A Escola EB2,3 Dr. Alberto Iria, em Olhão, é o estabelecimento de ensino onde, no início deste século, iam parar os alunos problemáticos que as outras escolas recusavam. E foi a que aceitou a proposta do professor de biologia Marco Matos para iniciar a esgrima.
«Os alunos eram fruto de casos sociais complicados. A esgrima funcionava como uma ferramenta de trabalho social. Eram obrigados a praticá-la. Nas primeiras competições, tornaram-se conhecidos entre as outras equipas como «os selvagens do Algarve», pois ignoravam completamente o cerimonial que faz parte da modalidade. Ao fim de dois anos, começaram a ganhar algumas competições. Fizemos questão de publicar os resultados e fotos na imprensa local. Os jovens, até aí com uma autoestima muito baixa, compreenderam que também é possível dar nas vistas pela positiva. Sentiram-se importantes e o seu comportamento alterou-se de tal forma que surpreenderam toda a gente», confidenciou Marco Matos ao «barlavento». «É bom notar que muitos destes jovens saíram de Olhão pela primeira vez, quando foram competir a Lisboa ou ao Porto. Nunca tinham ido mais longe do que a Fuzeta ou Faro».
A esgrima passou a fazer parte do programa de atividades escolares e o clube foi inscrito na Federação. Entretanto, as coisas modificaram-se e, em 2013, foi criada uma associação sem fins lucrativos, que envolve os pais dos alunos e facilita a obtenção de apoios institucionais e de patrocínios. Atualmente, os praticantes vêm de vários estratos sociais e de vários estabelecimentos de ensino. Contudo, através de um protocolo, continuam a utilizar as instalações da Escola EB2,3 Dr. Alberto Iria.
Marcos Matos vai também treinar o novo clube de esgrima, o segundo no Algarve,
que estará federado muito em breve. A associação LUEL terá sede em Albufeira.
Segundo Marco Matos, diretor técnico da Esgrimalgarve, o clube, com cerca de 20 praticantes regulares, entre os nove e os 50 anos de idade, tem algo que poucos possuem: mais títulos nacionais do que anos de existência. «É fácil de explicar. Há anos em que não ganhamos nada e outros em que vencemos em vários escalões, ou em masculinos e femininos, tendo saldo positivo».
Quando se fala em esgrima, apercebemo-nos de que há três variantes – florete, sabre e espada. A maior diferença está nas regras. Enquanto no florete e na espada, só pode tocar com a ponta, o sabre também pode tocar como se fosse cortar. Depois, com o florete só pode tocar o tronco do adversário, a espada pode tocar qualquer parte do corpo e o sabre pode tocar da cintura para cima, excetuando as mãos. Embora o sabre prolifere na Esgrimalgarve, enquanto escrevíamos este artigo, o atleta Max Rod, 23 anos, encontrava-se na Suíça a disputar a Taça do Mundo em espada, depois de ter vencido a primeira prova do circuito nacional sénior. E já conquistou uma medalha de ouro num campeonato mundial, em juniores.
O clube também tem um atleta amputado, Hélder Farroba, que faz esgrima adaptada, em cadeira de rodas, sendo campeão nacional na modalidade de florete.
O clube olhanense é uma das grandes potências nacionais, principalmente nos escalões mais jovens. No passado ano, os seus atletas arrecadaram cerca de 40 medalhas, repartidas por uma dúzia de atletas. Recentemente, na categoria sub-15, Débora Jerónimo sagrou-se campeã nacional de sabre, com Teresa Godinho e Cristina Caysyn respetivamente no segundo e terceiro lugar.
Nos masculinos, Alexandre Graça, atual campeão nacional em cadetes, está em Londres a disputar uma prova do circuito europeu. Infelizmente, Débora Jerónimo sofreu uma luxação grave na mão direita e não pode participar nesta competição.
Todo o material é do clube, podendo alguns atletas ter uma peça específica sua, como uma máscara ou uma luva. Equipar um atleta para competições nacionais custa à volta de 300 euros. Para competições internacionais este valor sobe muito, situando-se entre os 500 e os 800 euros. De notar que Marco Matos não usufrui qualquer tipo de compensação económica e que os praticantes não pagam qualquer mensalidade, ao contrário da quase totalidade das outras modalidades.
Para conseguir sobreviver, a esgrima olhanense conta, desde o início, com o grande apoio da Conserveira do Sul. Há três anos que mantém um protocolo com a autarquia local, que os ajuda a manter-se no topo.
