. Há todo um trabalho a desenvolver com os agentes económicos para transformar isso num polo de desenvolvimento», diz.
Confrontado com o facto de haver manifesta vontade de tornar a Dieta Mediterrânica um desígnio nacional, o consulto não esconde o ceticismo. «Conseguir uma classificação de património imaterial, não é um objetivo. É apenas uma etapa, um ponto de partida. Depois, é preciso pensar, dentro desta dispensa mediterrânica portuguesa, onde é que somos mais competitivos? Onde é que a singularidade é maior? Que produtos podem alavancar a economia local? Tudo isto não passa pela decisão ou vontade política, mas sim pela mão dos empresários e das pessoas que fazem vida da gastronomia. Será que estão a abraçar este conceito nos seus negócios?», questionou.
«Os desígnios nacionais mudam conforme quem está no governo. Desde a paixão pela educação, aos oceanos e à economia do mar, já vimos muitos» quase sempre com resultados idênticos.

