No dia 11 de março de 2024, Portugal acordou para uma nova realidade. No mapa eleitoral, uma faixa ali ao fundo — o sul do país — surgia pintada de cor de Chega. O país reagiu com espanto e indignação.
«Nunca mais lá pomos os pés», diziam muitos nas redes sociais, numa torrente de comentários que sugeria boicotes ao Algarve e insultava quem aqui vive.
Mas, passada a onda de choque, nada mudou.
Um ano depois, o Algarve continua no mesmo lugar.
Com os mesmos problemas.
Com a mesma ausência de respostas.
Sem hospital central. Sem profissionais de saúde suficientes.
Sem creches nem professores em número suficiente.
Sem habitação acessível, sem transportes públicos dignos, sem vias estruturantes.
Esquecido, empurrado para o fim do mapa.
Em 2024, os algarvios disseram «basta» nas urnas.
O país respondeu com desprezo, colando-lhes rótulos fáceis: racistas, fascistas, ignorantes, machistas. Era mais cómodo culpar os eleitores do que perceber o voto.
Compreender não é concordar. O voto no Chega foi — e continua a ser — uma má resposta a problemas reais. Mas ignorar esses problemas é a forma mais eficaz de alimentar esse erro.
E eis que, em 2025, o mesmo grito de insatisfação alastra. Cobre quase todo o Alentejo. E ameaça chegar a Lisboa. Agora sim, o alarme soa alto.
Agora que partidos fundadores da democracia perdem representação, agora que se vislumbra a fragilidade de mais um governo minoritário, há quem comece a perguntar: como chegámos aqui?
A resposta não é simples. Mas talvez devêssemos começar pelo mais óbvio: ouvir as pessoas.
Escutar as suas dificuldades.
Compreender as suas vidas.
E governar com a missão de as servir.
Porque se não o fizermos, o próximo mapa eleitoral poderá mostrar um país inteiro pintado de cor de revolta.
Sofia de Landerset | Membro da Iniciativa Liberal em Portimão