O Comando-local da Polícia Marítima (PM) de Faro apreendeu na segunda-feira, 25 de janeiro, 124,4 quilos de Pepinos-do-Mar, na Praia de Faro, em plena Ria Formosa.
A apreensão decorreu no âmbito de uma ação de fiscalização, em que a esta autoridade acompanhou os movimentos de algumas embarcações, abortando a operação de transbordo do pescado para uma viatura.
Os pescadores, após aperceberem-se da aproximação dos agentes da Polícia Marítima, puseram-se em fuga nas embarcações, abandonando na margem três recipientes de Pepinos-do-Mar.
No decurso das diligências no local, foi identificada uma cidadã que aguardava junto à viatura, suspeita de ser a recetadora da referida espécie.
Nesta operação de fiscalização, estiveram empenhados dois agentes e uma viatura tipo pick-up da Comando-local da Polícia Marítima de Faro. O pescado, ainda vivo, foi devolvido ao seu habitat natural.
Nos mercados asiáticos, certas espécies de pepinos-do-mar valem entre 150 a 200 dólares por quilo, o que atribui uma valorização estimada de 18 a 25 mil euros à apreensão, segundo as autoridades.
Os Pepinos-do-mar são utilizados na alimentação e na medicina tradicional. A procura é tanta que já levou à sua extinção nalgumas partes do mundo. No Norte da Turquia, nos últimos anos, foram pescados 700 mil a um milhão de indivíduos por dia – um desastre ecológico que se está a repetir hoje no norte de África.
Há o risco de acontecer o mesmo em Portugal, já que não existe legislação que proteja os Pepinos-do-Mar, por enquanto, ainda abundantes desde a costa algarvia até Peniche.
Um recurso estudado no Algarve
A investigadora espanhola Mercedes González Wangüemert, do Centro de Ciências do Mar da Universidade do Algarve, estuda desde 2012 a aquacultura da espécie Holothuria arguinensis, uma das mais valiosas e ameaçadas.
Em dezembro de 2014, esta investigadora foi uma das poucas a conquistar um contrato da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para continuar a pesquisa por um prazo de cinco anos.
A estação-piloto do Ramalhate do CCMAR (em Montenegro, Faro) foi, aliás, a primeira a conseguir fazer a reprodução induzida de Holothurias em cativeiro na Europa.
Para esta investigadora, «é muito urgente criar legislação que proteja os Pepinos-do-Mar, especialmente a espécie Holothuria arguinensis, que só existe na costa portuguesa, desde o Algarve até Peniche, nas Canárias e na costa noroeste de África».
«O grande problema é que esta espécie em estado selvagem tem uma distribuição geográfica muito pequena. Se capturada em quantidades brutais, como aconteceu na Turquia, pode desaparecer de Portugal ainda mais depressa. Sem legislação, a sua captura é livre», lamenta.
A reprodução em cativeiro poderá ser útil para preservar a espécie e complementar outros cultivos. «Por exemplo, aqui no Algarve temos jaulas de aquacultura de peixe muito produtivas. Contudo, os restos das rações e os excrementos desses peixes produzem um impacto muito negativo nos fundos marinhos. Fazem com que se torne um meio anóxico, com pouco oxigénio, causando o desaparecimento de pradarias de algas. Como os Pepinos-do-Mar se alimentam de matéria-orgânica, podem ajudar a diminuir o impacto ambiental negativo. Isto também se pode aplicar na aquacultura de bivalves como mexilhão e ostras».
Em teoria, o policultivo de peixe com Pepinos-do-Mar, permite optimizar a produção «porque a qualidade dos habitat melhora. Além disso, poderiam ter um bom perfil nutricional para consumo humano. Esta técnica é usada na China na aquacultura de vieiras, com a espécie Apostichopus japonicus – umas das mais importantes e valiosas naquele país».
Mercedes começou a interessar-se pelos Pepinos-do-Mar, quando supervisionou a tese de doutoramento de uma estudante colombiana que lhe despertou a atenção.
«Descobrimos que estas espécies estavam a ser pescadas na Turquia. Começamos a procurar informação e vimos que os chineses já tinham esgotado todos os recursos em muitas áreas do Índico e do Pacifico. E portanto, começaram à procura na área oriental do Mediterrâneo. Apanhavam até quatro espécies diferentes, a um ritmo de 700 mil a 1 milhão de indivíduos por dia nos últimos anos (2011-12). Em dois anos, muitas das populações simplesmente desapareceram. Isto chamou a nossa atenção quando vimos que as capturas continuam a avançar e já chegaram à Grécia, Itália e nordeste de Espanha. Na China existe aquacultura para algumas espécies de Pepinos-do-Mar, mas mesmo assim, não conseguem abastecer o mercado oriental».
«Do ponto de vista nutricional, os Pepinos-do-Mar são muito bons, ricos em proteínas e minerais. Nós não os consumimos, mas em países orientais como China, Indonésia e Malásia são usados na alimentação, e também como recurso médico. Seria ótimo para a exportação» nacional.