Nova sede da Associação Algarvia de Pais e Amigos de Cidadãos Deficientes Mentais (AAPACDM) inaugurou no Dia do Município de Faro e começa em breve a receber os utentes.
Batizado «O Compromisso», em memória das antigas instalações na baixa de Faro, a Associação Algarvia de Pais e Amigos de Cidadãos Deficientes Mentais (AAPACDM), inaugurou a nova sede, perante uma plateia cheia de convidados, ao final da tarde de sábado, 7 de setembro, evento integrado nas comemorações do Dia do Município.
O novo espaço, na zona da Lejana, alojará duas respostas sociais, o Centro de Atividade e Capacitação para a Inclusão (CACI) e um lar residencial, ambas com capacidade para 30 utentes, representa um investimento que ascende ao 5 milhões de euros, financiados pelo programa operacional CRESC Algarve 2020, pelo município de Faro e por capitais próprios da instituição.
Segundo explicou aos jornalistas Sandra Gonçalves, diretora de serviços e vice-presidente da direção da AAPACDM, este é «um sonho já de há muitos anos. Estávamos a trabalhar em edifícios centenários que não nos permitiam crescer na capacidade das respostas, nem de acrescentar novas, devido às limitações do edificado. O projeto original teve uma candidatura aprovada ao POPH e foi aprovado», mas por dificuldades de financiamento, acabou por ficar na gaveta até 2018.
Ainda assim, «ficamos com uma lista de espera, na ordem das duas dezenas, nas várias valências, só em termos de distrito. Esta é uma necessidade enorme, não apenas dos jovens que já tínhamos na nossa instituição, como também de casos sociais que nos foram encaminhados, que atendemos de acordo com vários critérios de seleção. Vamos receber jovens de vários concelhos, maioritariamente de Faro».
Aliás, este é «um anseio muito grande para as famílias que deixam de ter competência para cuidar dos seus filhos em casa, mas é também um grande passo ao nível institucional. Criamos um lar com muitos espaços comuns e ao ar livre», explicou aos jornalistas.
O CACI é composto por quatro salas de atividades, um ginásio e está apoiado por serviços ao nível da alimentação, limpeza, administrativos, técnicos e especializados. Já o lar residencial é composto por dois pisos, sala de convívio principal. Há também uma cozinha completa, refeitório, bar e lavandaria.
«Que este dia simbolize o início de uma nova vida para os nossos utentes, para as nossas famílias, para os nossos colaboradores e para todos os nossos amigos desta nova casa», referiu Sandra Gonçalves.
Aprender com a diferença
No uso da palavra, durante a cerimónia de inauguração, Jorge Leitão, presidente da direção da AAPACDM, lembrou os quase 60 anos de existência da instituição. «Foram muitos anos de labor, de trabalho, para que este momento chegasse e para que este desiderato pudesse ser alcançado. Dentro da nossa associação, ninguém em especial, senão a todos os que nela trabalharam e trabalham, sem exceção, se deve a este sucesso. A obra é de todos».
«Esta é uma obra maravilhosa. Temos hoje umas instalações modernas, pragmáticas, de grande utilidade. Sem qualquer luxo, mas dotadas da utilidade e da comodidade que a situação exige e repõe. O elo que nos une a todos, a vós e àqueles a quem dedicamos o nosso trabalho é o amor. Um amor persistente. Contínuo que nos envolve a todos e nos transforma na grande família que somos e que trabalha em favor da diferença. Os meninos e as meninas que aqui convivem diariamente, são a razão de ser de todo este trabalho e de toda esta atividade. São seres maravilhosos, de uma bondade e de uma candura extraordinárias que têm direito a uma vida feliz, envolta em amor, neste ambiente que os prepara, a muitos deles, dentro das suas capacidades, para uma vida ativa e plenamente realizada», sublinhou o responsável.

Além disso, «o estudo, a análise e o cuidado da diferença constituem o nosso trabalho diário, que aqui se desenvolve e que envolve também as famílias, numa complementaridade que permite a cada um deles, sentir a segurança e o apoio que essa unidade de vida lhes proporciona. Pretendemos que o estudo e o cuidado da diferença sejam diariamente aprofundados. Esta instituição possui técnicos e técnicas fantásticos. De grande saber e experiência. Que numa ligação permanente à universidade, há agora espaço para o desenvolvimento desse estudo, em condições de vir a produzir e a apoiar teses de mestrado e de doutoramento relacionados com a diferença», revelou Jorge Leitão.
«Quando dizemos que todos somos iguais, mas que também somos diferentes, é no estudo no acompanhamento e no apoio a essa diferença que o nosso trabalho se situa. E é agora com redobrado vigor e entusiasmo que o vamos continuar», concluiu, deixando «um enorme abraço, queridos amigos, que vos envolve a todos como agradecimento pela vossa ajuda, pelo vosso empenho e pelo vosso amor. Bem-hajam todos», rematou.
Rogério Bacalhau: nova casa «extravasou muito os sonhos» dos fundadores
Por sua vez, Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, no uso da palavra também recordou a fundação da instituição em 1968. «Os seus fundadores, certamente que se estivessem aqui hoje, não pensariam que isto iria acontecer. Teriam certamente desejos, mas aquilo que ocorreu ao longo destes anos, extravasou muito os sonhos desses fundadores».
O autarca lembrou que as antigas instalações «cumpriram as funções ao longo do tempo, mas foram ultrapassadas. Hoje estamos numas instalações completamente novas, com todas as condições para prestar a um trabalho, não digo melhor, mas igual àquele que se fazia, embora com condições de maior conforto e maior segurança».
Professor de matemática do ensino secundário de profissão, Bacalhau evocou a sua experiência para traçar um paralelo com o trabalho da AAPACDM.
«Há duas classes de professores que sempre admirei muito. Não sei se conseguiria ser professor do primeiro ciclo, porque descer ao nível das crianças, conseguir de alguma forma ter a mesma linguagem, é muito difícil. O outro grupo de pessoas que admiro muito na docência são os professores que trabalham com a diferença, com alunos com deficiência. Não é fácil. As pessoas trabalham nesta instituição são pessoas muito especiais que dão todo o amor, tudo aquilo que têm para poder minimizar as situações de cada um dos. Conheço muitas das pessoas que trabalham aqui, até na vida pessoal, e sei que estão sempre disponíveis quando os seus utentes e as famílias necessitam. E essa é talvez a maior homenagem que nós lhes podemos fazer nesta inauguração».

Agora, as «melhores condições de trabalho, certamente se irão repercutir se no trabalho que fazem com os seus utentes e também com as famílias que têm a felicidade de ter aqui os seus filhos, que são o melhor tratados que podemos imaginar».
O autarca deixou uma palavra especial a Jorge Leitão e a Sandra Gonçalves «por todo o esforço que fizeram. Muitas instituições vêm ter connosco, mas sabemos que não vai acontecer nada no dia seguinte. Se conseguiram é porque deram provas. Mandaram fazer projetos quando não tinham financiamento, lutaram por isto e é por eles que estamos aqui hoje».
Clara Marques Mendes quer lei de bases das pessoas com deficiência
A palavra final coube à Secretária de Estado da Ação Social e da Inclusão, Clara Marques Mendes, que também fez questão de expressar à Associação Algarvia «um agradecimento por não desistirem, por essa resiliência, por acreditarem, porque o que vocês fazem é verdadeiro serviço público. Estas instituições e este sector tem de ser reconhecido pelo Estado, porque nunca falha com as pessoas. E, portanto, o Estado não pode falhar com o sector. A minha vinda aqui é um sinal disso. O sinal de um compromisso, de presença e de proximidade».
A governante assegurou que «o compromisso deste governo vai além das palavras que aqui possa dizer. Vocês têm de sentir a nossa ação, o nosso compromisso e este nosso reconhecimento. E foi por isso mesmo que, desde que tomamos posse, nós das primeiras coisas que decidimos fazer foi constituir um grupo de trabalho do sector social para encontrar o valor do custo médio das respostas sociais. E porquê? Porque as instituições dizem que o que tem vindo a ser atualizado não é justo, nem adequado. E, portanto, nada como centrar todos e chegamos a um entendimento. Estamos a trabalhar para as atualizações a partir de 2025, para que possam dar a previsibilidade tão importante para estas instituições. Mas também concluímos que este sector tivesse nas respostas que tinham mais debilidade em termos de comparticipação, que tivesse uma atualização extraordinária e que vai ser feita já neste mês de setembro, a pagar a partir de outubro, com efeitos retroativos a 2024».

Esta é «uma atualização extraordinária que é porque entendemos que tinha que ser dado um sinal de reconhecimento, nas respostas mais deficitárias em termos de comparticipação. A partir de 2025 faremos as atualizações com a regularidade, com a previsibilidade que o sector exige», prometeu.
Clara Marques Mendes reconheceu que «estas instituições substituem-se ao Estado e dão a resposta que o Estado não dá nem daria da forma como vocês dão. E esta é uma área que requer uma atenção especial. Há um caminho muito longo a fazer. Têm sido dados passos, mas acho que temos de ser mais ambiciosos para que a sociedade seja mais justa. Estamos a ouvir o máximo de instituições, de entidades e de organizações que trabalham com as pessoas com deficiência para perceber. Há aspetos que são e fácil concretização e que fazem toda a diferença. Estamos a rever o regime jurídico das acessibilidades e estamos a trabalhar para que a fiscalização seja uma realidade».
«Estamos a trabalhar numa lei de financiamento do sector social e numa lei de bases das pessoas com deficiência que garanta uma sociedade cada vez mais inclusiva. Muito obrigada pelo vosso trabalho, a todos os colaboradores desta instituição que de facto, são pessoas de uma sensibilidade que nem toda a gente consegue ver», agradeceu a governante.
José Apolinário defendeu o «princípio da parceria»
José Apolinário, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, considerou que «este é um bom exemplo de quando trabalhamos juntos. O município de Faro teve um papel central, cedeu terreno e foi parceiro no financiamento. Em conjunto com o município, com a Associação Algarvia e com a Segurança Social, fomos ultrapassando cada barreira e cada prazo. Na área dos equipamentos sociais, este é porventura um dos mais significativos».
Apesar de o próximo programa regional Algarve 2030 não enquadrar a área social, a CCDR Algarve prevê abrir avisos para iniciativas de eficiência energética que poderão ser interessantes para o sector.
Além disso, «temos a execução do PRR que, não tendo envelopes regionais neste momento, tem aprovado na região cerca de 440 milhões de euros. É um enorme desafio para todos os intervenientes, até junho de 2026», pois não estão previstos prolongamentos no prazo.

«Precisamos que haja concertação entre todos. Vamos assistir ao início do debate sobre o futuro da política de coesão pós-2027. Temos de a defender, e também a importância do princípio da parceria, que dá às regiões e aos territórios, a oportunidade de intervir nas escolhas, de colocar mais verbas nas suas prioridades. É absolutamente essencial para manter uma proximidade, para fazer escolhas. É por termos o princípio da parceria que introduzimos mais verbas para recursos técnicos de ensino superior. Temos no Algarve uma taxa de frequência universitária abaixo da média nacional. Temos uma taxa de insucesso escolar muito superior à média nacional. E precisamos de responder ao risco de pobreza, em particular nas crianças e jovens».
Em suma, «temos todos de garantir a execução dos fundos alocados à região, de forma correta, cumprindo a legalidade, mas com resultados a favor das pessoas. Felicito por isso a Associação Algarvia por esta inauguração, por este investimento muito importante no quadro das respostas sociais na região e, sobretudo, sublinho o facto de trabalharmos em conjunto».
A inauguração contou ainda com a presença de Margarida Flores, diretora do centro distrital do Instituto da Segurança Social de Faro, que assinou um um acordo para ajudar mensalmente a instituição com 60 mil euros.





