Se der por falta de uma carta que nunca mais chega ou se esperar demasiado tempo para ser atendido num balcão… a culpa é da falta de pessoal e das opções que os CTT têm tomado nos últimos anos, após a privatização dos serviços, segundo acusam os trabalhadores desta empresa, através do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Correios e Telecomunicações (SNTCT).
Os problemas apontados são muitos, mas as principais queixas passam pela falta de pessoal, na distribuição e no atendimento ao balcão, pela deslocação de funcionários de estações, por vezes, tendo que percorrer 50 quilómetros, e até ao recurso a agenciamentos (out sourcing) e trabalhadores independentes para substituir as faltas no quadro de pessoal. Quem paga são os utentes dos serviços, que acabam por sentir os atrasos na entrega da correspondência ou no balcão de uma qualquer estação, defende a estrutura sindical.
E esta até é uma realidade nacional, segundo denuncia o SNTCT, agravada pelo aumento do correio registado, em especial, com aviso de receção, que obriga o carteiro a despender mais tempo no ato de entrega, pois tem que identificar o destinatário e recolher a sua assinatura. A denúncia chegou através do deputado Paulo Sá, do Grupo Parlamentar do PCP, que reuniu com os dirigentes sindicais para ouvir as reclamações dos trabalhadores.
Em entrevista ao «barlavento», Eduardo Rita, dirigente nacional do SNTCT, explicou que «o Algarve é a região mais afetada, no caso do atendimento, com as deslocações, pois já há muitos anos que a empresa não faz a substituição de trabalhadores em férias para colmatar as falhas». Ou seja, um trabalhador de Faro pode ter que ir para Vila Real de Santo António, ou de Portimão para Lagoa ou Albufeira, para substituir um colega. «A empresa, por norma, paga as deslocações», mas a viagem tem que ser feita em horário de trabalho, adiantou Eduardo Rita. Um funcionário faz uma viagem de ida de uma hora, trabalha duas horas, e volta para mais uma hora de viagem.
Chegam a ser 50 quilómetros, podendo ser avisados no próprio dia, o que causa transtornos à rotina dos funcionários. «Desde que não altere os horários, pode ser de um dia para o outro ou no próprio dia. Caso contrário, a alteração de horário tem que ser avisada com uma semana de antecedência», o que, por vezes, também não acontece, garante este dirigente nacional do sindicato.
Apesar destas queixas, fonte oficial dos CTT, contactada pelo «barlavento», esclarece que «sempre que um trabalhador está ausente e a sua substituição se justifica, a empresa utiliza os meios disponíveis para suprir essa necessidade. Pode ser um carteiro de outra zona, ou não. Os CTT sempre fizeram movimentação de trabalhadores, e continuarão a fazer pelas características da sua atividade, até em benefício do serviço postal aos clientes, respeitando as regras existentes para o efeito».
A empresa rejeita a existência de atrasos, sublinhando que «mantêm um sistema de controle dos prazos de entrega a nível nacional», atuando sempre que há «desvios» normais, visto a extensão da rede. No caso algarvio, alegam que todas as dificuldades, em 2015, tiveram resposta imediata, não havendo degradação dos níveis de serviço, como comprovam os indicadores.
Já no caso da distribuição, os dirigentes sindicais adiantaram que a empresa substitui, mas «se três trabalhadores estão de férias, a empresa contrata um e nunca a termo completo». Acabam todos por trabalhar mais do que as 40 semanais.
Para mais, os CTT implementaram a distribuição segmentada (entrega de correio normal dia sim, dia não). O carteiro «hoje faz metade da volta com todo o correio, mas na outra metade apenas entrega o prioritário», exemplifica.
Assim, na zona limite da metade do giro, num prédio as pessoas recebem a carta da água hoje, enquanto ao lado só recebem amanhã. Há ainda casos de carteiros que fazem vinte quilómetros de mota para entregar dois ou três registos nos meios rurais. «Como a empresa tenta dar prioridade a isso, o outro correio fica sempre para trás», esclareceu Eduardo.
A mesma fonte oficial da empresa explica que «os CTT verificaram uma quebra consistente do tráfego postal nos últimos anos. Por esse facto, a admissão de carteiros não se tem mostrado necessária já que os meios existentes são suficientes».
No panorama algarvio, Olhão é a cidade que mais sofre para escoar o serviço e, segundo o SNTCT, a empresa faz estudos de giros, mas na realidade não resolvem os problemas. «Os reformados e quem sai da empresa não são substituídos».
A empresa continua a contratar trabalhadores independentes (agenciamentos), que não têm formação, nem condições. E para o cidadão comum, são carteiros da empresa, mesmo que nunca tenham tido qualquer ligação com esta. E essas pessoas não podem estar no interior da estação, por isso, os funcionários que lá estão têm que preparar o correio para a sua volta e também o desses. A empresa alega que o volume de correio baixou, mas o SNTCT garante que, ainda assim, o registado aumentou e esse tem prioridade, porque é pago e é urgente.
No contraponto, a empresa rejeita que a privatização tenha colocado em causa os serviços postais. «Os CTT cumpriram, em 2015, todos os objetivos definidos pelo regulador para o correio doméstico, nomeadamente o correio urgente», reforça a mesma fonte. Segundo os dados dos CTT no Algarve, a empresa emprega «250 pessoas nas áreas operacionais de distribuição (carteiros, transportes) e 179 no atendimento, que se estende por todos os concelhos totalizando 41 lojas CTT».