O mau tempo e o furacão da semana passada levaram a autarquia farense a abrigar cerca de 150 pessoas da comunidade cigana do Cerro do Bruxo no Pavilhão Municipal da Penha. Na tarde de sábado, 10 de março, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa avaliou a situação e, no final, pediu uma mudança de mentalidades. «Tem de (se) perceber que é do interesse de uma sociedade digna e justa aceitar a integração de todos e não marginalizar ninguém. E é do interesse de todos que ninguém se marginalize a si mesmo. É importante que todas as comunidades queiram integrar-se, que os seus filhos se integrem, que estudem, que tenham e exerçam uma profissão, sem distinções entre homens e mulheres, aceitando isso. Este esforço reciproco é um esforço de mentalidades que temos todos os dias de fazer. É uma luta de todos os dias», frisou Marcelo Rebelo de Sousa em declarações aos jornalistas.
«A coisa mais difícil de mudar é a sociedade. É mais fácil mudar as leis, é mais fácil mudar a economia, é mais fácil mudar outra coisa. Numa sociedade democrática, aberta, inclusiva é bom para todos aceitar a integração, percebendo e aceitando as diferenças, para ninguém seja marginalizado e deixado num gueto. É importante criar condições e isso começa na cabeça das pessoas», referiu.
Marcelo falou conversou com a matriarca e os líderes da comunidade, elogiando o facto de as crianças e jovens terem continuado a frequentar as aulas. «É muito importante, em termos de valorização pessoal, social e de integração comunitária, a ida à escola», disse.
No entanto, o Presidente admitiu que «a questão de maior fôlego, a prazo, terá de ser vista entre entidades públicas centrais e município. Pelo que sei o município tem várias situações sociais de alojamento por satisfazer, e é preciso encontrar uma fórmula que permita realmente aquilo que hoje se entende que deve acontecer. Que não deve haver segregações, nem separações, nem distanciamentos. E isso começa desde logo na habitação. É um processo que tem de ser pensado globalmente», disse ainda o Presidente da República.
Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro, corroborou as dificuldades, pois «a questão não passa apenas por aquela comunidade. Passa por resolver um problema que temos, desde a habitação social, habitação a custos controlados, a realojamentos vários. Esta é apenas uma de múltiplas comunidades que temos no concelho, como a da Horta da Areia que já começámos de alguma forma a realojar», disse. «É evidente que estas coisas não se fazem de um dia para o outro. Se eu tivesse 35 casas, elas seriam todas ocupadas, tal como o parque habitacional do município está ocupado. Já começámos a fazer neste mandato a elaboração de um plano municipal de habitação que contempla não só estas situações, mas todas as outras», anunciou.
«Queremos lançar ainda este ano construção a custos controlados, estamos a trabalhar com o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana para o realojamento dos pescadores da Praia de Faro, e queremos lançar também construção de habitação social ainda este ano. São coisas que não acontecem de hoje para amanhã, mas se não começarmos a trabalhar hoje, não acontecerá no futuro. É preciso planos, concursos e tudo isso leva tempo», disse Rogério Bacalhau.
Antes de regressar a Lisboa, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa ainda fez uma vistoria às barracas do Cerro do Bruxo, onde viu os estragos e as condições precárias. «De vez em quando, certos acontecimentos chamam a atenção para coisas de fundo, de estrutura que se vão acumulando ao longo do tempo», disse, referindo-se às lacunas na habitação social. Marcelo Rebelo de Sousa espera que não sejam precisos «mais 20 anos para ver este problema resolvido».
João Vasconcelos visitou acampamento e Pavilhão Municipal da Penha
Durante a manhã de sábado, 10 de março, o deputado do Bloco de Esquerda (BE) João Vasconcelos também visitou o Cerro do Bruxo. «A nossa Constituição da República defende que todo o cidadão tem direito à habitação condigna. Infelizmente isso não se passa aqui no concelho de Faro, tal como é realidade um pouco por todo o país. A nossa função é junto dos poderes públicos, junto do governo, como deputado da Assembleia da República, pressionar o governo para que em conjunto com a Câmara Municipal arranje uma alternativa, que não seja mais uma situação provisória, para acolher as pessoas de etnia cigana», disse ao «barlavento».
«Naturalmente, que temos de ver as prioridades. O problema é que as câmaras deixaram de apostar na habitação social. Como se sabe, este governo tem uma política de nova geração que não está ainda em concretização. Foi apresentado no final deste ano, e esperamos que saia rapidamente do papel. Efetivamente, este problema é fruto dos governos e dos partidos que têm governado nas Câmaras Municipais, com responsabilidades acrescidas para o PS e PSD, muitas vezes com o apoio também do CDS que são os principais responsáveis aqui e noutras situações como esta».






