barlavento: Passou um ano desde que comprou o hotel, e oito meses de operação. Como tem corrido?
Helder Martins: Eu e a minha família temos uma ligação ao mundo rural, eu nasci e vivi em Querença e a minha mulher é da Tor. Quando decidi fazer uma mudança na minha vida, aquando das últimas eleições autárquicas, tinha cerca de 28 anos de ligação a atividades políticas, mais e menos executivas. Por coincidência, foi-me apresentado este hotel que estava para venda. Eu já o conhecia e vim visitá-lo. Estava fechado e um pouco abandonado. Mas correspondia exatamente àquilo que eu e a minha família idealizámos. Foi uma paixão e fizemos o negócio muito por amor. Fizemos mais com o coração do que com a razão, mas, hoje, passado um ano, não nos arrependemos de nada. A minha vida mudou drasticamente. Deixei de ver televisão, deixei quase de ler jornais e passei a dedicar-me a 100 por cento a isto. Hoje conheço o hotel e a propriedade como as minhas mãos, tenho atividades agrícolas e ao mesmo tempo que recebo os clientes, vou tratar dos animais, é tudo isto que me envolve. As minhas filhas estudam e estão cá no verão a apoiar. A minha mulher está aqui a tempo inteiro, isto é um projeto de família. E só assim é pode funcionar. É a lição que tiro daqui. Porque os clientes que vêm para um hotel rural, vêm em busca de mais qualquer coisa do que num hotel normal, onde você é um número. O empregado pode ser muito simpático mas diz-lhe que o seu quarto é ao fundo do corredor no décimo andar. Aqui, é tudo diferente. Nós recebemos as pessoas, é como se fizessem parte da nossa família. Como se estivessem em nossa casa. Nós estamos sempre presentes, sem massacrar, mas procurando mostrar o que é a nossa vida e o que é a vida no campo.
Quando presidiu a RTA, este conceito já lhe era querido?
Sim, sempre foi. Quando casei, um dos objetivos que tínhamos em família, era fazer um turismo rural. Nunca tive muitas férias, mas passei alguns dias em turismos rurais no Alentejo e no norte do país. No Algarve, isso não tinha expressão. Quando cheguei à RTA procurei pegar neste produto e perceber o que havia. Fiz uma reunião e convidei todos os operadores. Apareceram cerca de 12 pessoas. Tinham umas casas, com alguns quartos, trabalhavam no verão e aos fins de semana, e portanto a atividade não tinha expressão. Aliás, eu ajudei a criar uma associação de prestadores de turismo rural, porque havia a possibilidade de se concorrer a financiamentos no coletivo. Hoje verifico que passados poucos anos, este produto cresceu, e se estendermos até a algum Alojamento Local, o Algarve hoje tem uma oferta com algum significado, com variedade e sobretudo, com muita qualidade.
Que dificuldades encontrou?
Esta abertura não foi fácil. Quando se pega numa unidade que está fechada, não existe no mercado, e que tinha a pior classificação na booking de todo o Sotavento algarvio, é muito complicado. Gosto sempre de dizer que quem criou esta unidade, fê-lo com muito gosto e com um conceito simpático. Começámos as obras em outubro do ano passado, que se prolongaram por três meses e não foram suficientes. Demos uma volta completa ao hotel. Só para dar uma ideia, nos quartos deixámos o frigorífico. Fizemos tudo novo. Pegámos numa unidade que não tinha um prato, uma colher. Teve de ser tudo criado de novo em três meses. E fizemos nós, à nossa medida e ao nosso gosto. Cada quarto tem um nome de uma planta ou de um fruto e a decoração está relacionada com isso. Temos um pomar com 11 mil laranjeiras que estavam a secar, tivemos de ir buscar água ao sistema de água de Odeleite e que hoje já está recuperado. Abrimos no dia dos namorados, logo com reservas e com o restaurante cheio. Tivemos um período mais calmo e a primeira vez que enchemos foi na Páscoa. Logo a seguir, temos trabalhado bem. Tivemos um ano excelente, fomos auscultando o mercado e tentando perceber o que é que o produto valia para os clientes. Fidelizamos clientes e hoje as opiniões deixadas quer no tripadviser, quer na booking são excelentes.
Tem algum cliente-tipo?
A maioria são portugueses, nos picos de verão e das férias escolares. Esperava que o primeiro mercado fosse o britânico, mas não é assim. Posiciona-se em quarto ou quinto lugar, ao lado do mercado alemão. Creio que o inglês não gosta tanto de um produto tão afastado do mar. Em dezembro tenho dois grupos de birdwatchers, que vêm pela Ria Formosa e passam cá o Natal. É uma atividade que está a crescer no Algarve. Mas o cliente que gosta mais disto é o francês. Os franceses gostam de autenticidade, não gostam de confusão, gostam muito desta zona de Tavira, gostam de comer bem e de estar num sítio onde se pode ouvir os passarinhos. Isto sem que eu fizesse nada para conquistar os franceses. Sou do tempo em que o orçamento da RTA tinha zero para França. A primeira vez que se fez alguma coisa, o representante do Turismo de Portugal, Mário Ferreira que hoje está no grupo Nau, nos Salgados, desafiou-me a ir a uma feira a Paris. Depois fomos com a Caravela Boa Esperança a Saint Tropez e descobrimos que de facto, os franceses tinham uma certa apetência pelo Algarve. Agora com estes problemas no norte de África, grande parte dos franceses que têm vindo aqui, vêm à procura de casa. Para lhe falar do perfil, são pessoas com mais de 25 anos, com formação de um nível que considero superior. Agora no final do verão, o nível etário subiu um pouco para idades mais avançadas. Penso que França é um mercado que vai crescer bastante. Os voos vão manter-se no inverno e haverá um aumento no próximo ano.
O Algarve teve um ano turístico extraordinário. Isso também se refletiu no campo?
Sim, claro. Abrimos no melhor ano possível. E conseguimos captar o interesse de pessoas que gostam de passar férias num sítio autêntico. Esta propriedade não tem palmeiras, as três que tinha arranquei. Mas tem alfarrobeiras, amendoeiras e figueiras ao dispor dos clientes, que gostam de as apanhar. Utilizamos tudo isto no restaurante e nas refeições. É isso que temos de dar, autenticidade no produto e na relação que temos com eles. Que perspetivas para 2017? Hoje com a facilidade de voos baratos, o Algarve tem capacidade para funcionar todo o ano e acaba por só haver sazonalidade em janeiro. Como só tenho 24 quartos, não posso dar allotments aos operadores senão fico sem quartos para vender. Este não é um projeto massificante e espero depender do website, que foi feito por uma empresa de Faro, de jovens acabados de sair da universidade que fizeram um trabalho excelente. Quer o website, quer o facebook do Hotel já vendem significativamente. Estou convencido que vamos ter um bom ano. Outro ponto alto será o Algarve Nature Week em Tavira.
Uma última pergunta: tenciona algum dia regressar à vida política?
Não. Gosto de viver por objetivos. Primeiro fui presidente da Junta, que muito prazer me deu, pela proximidade com a população. Fui membro da Assembleia Municipal de Loulé durante 25 anos. Depois tive outro objetivo que apareceu na hora e que agarrei que foi ser presidente da RTA. É das atividades mais bonitas que há no Algarve, porque tudo o que acontece na região tem a ver com o turismo. E vender um produto tão bonito como o Algarve a nível internacional é espetacular. Quis ser presidente da Câmara de Loulé e trabalhei durante três anos para esse objetivo. Estava disponível para fazer dois mandatos, com a dinâmica que as pessoas dizem que tenho, e poderia ajudar. Não consegui. A partir desse dia, a minha atividade política terminou. A população não aceitou. Eu aceitei de bom grado essa decisão e decidi fazer outra coisa. Poderia ter voltado à luta, mas achei que estava terminada essa minha missão. Dei o meu contributo e gosto muito de uma palavra que é a renovação, dar o lugar aos mais novos.
Autossuficiência alimentar é hoje legal
«Eu tive um restaurante há 25 anos e corri o risco de ter problemas várias vezes, porque usava os ovos das galinhas da minha mãe, o presunto e os enchidos que o meu pai produzia, e isso era tudo ilegal», confidenciou Hélder Martins ao «barlavento». Hoje já não é preciso esconder estes tesouros. «Existe uma portaria que permite a quem exerce a atividade do turismo rural, com agricultura, que alguns produtos, sejam consumidos de forma legal» na hotelaria. «Os clientes gostam disso. Gostam de apanhar cebolas e alfaces ou abóboras, sabendo que esses produtos vão ser consumido no restaurante ao jantar. As crianças dos hóspedes vão comigo dar comida às galinhas e apanhar os ovos para o pequeno-almoço do dia seguinte. Já produzem quase o que precisamos durante o verão», diz o gestor e proprietário do Hotel Rural Quinta do Marco, em Tavira. «Tratei de todo o processo no Ministério da Agricultura, não é difícil, não é complicado, e funciona como uma mais-valia. Faz-se marketing a partir disto», garante, pois até há hóspedes que apadrinham os animais.
Membros do staff são as estrelas
«Este hotel não tinha classificação. Concluí esse processo e temos condições para sermos um hotel de cinco estrelas. Mas não quisemos. Porquê? Porque o cinco estrelas aparece hoje muito, na ótica das pessoas, associado a algo caro e de luxo. Penso que esse tipo de classificação já não conta. Quando alguém escolhe um sítio para passar férias, o que conta são os comentários dos hóspedes que lá estiveram», diz Helder Martins. «Abri com um outro grande grau de risco – os meus funcionários são quase todos aqui da freguesia. Penso que sou o maior empregador da zona neste momento. Tenho pessoas no staff que nunca tinham trabalhado no turismo. Assumi o risco, fizemos muito trabalho de formação, os nossos colaboradores estão sempre a par de tudo, das nossas decisões. Quando há um comentário muito positivo, são informados, quando algo corre menos bem, também. Mas a verdade é que a melhor classificação que temos é para o staff», elogia o gestor. O hotel emprega 20 pessoas no pico da estação e 16 no resto do ano. «É um rácio muito alto para 24 quartos. Não me arrependo. Ninguém consegue dar um serviço de excelência sem ter staff» à altura.
Um «dia normal»
Para os hóspedes, o pequeno-almoço é a melhor refeição do dia e é servido até às 10 horas. «Depois vão até à praia, voltam e fazem uma refeição ligeira. Passam a tarde à beira da piscina e vão jantar. Depois, bebem um copo cá fora no bar» na tranquilidade do anoitecer no interior algarvio com o mar no horizonte. Já o dia do anfitrião é bem diferente. «Eu tanto estou a tratar da comida do burro», chamado Ferrari, «como de um problema no computador. E é por isso que este projeto é tão gratificante», sublinha Hélder Martins. O restaurante também está aberto ao público e a aceitação tem superado as expetativas. «Pedi ao cozinheiro uma ementa com produtos da serra e do mar com um toque de modernidade», com os ingredientes da propriedade e da vizinhança, como o azeite do lagar de Santa Catarina da Fonte do Bispo.
Algarve melhorou muito a imagem
«Começamos a ter juízo nos preços. Começámos a ter consciência que, mais do que ter quantidade, é importante termos qualidade. Há sempre aqueles críticos profissionais, pois falar mal do Algarve vende bem. Mas em boa verdade, creio que a imagem da região melhorou muito junto dos consumidores. É bom que as pessoas tenham essa noção para o futuro», diz Helder Martins. Apesar de reconhecer que ainda há «todo um trabalho que está a ser feito para a promoção das caminhadas, das bicicletas», e do turismo rural e de natureza, «não tenho dúvida que hoje as entidades oficiais estão mais sensíveis a este tipo de produtos. As relações com a autarquia têm sido muito boas «e faço agora parte da recém-criada associação de empresários de Tavira que vai dar aqui um bom impulso» ao concelho. Para Hélder Martins, quer «o presidente da Junta, quer o presidente da Câmara são parceiros sempre disponíveis. Além de uma relação entre o empresário e o autarca, que eu acho que deve haver, há uma relação entre amigos e isso abre muitas portas», sublinhou ao «barlavento».
Hotel reabre a 5 de dezembro
No âmbito de uma candidatura ao programa 2020 que tem de ser executada até 31 de dezembro, o Hotel Rural Quinta do Marco fechou a 7 de novembro para férias do pessoal e obras.
Reabre no dia 5 de dezembro.

