A Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH) elaborou um estudo sobre a hipertensão nas grávidas, que foi apresentado por José Mesquita Bastos, presidente desta organização, no final do mês passado, no Tivoli Marina Vilamoura.
Em entrevista ao «barlavento», o responsável pela SPH explicou que este estudo utilizou a monitorização ambulatória da pressão arterial (MAPA), que permite «a medição da tensão arterial durante o dia todo» com vista a chegar a um diagnóstico mais fidedigno.
José Mesquita Bastos adiantou que os indicadores revelam que a «percentagem de falsas hipertensas», pode chegar aos 30 por cento. «Ou seja, são grávidas que no consultório têm a tensão alta, mas quando o exame é efetuado verifica-se que não têm», esclareceu. São situações momentâneas. «Com o recurso à MAPA, obtém-se um resultado mais específico e fidedigno», disse.
O problema é que este sistema não é acessível em Portugal, porque não é comparticipado pelo Estado, apesar de ter como vantagem a aferição da tensão arterial com mais precisão, justificou. O MAPA excluiria à partida as falsas hipertensas, «que podem estar a ser incorretamente medicadas», sendo «prejudicial tanto para a grávida como para o feto».
Neste estudo, a SPH analisou «também a influência da diabetes gestacional em grávidas hipertensas», bem como o impacto «desta na ocorrência de complicações na gravidez». Os dados indicam que, a existência de historial da doença, prévia à gravidez, provoca um aumento da probabilidade de ocorrência de eventos materno-fetais. «Além disso, ter tido diabetes gestacional numa gravidez anterior é significativo em termos de complicações na gestação atual», contou este responsável.
A necessidade deste estudo está ligada ao facto da hipertensão arterial ser uma das doenças mais frequentes na gravidez, acarretando riscos quer para a mãe, quer para o bebé. Esta é, aliás, uma condição que pode complicar a evolução normal da gestação, condicionando a restrição de crescimento intra-uterino do feto e prematuridade. Em casos extremos pode levar à morte do feto. José Mesquita Bastos, cardiologista, alerta que esta condição, sobre a qual ainda não são bem conhecidas as causas, pode ser minimizada, «através de uma vigilância cuidada por uma equipa multidisciplinar».
A hipertensão na gravidez manifesta-se, com maior frequência, em mulheres que já tinham pressão arterial elevada antes, que eram obesas ou fumadoras, e que continuaram a fumar durante a gestação. A má adaptação do organismo à condição de gestante, a alimentação desequilibrada, o consumo excessivo de sal e o sedentarismo podem ser outras das causas. «Importa, contudo, referir que a gravidez é a única situação em que o sal não deve ser reduzido, porque não há interesse em diminuir o volume sanguíneo necessário ao bom desenvolvimento do bebé», alertou o cardiologista.
As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, estando o país acima da média europeia, ainda que o número de falecimentos tenha vindo a diminuir em relação aos anos anteriores. Como conselhos, José Mesquita Bastos enumera a diminuição do consumo do sal, (continua a ser consumido quase o dobro do aconselhado pela Organização Mundial de Saúde, cuja recomendação se situa nos 5,5 gramas por dia), a adoção de um estilo de vida saudável com alimentação equilibrada e a prática regular de exercício físico. Por fim, o hábito de medir a tensão arterial para um maior controlo dos valores.
Para o presidente da SPH o Congresso Português de Hipertensão, que se realizou em Vilamoura, é sempre uma experiência enriquecedora, pois «os participantes têm oportunidade de se atualizarem sobre as últimas novidades» nesta área, podem «construir uma boa rede de networking», e serve para fomentar «o debate de ideias», sublinhou.