A Fundação Pacifique lança, em Portimão, uma circum-navegação de cinco anos pela faixa intertropical, no sábado, dia 2 de maio.
A expedição «No Coração das Nossas Raízes» combina investigação científica sobre mangais com um programa de reinserção de jovens em situação de vulnerabilidade. Nesse dia, o veleiro Fleur de Passion larga as amarres rumo a uma viagem à volta do mundo que se prolonga até 2030.
A bordo seguem cientistas, educadores, jovens participantes e artistas, numa missão que cruza ciência, intervenção social e produção cultural. A iniciativa é promovida pela Fundação Pacifique, com sede em Genebra, em parceria com a Université de Genève e a Université de Toulouse.
O projeto assenta em dois eixos de investigação distintos. O primeiro, na área das ciências da educação e da psicologia, acompanha jovens integrados no programa «Jeunes en Mer».
O navio funciona como um ambiente estruturado onde investigadores analisam processos de aprendizagem, dinâmicas socioemocionais, construção de autonomia e desenvolvimento de competências. O trabalho inclui entrevistas, observação direta, testes e recolha de dados fisiológicos portáteis.
O segundo eixo centra-se no estudo dos mangais, ecossistemas costeiros tropicais que funcionam como barreiras naturais entre o mar e a terra, protegendo a linha de costa, armazenando carbono e sustentando biodiversidade. O trabalho científico é conduzido pelo Institute François-Alfonse Fore, da Université de Genève, e inclui avaliação ecológica, quantificação de carbono, cartografia com comunidades locais e criação de uma base de dados em acesso aberto para apoio a políticas de conservação.
Segundo a Lista Vermelha de 2024 da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 50% dos ecossistemas de mangrove avaliados estão ameaçados de colapso. Apesar da sua importância, continuam insuficientemente monitorizados à escala global, lacuna que a expedição pretende ajudar a colmatar.
A componente científica integra também tecnologia de recolha de dados. Os participantes utilizam o PlanktoScope, um sistema de imagiologia automatizada de plâncton e microplásticos, contribuindo com dados primários para projetos de investigação.
O itinerário segue a chamada «cintura verde» do planeta. Após a partida de Portugal, o navio desce até à Gâmbia e atravessa o Atlântico até ao Brasil. Em 2027, cruza o Canal do Panamá e percorre o Pacífico, com escalas nas Galápagos, Marquesas e Nova Caledónia.
Em 2028, a expedição concentra-se no «Triângulo de Coral» e no Sudeste Asiático, incluindo Indonésia e Vietname. No ano seguinte, atravessa o Oceano Índico, com passagens pelas Maldivas, Quénia e Madagáscar, contornando o Cabo da Boa Esperança. O regresso à Europa, via Atlântico e Mediterrâneo, está previsto para o final de 2030.
Em cada escala, o navio deverá apoiar projetos locais de conservação, funcionando como plataforma científica e logística no terreno.
A dimensão cultural integra-se na missão através da colaboração com a CONG SA. A figura de Corto Maltese, criada por Hugo Pratt, é assumida, de acordo com a organização, como referência simbólica da viagem. Segundo a informação do projeto, o escritor Marco Steiner e Patrizia Zanotti participam nas primeiras etapas da expedição para para desenvolver um novo romance ligado ao universo de Corto Maltese.
O navio tem também uma história própria. Construído em 1941 como um Kriegsfischkutter da marinha alemã, passou para França como presa de guerra após 1945, sob o nome Trébéron. Em 1976 foi reconvertido para fins científicos e educativos, passando a chamar-se Fleur de Passion. A Fundação Pacifique concluiu o seu restauro integral em 2009.
A missão dá continuidade a projetos anteriores da organização, incluindo uma circum-navegação inspirada na viagem de Fernão de Magalhães entre 2015 e 2019 e uma expedição ao Árctico entre 2020 e 2024.
Portimão acolhe a partida da expedição, com a presença de investigadores, responsáveis da fundação e representantes institucionais, incluindo a delegação da Embaixada de Portugal na Suíça.


