Há pelo menos 36 anos que a Quinta do Freixo, em Benafim, concelho de Loulé, começou a ser explorada para a criação de ovinos, em particular, a ovelha campaniça, embora a atividade agrícola remonte ao século XIX. Esta propriedade pertence à Sociedade Agrícola e Industrial do Algarve (SAIA), um negócio familiar que desde há cinco gerações «toca as três áreas de atividade: o sector primário, com agricultura e pecuária, o secundário porque temos indústria, produzimos, transformamos e embalamos, e o sector terciário com serviços na área do turismo e restauração», sintetizam os irmãos Miguel Silva, 51 anos, e Luís Silva, 47 anos, dois dos responsáveis pelo sucesso da empresa, ao «barlavento».
E há 19 anos que Luís Silva se dedica à Quinta do Mel, em Olhos de Água, concelho de Albufeira, propriedade que evoluiu de meros terrenos de culturas hortícolas para uma unidade de turismo rural com loja gourmet, salão de chá e restaurante.
Segundo este empresário, ambas as quintas foram compradas pelo avô, António Provisório, e passaram de geração em geração. Hoje, a operação da SAIA envolve a mãe, os irmãos, os filhos e sobrinhos. Todos desempenham diferentes atividades, com os devidos ajustes e adaptações que a evolução dos tempos exige.
Este ano, a novidade é que a família vai avançar com um investimento de 350 mil euros na expansão da vertente do agroturismo, verba que também será destinada à renovação das imagens de marca que a SAIA comercializa, e à diversificação das atividades em ambas as propriedades.
«A necessidade de rebranding da nossa empresa surgiu porque queríamos que o público associasse as nossas duas quintas numa imagem unificadora. São dois nomes, dois locais, mas um só conceito», explica Luís Silva.

Na Quinta do Freixo, o agroturismo é uma operação que remonta a 1994. No verão que se aproxima passará a disponibilizar 16 quartos (em vez de apenas 10). E irá abrir portas aos visitantes que queiram participar em atividades de vida no campo. Por exemplo, nos cuidados com o rebanho. «Atualmente temos 1100 ovelhas campaniças, mas o objetivo é chegar às 2000. Fazemos a tosquia durante os meses de maio e junho. A ideia é que qualquer pessoa possa assistir e participar neste processo», explica. «A lã possui propriedades hidrófugas. É usada para fazer meias e mantas que vendemos nas nossas lojas físicas e online», acrescenta o empresário. Além de fonte de rendimento, as ovelhas «são a solução perfeita para manter limpas as zonas de pastagem e de mato por causa dos incêndios».
Esta raça, contudo, «esteve em vias de extinção. São ovelhas menos produtivas que as raças utilizadas pela maior parte dos criadores, mas extremamente rústicas e bem adaptadas às condições exigentes da serra algarvia. Muitos agricultores desistiram de as reproduzir. Nós esforçámo-nos por recuperar e preservar» esta espécie, e graças ao trabalho desenvolvido na Quinta do Freixo, e por um outro criador alentejano, a região sul tem hoje mais de metade do total da população em Portugal.
Ainda no que toca às novidades do agroturismo, Miguel Silva destaca a produção de aguardente de figo, que se comercializa nas lojas de ambas as quintas e em lojas gourmet no país. É feita numa antiga destilaria da família que está a ser renovada e onde também se produzem os licores vendidos na loja da Quinta do Mel, em Olhos de Água.
Ali, encontramos a matriarca da família, Maria da Conceição, sentada num banco, a inspecionar ao detalhe, o processo de transformação. Explica-nos que «ainda produzimos aguardente em bronze centenário, o que nos dá muito mais trabalho. 2019 será o último ano. Em breve, tornaremos isto num espaço museológico e investiremos em equipamentos mais modernos», revela.
A cada três anos, na Quinta do Freixo, procede-se também ao descortiçamento de cada um dos três setores dos sobreiros da herdade, espalhados por 400 hectares de terrenos no coração algarvio. Neste momento, associada a unidade de agroturismo da Quinta do Freixo, está em desenvolvimento uma «zona de paisagismo dedicada a eventos, aproveitando uma fonte centenária, que pretendemos que seja utilizada para apresentações e lançamentos de marcas e produtos, atividades de team bulding, ou até sessões de yoga, entre outros eventos de cariz cultural. Estamos abertos a propostas», garante Luís Silva. Está também em estudo a instalação de um parque fotovoltaico de última geração.
Apicultura e agroturismo
No ano 2000 Luís Silva começou a utilizar os terrenos da família em Olhos de Água para desenvolver a apicultura. «Tratava do processamento da melaria e comecei a fazer visitas guiadas às colmeias. Os visitantes vestiam os fatos de proteção, observavam todo o processo, e no final, podiam comprar mel», explica. A partir de então, o empresário apelidou o local de Quinta do Mel. E dado o crescente interesse e procura, começou a disponibilizar outros produtos de fabrico próprio. «O sucesso foi tanto, que ao fim de dois anos, já vendíamos os produtos da família ao nível dos melhores clientes e lojas de renome como o El Corte Inglês, em Lisboa, ou a Harrods, em Londres, no Reino Unido», lembra.

A família decidiu então investir na recuperação total da propriedade, convertendo-a em unidade de agroturismo, com casa de chá e loja gourmet, em agosto de 2007.
Hoje, não é necessário ficar alojado e qualquer pessoa pode visitar o espaço. O restaurante está aberto todos os dias da semana para pequenos almoços, almoços e jantares. Outro aspeto diferenciador é o jardim de ervas aromáticas com mais de 20 variedades, as quais dão origem a cerca de 40 variedades de infusões de chá que podem ser provadas no local. E todas as quintas-feiras, às 10h30, Luís Silva está disponível para visitas guiadas. A grande aposta para 2019 será a renovação de uma carta inspirada na Dieta Mediterrânica e que aproveita grande parte do que se produz em ambas as quintas. O objetivo é promover a economia circular: «as terras que providenciam o alimento são as mesmas que fornecem a matéria-prima e que atraem os hóspedes».
Uma família respeitada
«Durante toda a sua vida, Dona Antónia sempre se prontificou em auxiliar os mais necessitados. Tornou-se assim numa figura querida desta região, ajudando a todos os que recorriam a ela. Teve um papel fundamental na constituição da freguesia de Benafim em 1988 doando terrenos que pertenciam ao morgado para a construção de infraestruturas que permitiram a esta terra adquirir o estatuto de freguesia».
Estas palavras estão manuscritas em painéis de azulejos, num pátio memorial dedicado a Antónia do Carmo Provisório da Silva Campos, logo à entrada daquela aldeia do concelho de Loulé. Imortalizam a memória da fundadora da herdade da Quinta do Freixo. Luís Silva, o neto, recorda que «toda a gente tinha uma enorme consideração pela minha avó, porque na década de 1950 vivia-se uma grande miséria. A maioria das pessoas era obrigada a emigrar para sobreviver. Mas ela empregou mais gente do que realmente necessitava. Tinha mais de 100 empregados, embora não houvesse um volume de trabalho para todos. Simplesmente, empregava para ajudar. Esse é um dos motivos pelos quais hoje existe em Benafim o Pátio Dona Antónia e a Rua Antónia Provisório. São uma homenagem a esta senhora, conhecida pelo seu enorme coração. Há inclusive uma história engraçada. Após o 25 de Abril de 1974, muitos latifúndios por todo o país foram ocupados. Mas na Quinta do Freixo, os trabalhadores impediram que a propriedade fosse tomada por quem quer que fosse! Foi graças a eles, que a defenderam, que estas terras permanecem na nossa família até hoje. Todos tinham muita consideração por ela».


