Quer dar voz aos que não a têm, cortar o «ciclo de escravatura económica» que tem afundado a sociedade portuguesa, sem esquecer a condição animal e as causas ambientais. É talvez um discurso mais filosófico do que político, mas que Manuela Gonzaga assume para a sua candidatura à Presidência da República.
O lema «liberdade incondicional» significa «liberdade de pensamento. Algumas das pessoas mais livres que conhecemos estiveram presas em nome dos seus ideais. Há um espaço de sonho que nos habita, e muitas vezes, a forma como vivemos, ou estamos organizados, trucida ou amputa os nossos ideais e os maiores nossos anseios», explicou ao «barlavento», na manhã do passado domingo, durante uma visita à Associação Recreativa e Cultural de Músicos, em Faro.
«Temos hoje em dia uma ditadura económica a nível mundial e a nível local, um neo-liberalismo selvático. Vivemos numa ansiedade enorme, dominada pela necessidade de sobrevivência muito imediata. Esta forma de nos organizarmos em sociedade, de sermos dominados por forças que nos são muito alheias, tem-nos retirado a capacidade de sermos livres», lamentou.
Manuela Gonzaga quer ser «a provedora dos cidadãos. Sem fronteiras etárias, sem fronteiras sociais. Os cidadãos precisam de alguém que os represente. E não necessariamente os mais fortes. Esses já têm quem os represente. Têm o seu espaço de manobra e o seu espaço de defesa. Agora, quem está desempregado, quem é trabalhador precário, ou quem tem entre 40 e 50 anos, quando os seus vínculos de trabalho terminarem, não terão nenhuma rede de segurança. Nós ainda estamos seguros por uma rede de proximidade, a rede de pais e avós. Quando esta linha de geração acabar, talvez 70 por cento da população portuguesa vai cair numa grande miséria», previu.
«A ideia que tenho enquanto cidadã é que a agenda política fala para muito poucas pessoas. Fala para dois grupos: produtor e consumidor. São o público que interessa à ditadura económica. Depois, temos uma grande faixa de pessoas consideradas de terceira idade, ou mais velhas, a quem devemos todo o respeito e todo o amor, porque foram quem nos antecedeu. Muitas têm dinheiro ou para remédios ou para comer. Porque é que não têm voz?»
Ainda sobre a questão das desigualdades sociais, «se tivermos dívidas pequenas, somos penhorados e não há contemplações. Logo aí há uma grande assimetria. Temos uma justiça para ricos e uma para pobres. Não há vozes a contestarem isto».
«A política fala na criação de emprego. Mas que empregos e em que condições? Temos vindo a perder direitos laborais, as pessoas são despedidas de um dia para o outro, têm que se sujeitar a muita coisa», criticou.
Questionada sobre o atual momento político, a candidata do PAN considerou que é «muito estimulante. Nunca o Parlamento foi tão vigiado como agora. O partido que está no poder tem que prestar contas do que faz. Não há muralhas, nem há opacidades. Temos visto o poder chegar e correr as cortinas. Esta cortina de silêncio tem permitido que aconteçam coisas inadmissíveis, com uma total irresponsabilização de quem as comete. Algumas pessoas que passaram pelos vários governos, quando saem, sofrem uma espécie de Alzheimer. Não se lembram como é que ficaram tão ricas, nem como é que nós ficámos todos mais pobres».
Com um percurso de vida que resume na frase «sou ativista antes de haver nomes para ativismos», Gonzaga admite que «pensei muitas vezes» antes de avançar. «Agora, o que me movimenta é muito maior que eu. Se quiser, esta é uma candidatura de causas. Quem nos vê de fora, acha que o PAN é só um partido animalista. Mas somos também um partido ambientalista e sobretudo humanista».
Antes de vir ao Algarve, apresentou-se no Porto, Guarda e Lisboa. Ainda está a recolher as assinaturas necessárias para formalizar a candidatura. A aceitação tem sido «muito positiva. O que temos de melhor em Portugal é a nossa sociedade civil que acredita na força dos seus sonhos», disse, referindo-se ao exemplo da Associação de Músicos de Faro, que não desistiu de continuar viva apesar da ordem de despejo da antiga sede.
A candidata terminou a entrevista com um convite à reflexão individual. «Somos responsáveis pelo nosso destino. Costumo dizer que todos sabemos quem é o salvador da pátria. É aquela pessoa que encontramos todos os dias quando olhamos para o espelho. Aquela pessoa a quem chamamos eu, que tem de estar aplicada na salvação de nós todos».
Bombeiros, um exemplo a seguir
Em todos os locais onde tem apresentado a sua candidatura, Manuela Gonzaga faz questão de visitar os bombeiros, quer voluntários, quer profissionais. «São as pessoas que vão para os locais de onde os outros fogem. Têm o lema mais belo que conheço que é vida por vida. São a nossa maior força de combate perante a tragédia e, infelizmente, talvez a mais mal-amada. Se a nossa política tivesse a mesma força que os bombeiros têm no terreno, nós seríamos o melhor país do mundo», concluiu.