Cinquenta anos depois da fundação, a COOPPOFA continua aberta, recupera financeiramente e procura quem assegure o futuro da cooperativa.
Há um edifício que muitos residentes na cidade conhecem pelo nome, ou de que já ouviram falar, até porque se prepara para assinalar 50 anos de atividade.
Constituída a 5 de julho de 1976, a Cooperativa de Consumo Popular de Faro nasceu na alvorada da liberdade, numa altura em o povo quis tomar o seu destino nas mãos. A COOPPOFA surgiu como uma resposta coletiva, local, popular, criada por pessoas que acreditavam que a organização da comunidade podia resolver problemas concretos.
A chegada das grandes superfícies, o gradual enfraquecimento do movimento cooperativo e as dificuldades financeiras tiveram grande impacto na vida da cooperativa farense, que começa a ver luz ao fundo do túnel.
Fernando Mestre e Manuel Afonso, presidente e vice-presidente, fazem o balanço de meio século de uma instituição que mantém um supermercado onde tenta diferenciar-se, um restaurante/cantina onde se come «economicamente» e uma creche/infantário que acolhe cerca de 100 crianças. A instituição emprega 34 trabalhadores, tem 4.065 membros e procura uma nova geração para pegar no testemunho.
Tudo começou em 1975, «uma época de revolução, de alterações em tudo. No 25 de Abril de 1974 caiu o regime e, a partir daí, a sociedade explodiu». E estava disponível para o associativismo, para as pessoas se unirem e fazerem coisas, confirma Fernando Mestre, um dos primeiros a acreditar no projeto.
«Ganhava 3000 escudos por mês. 500 escudos era um sexto daquilo que eu ganhava», mas não hesitou em investir na criação da cooperativa.
«Constituíam-se, na altura, comissões de moradores em Faro. Havia uma no Alto de Rodes, uma na Estrada da Senhora da Saúde, uma no Bom João, uma em São Luís». A COOPPOFA nasceu desse movimento, em armazéns abandonados, na Rua de São Gonçalo de Lagos, atrás da Metalofarense. Na altura, «houve muitos sócios que tiveram uma vida muito ativa e participante no desenvolvimento da cooperativa. Foram centenas de pessoas que levaram isto para a frente».
Segundo Manuel Afonso, foi também nessa fase que se iniciou a criação do infantário. Em 1978, os membros pagavam uma quota suplementar de 20 escudos. Era uma carência que havia na cidade, que ainda hoje, não está totalmente resolvida.
«Realmente havia esta evolução vinda da Revolução de 1974, mas havia uma verdadeira democracia participativa. As pessoas, no bairro, no local de trabalho, onde viviam, participavam. Tinham o interesse de que a situação melhorasse e se resolvesse para melhor, para servir os interesses das populações ao nível local. Não foi com o objetivo de melhorar a meia dúzia de indivíduos», lembra Afonso.
Com a situação jurídica do espaço antigo por resolver, e planos para concretizar, a cooperativa teve de procurar um local para construir, de raiz, uma sede própria.
«Apareceu este terreno, escondido. Não havia aqui nada. Hoje estamos quase no meio da cidade, que está a crescer para este lado. Mas na altura houve pessoas que tiveram grandes resistências. Não foi fácil», admite Fernando Mestre.
O lote, segundo o presidente da direção, «estava dado à Câmara Municipal de Faro para equipamentos sociais, escolas, coisas do género». Graça Mira era o dono do terreno e autorizou que ali fosse construída a sede da cooperativa, numa solução em direito de superfície. «Agora é nosso», acrescenta.
O que antes parecia escondido passou a estar numa zona apetecível. Mestre recorda «um senhor, que hoje já não me lembro quem era», que levantou a hipótese de ali instalar um projeto na área da saúde privada, por considerar que eram «umas instalações muito boas». Claro, nem houve mais conversa possível, revela o presidente da cooperativa.
Ao longo dos anos, a relação com os sucessivos executivos municipais é descrita como globalmente positiva. Fernando Mestre recorda dois autarcas que acarinharam o projeto: Negrão Belo e João Botelheiro.
Questionado sobre se o município tem reconhecido a mais-valia social da COOPPOFA para a cidade, responde: «Penso que sim».
O elevado preço de um sonho
A COOPPOFA chega aos 50 anos, mas não isenta de feridas. Fernando Mestre fala abertamente da parte mais difícil da história recente. «Já passámos por piores momentos, mas ainda não se resolveu o problema principal, que foi o facto de termos de ir para uma insolvência em 2014, e para uma segunda insolvência, em 2017».
A sequência é contada pelo presidente a partir da memória de quem esteve no centro das decisões. A primeira insolvência, depois de mudanças nos corpos sociais, «agravou a situação» da cooperativa, diz.
Começou por avançar para um Processo Especial de Revitalização (PER), mas Fernando Mestre recorda o momento em que, nas vésperas do fim do procedimento, decidiu dar por extinto o PER e pedir a insolvência a seguir. A decisão foi tomada no limite. «Se não o tivesse feito na altura, no dia a seguir, o senhor administrador pegava nisto e entregava» aos credores.
Ao pedir a segunda insolvência, recorda, a direção procurou evitar o fim da cooperativa. «Depois deu-se o desenlace em 2017, com um plano de recuperação a oito anos, com uma carência de dois».
Esse plano está hoje muito perto do fim, pelo menos numa parte substancial. «O que quer dizer que nos falta um ano para terminar, digamos, a parte dos encargos com os trabalhadores, com a Segurança Social e com as Finanças. Com os fornecedores tem estado mais difícil, mas eram 12 anos. Esperamos ter isso resolvido em breve», confidencia.
A crise financeira, contudo, não nasceu em 2014. Vinha de trás. Na leitura de Fernando Mestre, está diretamente ligada à construção da atual sede, com todas as valências a funcionar de uma só vez.
«E foi isso que provocou o endividamento da cooperativa. Foi preciso pedir empréstimos, não só aos sócios, como aos bancos e aos próprios fornecedores».
Uma verdadeira «família»
A COOPPOFA apresenta-se hoje como uma cooperativa multissetorial, com atividade nos ramos do consumo e da solidariedade social. Na prática, traduz-se em três valências que funcionam no mesmo edifício: supermercado, cantina/restaurante e creche/infantário.
Todos os dias, de segunda-feira a sábado, as pessoas almoçam na cantina a preços que Fernando Mestre considera económicos. «Comem economicamente, e esperemos que melhor, que lá fora, ou pelo menos, igual, mas isso é uma análise que são as pessoas que fazem», brinca.
«Não cabe ao noivo gabar a noiva. Portanto, penso que prestamos um bom serviço». Sobre a gestão de cada valência, diz que «isto é um só». Manuel Afonso, vice-presidente da direção, resume a identidade da cooperativa a partir de outra palavra: família.
«Aqui há uma coisa muito importante: a COOPPOFA, especialmente aqui na zona do supermercado e do infantário, é frequentada por pessoas que não são só clientes, são quase família».
«Praticamente toda a gente se conhece e há uma relação de amizade entre muitos frequentadores do espaço e a própria COOPPOFA. Por isso é que a cooperativa vai resistindo e esperamos que continue a resistir», sublinha.
Essa proximidade é, para os dirigentes, uma das poucas vantagens competitivas possíveis num mercado onde o retalho alimentar é cada vez mais dominado por grandes cadeias de distribuição.
Fernando Mestre não dramatiza. Mas também não ilude. «São cadeias economicamente fortes e que, naturalmente, abateram tudo o que era pequeno. Não é possível competir com eles. Não vale a pena, até».
Não é uma estratégia de expansão. É uma estratégia de sobrevivência. A cooperativa sabe que não consegue disputar escala, publicidade ou poder de compra com os grandes grupos. Mas tenta preservar aquilo que eles não conseguem replicar com a mesma facilidade: relação, confiança, conhecimento dos clientes, ligação ao bairro e uma função social acumulada ao longo de décadas.
Mas «podemos competir em algumas coisas: nas verduras, hortaliças e frescos».
Aliás, acrescenta Fernando Mestre, há clientes que dizem: «é a fruta melhor e mais barata que aqui da zona».
Creche para gerações de farenses
Fernando Mestre responde sem hesitar quando se lhe pergunta se ainda faz sentido existir COOPPOFA. «Claro que sim». E começa pela creche. «Há cerca de cem famílias que têm aqui as suas crianças».
«Acho que é um serviço social que temos prestado à população da cidade, que a cidade pouco tem reconhecido. Mas é de realçar este fator social», acrescenta Manuel Afonso.
A resposta existe, sublinha Fernando Mestre, «com o apoio da Segurança Social» e «com o apoio do município de Faro». A cooperativa é equiparada a IPSS por via da valência social.
No resto, diz, a cooperativa é tratada como qualquer outra entidade económica. «Nós pagamos o IRC como qualquer empresa paga. Embora aí haja algum benefício. Temos um estatuto especial pelo facto de termos o infantário».
Cooperativismo: um espírito «a renovar»
Manuel Afonso lamenta que o cooperativismo não tenha hoje a importância que já teve. «No princípio, quando foram criadas as cooperativas e o processo SAAL da construção civil, através do Fundo de Fomento da Habitação, havia outros apoios. Havia financiamentos com taxas de juro mais acessíveis. Agora não há. É tudo tratado da mesma maneira».
«Para o setor cooperativo, as portas estão muito fechadas», lamenta, defendendo que o setor tem vindo a ser progressivamente abandonado pelas políticas públicas.
«Há que salientar que, há já uns anos, e não são poucos, o setor cooperativo, para os governos, é uma espécie de setor a abater. Para o setor privado arranjam isenções e mais isenções, perdões e financiamentos fáceis e a custo zero. E o setor cooperativo, da parte da alimentação e da construção civil, tem sido posto de parte e é tratado como se fosse um setor de exploração financeira», critica.
«Temos grandes empresas de construção apoiadas por fundos imobiliários. Vão ao banco pedir um empréstimo e, se calhar, são mais beneficiadas. Ou os grandes grupos da distribuição alimentar pedem apoios e financiamentos ao Governo e este facilita».
«Enquanto isso, para o setor cooperativo, as portas estão muito fechadas. Se não totalmente, estão quase fechadas. E é uma luta titânica conseguir resistir a estes problemas todos».
Fernando Mestre concorda com parte do diagnóstico, mas introduz uma explicação prática: mesmo quando há fundos disponíveis, a COOPPOFA não tem capacidade financeira para suportar a parte que lhe caberia.
«Repare. Neste momento temos aí a bazuca europeia, o PRR. E aparecem sistematicamente propostas: fundo perdido de 60%, fundo perdido de 80%. Mas falta-nos o resto».
Ou seja, o apoio pode existir, mas exige dinheiro antes de chegar.
«Não é possível candidatarmo-nos a estes fundos, porque não temos capacidade financeira perante a situação em que estamos. Nem temos acesso a empréstimos bancários para esse efeito».
A COOPPOFA não resistiu apenas aos seus próprios problemas. Resistiu também ao declínio de um movimento cooperativo de consumo que, segundo Fernando Mestre, perdeu grande parte da força que teve noutros tempos.
«O setor cooperativo, também com a crise de 2008, foi quase todo ao fundo».
O presidente começa a enumerar cooperativas que, na sua memória, desapareceram ou perderam a força que tinham. «Posso dizer que persistiram poucas cooperativas de consumo. A maior parte desapareceu. Foi a de Beja, a de Santarém, a de Castro Verde, que era uma forte cooperativa, a Proletário, a de Santo André», enumera.
«Enfim, foram quase todas à vida. Sobreviveram poucas cooperativas de consumo, muito poucas».
Ainda sobre o cooperativismo, Fernando Mestre não baixa os braços: «ainda estamos a tempo de, se der, qualquer dia, ter de renovar esse espírito nas pessoas».
«Ninguém há-de fechar as portas que Abril abriu»
Até porque «a vida é assim, só as pessoas lutarem é que faz diferença», remata. A frase parece resumir a o ponto de situação da COOPPOFA. Primeiro lutou-se para criar. Depois para ocupar. Depois para construir. Depois para pagar. Depois para não fechar. Agora, luta-se para encontrar continuidade.
E quando se pergunta pelo futuro, Mestre está preocupado com coisas práticas. Para já, o objetivo é modernizar ou substituir a cobertura do edifício, que tem alguns problemas de infiltração e afeta toda a infraestrutura. A cooperativa tenciona pedir orçamentos e solicitar apoio à Câmara Municipal de Faro, já que o custo poderá ultrapassar os 50 mil euros.
Mas o maior desafio não está no telhado, mas na sucessão e na continuidade do trabalho social. Diz Manuel Afonso: «esta é que não tem fim. E poderá continuar a desenvolver-se no futuro. Agora depende das gerações que vierem a seguir a nós. Porque nós os dois estamos com 76 anos e já não nos vai dar muito tempo para fazer muita coisa» nos próximos dois anos do mandato.
«Exatamente. Porque o futuro da cooperativa tem de passar por gente nova. Será, certamente, algo difícil», acrescenta Fernando Mestre.
«Sabe que às vezes não medimos as potencialidades que podem existir. Nunca podemos excluir que este é um trabalho que tem de ser feito. Se me perguntar: mas essa gente nova terá a dedicação que os homens de há 50 anos tiveram? Isso já tenho dúvidas», embora a resposta seja mais uma provocação do que uma convicção.
Manuel Afonso acrescenta: «Estamos a fazer alguns estudos, algumas sondagens para encontrar pessoas».
Uma coisa é certa. «O mundo não vai acabar daqui a 50 anos, nem daqui a 100. Vai acabar para muita gente, mas vai sempre continuar».
A COOPPOFA nasceu quando Faro ainda não tinha hipermercados, quando as comissões de moradores se organizavam nos bairros, quando 500 escudos podiam representar um sexto do salário de um jovem trabalhador, quando a palavra cooperativa tinha força mobilizadora e quando a sociedade, nas palavras de Fernando Mestre, «explodiu».
Depois, muita coisa mudou. O associativismo perdeu força. As grandes cadeias cresceram. As cooperativas de consumo perderam expressão.
A COOPPOFA endividou-se, negociou com credores, teve de aprender a resistir com menos participação, mas continua aberta. Há crianças na creche. Há almoços nos tabuleiros. Há fruta e frescos no supermercado. Há 34 trabalhadores e 4065 membros. Há um telhado para reparar, dívidas quase pagas e uma direção para renovar.
E há sobretudo um lema: «ninguém há-de fechar as portas que Abril abriu».
