Vejo-me compelido a analisar, não as pessoas, mas a técnica de certos deputados que representam o Algarve, que, em vez de navegarem para um porto de verdade, preferem a dialética erística.
Na Engenharia Naval, aprendemos cedo que a estabilidade de uma embarcação não depende da beleza das suas velas, mas da integridade do casco e da correção do lastro.
Um navio que ostenta bandeiras vistosas, mas possui um casco roído pela eletrólise, é uma armadilha flutuante.
Transportando esta máxima para o oceano da discussão pública — e observando as marés que banham este nosso barlavento —, vejo-me compelido a analisar, não as pessoas, mas a técnica de certos deputados que representam o Algarve, que, em vez de navegarem para um porto de verdade, preferem a dialética erística.
Como dizia um reputado mestre da retórica, a vaidade inata do homem faz com que, numa disputa, ele não lute pela verdade, mas pela sua afirmação. No palco político atual, assiste-se ao triunfo do «vencer a qualquer custo»: um exercício de esgrima verbal em que o oponente deixa de ser um colega de debate para passar a ser um inimigo a afundar.
O estratagema da «voz das águas lamacentas»
Um dos truques mais recorrentes entre aqueles que se dizem «fora do sistema» é a ampliação indevida. No estaleiro, se um parafuso está solto, isso não significa que o navio inteiro seja sucata. No entanto, o discurso contemporâneo, nas redes sociais ou no Parlamento, vive desta falácia. Ouvem-se frases como: «Nós somos a voz dos portugueses de bem» ou «O sistema está podre de cima a baixo».
Ao apropriar-se do conceito de «bem» ou de «povo», o orador recorre ao estratagema n.º 1 de Schopenhauer. Torna a afirmação tão vasta que qualquer crítica passa a soar como um ataque à própria nação. É o lastro de areia: parece sólido no porto, mas desloca-se perigosamente à primeira tempestade lógica.
A arte de incendiar o convés
Outra manobra frequente é a provocação da cólera (estratagema n.º 8). Na náutica, um capitão furioso comete erros de cálculo. Na tribuna, o orador lança o isco: «Vocês têm medo da verdade», «Eles querem silenciar quem trabalha». Quando o interlocutor se indigna com a injustiça da acusação, o orador sorri. Já venceu perante a plateia. O oponente, ao tentar defender a honra, abandona o terreno dos factos.
O orador não precisa de um bom argumento; basta-lhe que o outro pareça desequilibrado. É como lançar fumo preto pela chaminé para esconder que o motor não tem potência para subir a costa.
O Desvio de Rumo (Mutatio Controversiae)
Quantas vezes, perante uma pergunta concreta sobre orçamentos ou logística social, surge a resposta: «O que os portugueses querem saber é porque é que os bandidos estão à solta»?
Como engenheiro, se me perguntarem sobre uma fissura no leme e eu responder sobre a cor das boias de salvamento, serei demitido. Mas, na erística política, este desvio de assunto (estratagema n.º 18) é aplaudido como «coragem». Trata-se de uma mudança deliberada de rumo quando o recife da verdade ameaça rasgar o casco da mentira. Se não se consegue responder, ataca-se algo que todos odeiam. É eficaz, é ruidoso e é, acima de tudo, desonesto.
O Argumento do Pescador (Ad Populum)
Schopenhauer observava que, perante uma audiência leiga, podem usar-se argumentos que um especialista desmontaria num instante. Ouvem-se promessas como «acabar com a corrupção num dia» ou «limpar o país com um decreto». Para um engenheiro naval, isto equivale a prometer um navio que navega contra o vento sem velas nem motor.
No entanto, para quem está cansado da viagem, a promessa de um milagre é mais apelativa do que a análise técnica da estrutura. O orador erístico sabe que a plateia não quer saber de hidrodinâmica; quer saber quem promete o mar mais calmo, mesmo que o capitão siga em direção ao olho do furacão.
O Ad hominem (argumento contra a pessoa) como bote de salvamento
Quando a lógica se esgota e os factos começam a entrar pelas fendas, surge o último recurso: o ataque pessoal. «Vocês são as elites que não conhecem a rua», «São as marionetas dos interesses».
Este é o estratagema n.º 38. Representa a derrota intelectual mascarada de agressividade vitoriosa. Quando não se pode atacar o argumento, ataca-se quem o profere. É como tentar tapar um rombo no casco com o corpo de um marinheiro: não resolve o problema, mas distrai quem observa.
Conclusão: É preciso olhar para a bússola
Neste barlavento de águas por vezes revoltas, é essencial que o cidadão saiba distinguir o capitão que conhece as cartas náuticas do deputado que apenas grita mais alto do que a tempestade.
A prática da «razão a qualquer custo» é uma navegação sem bússola. Pode ganhar regatas mediáticas e aplausos no cais, mas não constrói frota, não garante a segurança da carga e acaba, mais cedo ou mais tarde, por naufragar na realidade dos números e da convivência democrática.
Como dizia o mestre da Dialética Erística, a honra é a opinião de que temos certas qualidades. A dignidade, porém, é o facto de as termos. No mar, como na vida pública, o que nos mantém à tona não é o que dizemos sobre as ondas, mas a solidez do que construímos abaixo da linha de água. Importa, por isso, identificar os ardis, desmontar os truques e exigir, acima de tudo, uma navegação assente na verdade — por mais difícil que o mar se apresente. O Algarve merece melhor!!!
Alexandre Guedes da Silva | Algarvio, engenheiro naval e democrata cristão
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