Artista algarvio Mário André Luz soma duas décadas de registos urbanos à mão podem agora ser vistos na exposição «Esquissos de Rua» em Loulé.
A inspiração chega de diversas formas. Pode ser um conjunto de cores, a combinação de padrões, a arquitetura de um edifício, um mercado municipal ou o até o banal mobiliário urbano. Mário André Luz começou por retratar a realidade através do desenho à vista quando ainda estudava arquitetura.
Os professores incentivaram-no a manter um diário gráfico, isto é, um simples caderno de registos diários, onde se podem juntar desenhos, textos, fotografias, postais, folhas de árvore ou bilhetes de transporte, descreve.
«O gosto vai-se intensificando e já acabo por querer viajar para poder desenhar», diz ao barlavento este louletano imigrado na Nova Zelândia. Sempre que sai de casa, na sua mochila, leva o caderno de viagens, um conjunto de pincéis, canetas, lápis e tintas guaches. Chegam a ser mais de 100 materiais, mas «são tão ou mais essenciais que uma máquina fotográfica», tanto para registar momentos como locais, assegura.
Mas o que é ser um urban sketcher e o que é que distingue os trabalhos do arquiteto de 42 anos?
«É poder criar um álbum de memórias. Gosto de retratar a realidade e de trazer para o desenho elementos que são característicos das cidades e das alterações arquitetónicas que já sofreram. Ou seja, incluir semáforos, sinais de trânsito, caixas de eletricidade, cabos que passam por cima das janelas, ou uma cadeira que possa estar na rua no momento. Gosto de retratar o atual, ipsis verbis aquilo que vejo. Por exemplo, por muito que ache que um determinado objeto não fica bem no sítio em que está, vou colocá-lo no desenho porque essa é a realidade. A lógica é essa: ser fiel».
E não é só ao desenho, mas também na pintura. As cores, por mais difíceis que sejam de conseguir, também precisam de ser exatas. «Procuro sempre fazer a mistura certa para obter a cor mais semelhante possível à original», explica.
Se for preciso, Mário André Luz, pode passar até mais de três horas num local a desenhar o que a vista lhe mostra, e «tenho muito prazer em fazer isso». Cuba, Japão, Estados Unidos da América, Portugal, e Austrália, são vários os locais onde já desenhou. Os melhores trabalhos, digitaliza e dá a conhecer no seu site e na sua página de Instagram.
Em 2013, após a crise financeira que assolou o país e em particular a indústria da construção civil, o arquiteto escolheu emigrar para a Nova Zelândia e trabalha lá desde então com a família.
Apesar disso, todos os anos regressa por alguns meses ao Algarve. Fachadas de casas e edifícios históricos de Barranco do Velho, Salir, Faro, Loulé, Olhão ou Portimão compõem grande parte da sua coleção de desenhos, até porque «gosto muito da arquitetura algarvia e da portuguesa».
Tratores e motorizadas também são temas prediletos. Isto porque, se «não for demasiado complexo, chego a meio do desenho e desisto porque perde a piada. Não é desafiante o suficiente», admite.
E com mais de 20 anos de experiência, Mário André Luz consegue notar uma evolução, fruto de muitas horas de trabalho. «O hábito de desenhar é como qualquer outra coisa, é preciso prática e se o faço com regularidade, melhoro a técnica. Ninguém nasce a saber desenhar, mas se houver vontade, qualquer pessoa chega lá. Vejo os meus desenhos antigos e acho que não são tão bons como os de agora. Nota-se que existe todo um caminho». Esse é o conselho que deixa aos mais jovens.
«Praticar muito e ter vontade. Quem não tem talento natural, muitas vezes ultrapassa as pessoas que o têm porque acaba por se exercitar mais. Quem se esforça por ser bom e pratica muito, acaba por superar expetativas sem ter tantos atributos naturais», acredita. Para o futuro, há a vontade de editar um livro dedicado ao Algarve. Até lá, até ao dia 15 de outubro, os trabalhos do artista podem ser visitados na exposição «Esquissos de Rua» no restaurante 11 da Villa, em Loulé.
