«Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado! A grandeza igualava a graça. Para os vales, poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, tão copados e redondos, de um verde tão moço que eram como um musgo macio onde apetecia cair e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso, largas ramadas estendiam o seu toldo amável, a que o esvoaçar leve dos pássaros sacudia a fragrância. Através dos muros seculares, que sustêm as terras liadas pelas heras, rompiam grossas raízes coleantes a que mais hera se enroscava».
O leitor, já terá reconhecido, à primeira, a origem desta passagem. Vem a meio de «A Cidade e as Serras». Aqui está um bom exemplo da relação entre literatura e natureza. O escritor Francisco J. Viegas diz que Eça, «o urbano e cosmopolita Eça», se refere várias vezes à floresta e às árvores, como um pintor naif em busca de uma paisagem (em Sintra, no Douro ou em Paris). Camilo talvez seja quem mais repare no poder das árvores e na sua presença.
As obras de Raul Brandão, Ferreira de Castro, Aquilino Ribeiro, Nemésio ou Miguel Torga seguem, nesta matéria, um pouco na esteira de Camilo. Agustina Bessa Luís revela-se uma conhecedora atenta de árvores, talvez porque tenha vivido durante anos e anos numa das ruas com mais árvores centenárias ou históricas do Porto, onde havia castanheiros, liquidâmbares, canforeiras e palmeiras. Mas, parece que a curiosidade dos autores portugueses pelas árvores é quase nula: tratam-nas por «árvores» (um objeto na paisagem) e nunca pelo nome próprio, que ignoram ou substituem por descrições inverosímeis. Merece a pena reler Hermann Hesse: «Nada é mais sagrado, nada é mais exemplar do que uma árvore, bela e forte».
E existe um verso de Nuno Júdice que diz: «Entro nessa árvore, como se fosse uma casa». Vem esta prosa ao encontro de uma situação concreta. Todos os anos, em Fevereiro, era premiado com aquela amendoeira em flor durante um mês inteiro. Um mar de brancura caldeada com um roxo vivo, frente a minha porta, saudava-me sempre que saía à rua. Era uma visita com quem partilhava a alegria de estar vivo. Um símbolo da vida plena, uma árvore para a eternidade. Mas os homens tinham outros planos: os projetos da urbanização daquele terreno previam o abate das árvores ali existentes». Esta manhã, ao sair de casa, olhei, surpreendido, o vazio que ontem lá não estava. A minha amendoeira, orgulhosamente florida em tons de neve e sangue, jazia uns metros mais abaixo. Tombou no seu posto sem me avisar. Ficou uma ferida aberta no lugar da minha amendoeira. A minha rua está de luto.
A minha rua está de luto