Três tijolos colocados por Carlos Manuel Martins, secretário de Estado do Ambiente e ex-presidente do Conselho de Administração da Águas do Algarve, na manhã de segunda-feira, 31 de outubro, deram o pontapé de saída àquela que será uma ETAR «modelo» em Portugal.
Na cerimónia que se seguiu, Teresa Correia, vereadora da Câmara Municipal de Faro, em representação do município, foi a primeira a felicitar o arranque da obra, pois «a Ria Formosa estava ameaçada em função da não resolução de um problema que se arrastava há anos».
António Miguel Pina, autarca de Olhão, classificou o ato como «um dia de grande satisfação, sobretudo para os amantes da Ria Formosa. Esta é a última das grandes ETARs do sistema da Águas do Algarve, mas deveria ter sido a primeira, porque se encontra num espaço ambiental muito rico, numa das zonas húmidas mais importantes da Europa», destacou. E endereçou uma palavra de apreço ao ministro do Ambiente que «demonstra uma alteração na postura do ministério, muito mais preocupado em defender a Ria Formosa pelos investimentos que têm de ser feitos, como a rede de esgotos e as dragagens dos canais e abertura das barras. É uma visão mais construtiva e menos destrutiva», ironizou.
A nova ETAR vai também receber e tratar, através de um novo sistema elevatório, os esgotos de São Brás de Alportel. Presente, o autarca daquele município serrano, Vítor Guerreiro visionou um «Algarve mais limpo e mais apetecível», e apto a garantir «um futuro melhor para todos».
Já Joaquim Peres, presidente do conselho de administração da Águas do Algarve, destacou o facto de que «esta é a última grande obra de tratamento de efluentes, mas é também a primeira feita de raiz que vai utilizar um método inovador em Portugal», o sistema «Nereda». Entre outras vantagens, permitirá «uma significativa economia de energia e a diminuição de ocupação de superfície do complexo. Na Ria Formosa todos os espaços devem ser muito respeitados e tivemos isso em consideração», sublinhou.
Aliás, esta é uma opção elogiada por Carlos Manuel Martins. É «uma tecnologia que eu, como presidente da Sintejo, promovi num processo de investigação e desenvolvimento e que tão boas provas deu a nível internacional», lembrou o secretário de Estado. Foi testada numa experiência piloto na ETAR de Frielas e terá aqui «um bom desempenho ao nível do consumo de energia, dos reagentes», ocupando uma área menor, em relação a outros sistemas convencionais.
O presidente da Águas de Portugal João Nuno Mendes frisou que «este é um investimento no qual houve uma grande preocupação com as questões ambientais, como a desodorização, a poupança energética e a inovação. Se olharmos para o portfólio do que existe no país, esta será uma ETAR modelo», sublinhou.
Além disso, terá um «sistema de lagoas que será uma mais-valia ambiental extraordinária». O governante pediu a todas as entidades licenciadoras e às autarquias que mantenham a boa colaboração ao longo dos próximos meses «para nós conseguirmos organizar um processo de requalificação ambiental das lagoas que seja consistente com o calendário de entrada de funcionamento» da ETAR, previsto para o final de 2018.
Em conjunto com a nova ETAR da Companheira, em fase de construção mais adiantada e que deverá começar a trabalhar em março de 2018, «creio que estaremos a criar um valor muito grande, do ponto de vista ambiental e económico que fará destes projetos um símbolo, não apenas pela sua qualidade tecnológica, mas também de uma perspetiva ambiental, que podemos aportar a médio e longo prazo à região do Algarve», disse João Nuno Mendes.
Oportunidade para a investigação Carlos Manuel Martins explicou que as duas novas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) agora em construção, colocam a região «na linha da frente» no de que de melhor e mais moderno existe em termos da engenharia do ambiente. «É uma oportunidade para os funcionários da Águas do Algarve se qualificarem na operação e na manutenção. Estou certo que encontraremos aqui oportunidades para os quadros desenvolverem todo o seu talento», disse. E mais. «Esta sofisticação tecnológica é uma oportunidade de a empresa se ligar ainda mais a universidades e aos institutos politécnicos, no sentido de promover mais investigação e mais conhecimento». O know-how a desenvolver poderá vir, no futuro, a «dinamizar o nosso saber em projetos internacionais».
A ETAR mais moderna de Portugal
A nova instalação vai tratar as águas residuais de uma população de cerca de 113 mil habitantes, nas cidades de Faro, Olhão e São Brás de Alportel, correspondendo ao caudal médio diário de 28149 metros cúbicos por dia. O tratamento biológico será efetuado em sistema GSBR (Granular Sequencing Batch Reactor), mediante o processo «Nereda», podendo, até 60 por cento do efluente, após tratamento preliminar, ser sujeito a filtração de areia-solução «Leopold». Antes de ser descarregado no meio recetor, o efluente é desinfetado, através de um sistema de desinfeção por ultravioletas (UV). Parte será ainda sujeita a uma desinfeção adicional, com vista à produção de água de serviço que poderá vir a ser reutilizada na rega ou em serviços de limpeza urbana. A nova ETAR também estará melhor preparada para lidar com as lamas que resultam do processo de tratamento dos esgotos. A solução inclui espessamento gravítico, desidratação por centrifugação, e armazenamento temporário de lamas em silos. Também os maus cheiros têm os dias contados. O ar das etapas de tratamento mais odoríferas é captado e tratado num sistema por lavagem química. A construção está a cargo de um consórcio constituído pelas empresas Oliveiras, SA e Aciona Água, SA. Juntamente com o sistema elevatório, que deverá estar concluído antes da ETAR, serão investidos mais de 21 milhões de euros, cofinanciados em 85 por cento pelo Fundo de Coesão da União Europeia, no âmbito do Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR).
Ria Formosa mais limpa
O grande objetivo desta obra é eliminar a contaminação fecal que chega à Ria Formosa, quer por via difusa, quer por poluição tópica, através da desativação das atuais ETAR de Faro Nascente e ETAR de Olhão Poente. Além de obsoletas, estas instalações também emanam um odor desagradável muito ativo, em certas épocas do ano, que penalizam os estabelecimentos hoteleiros e habitações construídas nas proximidades. Hoje, parte significativa das águas residuais geradas na capital algarvia são tratadas na ETAR de Faro Nascente, localizada a cerca de 2,5 quilómetros a este da cidade. E parte significativa das águas residuais produzidas na vizinha Olhão são tratadas na ETAR de Olhão Poente, localizada a cerca de um quilómetro a oeste do núcleo urbano. Ambas estão sub-dimensionadas, assentam em sistemas de lagunagem desadequados para os padrões de qualidade agora exigidos para o efluente tratado a descarregar no meio recetor, a Ria Formosa. As instalações da ETAR Faro Nascente serão demolidas para dar lugar ao novo e moderno equipamento. Já em Olhão, a problemática ETAR Poente será encerrada.

