Carros velhos, barcos sem casco e amontoados de motorizadas há muito que enferrujam num terreno em frente ao Pavilhão de Congressos do Arade, no Parchal. Estão parados há anos, à guarda da GNR, ocultos da vista pelo mato que, entretanto, cresceu ao redor. A situação mudou, contudo, desde há poucas semanas. O mato foi limpo, o terreno ampliado e a sucata cresceu. E não falta espaço para mais monos, pois a intenção da GNR é fazer ali um depósito regional de veículos apreendidos.
Ao «barlavento», o major Bruno Marques, chefe da repartição de Relações Públicas e Protocolo da Guarda Nacional Republicana, a nível nacional, adiantou que o projeto ocupa «18 mil metros quadrados» de área delimitada «por vedação, com a concordância da Docapesca», não estando «prevista a construção de edifícios, além do pré-fabricado» já existente. Será apenas instalada «uma rede de iluminação interna de segurança» e uma «vedação periférica».
A obra deverá estar concluída até ao final de abril, argumentando o major que a «GNR limita-se a utilizar este terreno com a mesma finalidade» que já tinha antes. Isto é, «num propósito de concentração de meios». E a intenção até é boa, porque evita a dispersão de veículos apreendidos «por diversos espaços públicos, junto das infraestruturas da GNR, situação que conferiria uma inconformidade urbanística e uma má imagem, numa zona turística de excelência».
Já os autarcas, Francisco Martins, presidente da Câmara Municipal, e Luís Alberto, presidente da Junta de Freguesia de Ferragudo, têm uma perspetiva diferente. Consideram que o depósito a céu aberto da GNR, apenas com uma rede a delimitar o espaço, vai poluir visualmente uma das principais entradas no concelho de Lagoa. E fica numa zona que até tem um plano de requalificação ambicioso.
Francisco Martins, já reuniu com a diretora da Docapesca no Algarve, e adiantou ao «barlavento» que está descontente com a forma como este projeto está a ser implementado às portas do concelho, que vive da imagem para atrair o turismo.
Aliás, já solicitou uma reunião com o secretário de Estado da Defesa para sensibilizá–lo e tentar encontrar uma localização alternativa. Ou, caso não seja possível, tentar minimizar o impacto visual daquela que vai ser a nova casa de todos os veículos apreendidos pela GNR no Algarve.
«Sabemos que estes processos de viaturas apreendidas não são céleres. Há prazos processuais e outras questões que demoram. Pelo que vemos de situações semelhantes, sem querer ser ofensivo, aquilo arrisca-se a ser um ferro velho» na «principal entrada do concelho, uma zona nobre que até tem um projeto de intervenção ao lado (Marina de Ferragudo), que fica em frente ao Pavilhão do Arade, um investimento de quatro municípios, da Região de Turismo do Algarve e de alguns privados».
O major da GNR desdramatiza, pois «não é intenção da Guarda utilizar o espaço para armazenamento de sucata ou viaturas suas abatidas». Ainda assim, admite que, «pese embora o estado em que se encontram algumas das viaturas e embarcações apreendidas que lá se encontram possa gerar uma ideia errada, não é de todo o caso, tão somente as viaturas encontram-se no estado em que foram apreendidas, agravado pela demora da resolução dos diferentes processos judiciais».
Aliás, o major reforça que a intervenção, que já conta com uma infraestrutura pré–fabricada, se encontra «na posse administrativa da Unidade de Controlo Costeiro sendo guarnecida pelo Destacamento de Controlo Costeiro de Olhão». A ideia foi «autorizada pela Docapesca», com um «parecer favorável do município».
Francisco Martins confirma, mas sublinha que tal parecer foi dado pelo seu antecessor, José Inácio (PSD), Além disso, o documento «é uma questão de cortesia, não de obrigatoriedade», e portanto não tem valor vinculativo.
O atual presidente da Câmara de Lagoa até entende a necessidade e sublinha que tem havido cooperação com a GNR de Lagoa, sempre que a autoridade pede à autarquia para guardar viaturas nas instalações municipais.
«Não sou contra. Temos é que escolher o local adequado. Se tivesse mesmo que ser ali, atendendo ao histórico e aos anos que o processo tem, pelo menos, podiam ser contempladas medidas de minimização de impacte visual», como árvores e arbustos.
Na perspetiva da GNR, a intervenção até agora realizada dá «um melhor arranjo urbanístico à utilização que vinha sendo dada ao espaço, organizando-o», explica o major Bruno Marques.
Além da Marina de Ferragudo, projeto que ainda está de pé, embora muito atrasado, a Câmara Municipal de Lagoa tem na calha um plano de requalificação para aquela entrada no concelho, em ambos os lados.
Junto à Docapesca e a este armazém da GNR, a ideia é criar «uma ciclovia, arranjar o passeio, colocando candeeiros e bancos», seguindo a via pedonal da ponte velha do Arade até ao Parchal.
No entanto, Martins refere que a obra da Guarda nem sequer contemplou o espaço necessário para o projeto da autarquia, que terá agora de pedir à tutela cerca de um metro de terreno junto à rotunda para dar continuidade à via pedonal.
«Estamos a requalificar, por um lado, temos o projeto da Marina e, no meio, temos aquele amontoado de viaturas abandonadas, que se vão degradando ao longo dos tempos. Se havia péssimo sítio para se instalar este depósito era precisamente aquele».
Francisco Martins espera ainda estar a tempo de salvar aquela zona, pois «não é um bom cartão de visita, é péssimo e é uma falta de sensibilidade de quem possa ter pegado neste processo».