No começo de um novo ano escolar, quando a primeira ronda de avaliações termina, importa fazer uma reflexão sobre o comportamento, as adaptações e os resultados dos nossos filhos e alunos. As Dificuldades de Aprendizagem Específicas (DAE) põem em causa a capacidade de aprender e de usar as capacidades académicas (leitura, escrita, cálculo). Permanecem apesar de se realizarem esforços e intervenções direcionadas para a resolução dessas dificuldades. Podem envolver um conjunto alargado de limitações: leitura com muitos erros ou substituições de palavras; leitura lenta e esforçada, com dificuldades na compreensão dos textos ou enunciados; erros na escrita (troca de letras que assumem os mesmos sons; omissões de letras); caligrafia muito irregular, por vezes ilegível até para a própria criança; dificuldades na construção de frases, parágrafos e na utilização da pontuação; dificuldades em exprimir as ideias por escrito; dificuldades em dominar a noção de número, quantidade ou de operação aritmética.
A prevalência das DAE no universo da população de estudantes portugueses tem vindo a aumentar nos últimos anos. Os estudos mais recentes referem que pode chegar aos 10 por cento, manifestando-se de forma superior nos rapazes (a proporção é de três rapazes para uma rapariga). Estas dificuldades apenas têm manifestação após o início da escolaridade, tendo a criança demonstrado um normal percurso de desenvolvimento. As dificuldades podem não ser patentes logo no primeiro ano de escolaridade, e apenas manifestar-se quando a criança deixa de conseguir acompanhar o ritmo de aprendizagem dos seus colegas.
É importante distinguir entre dificuldades de aprendizagem gerais, como, por exemplo, decorrente de atraso no desenvolvimento cognitivo, ou perturbação do espectro do autismo. As DAE são a causa mais comum de insucesso escolar e resultam de um défice específico na capacidade do cérebro para receber, processar ou comunicar informação.
Estas dificuldades não deverão resultar de falta de prática, do método de ensino utilizado, ansiedade e depressão, perturbações comportamentais ou serem devido a défices percetivos periféricos (visão ou audição). O sinal mais significativo de uma DAE é uma diferença significativa entre as expetativas depositadas no desempenho escolar da criança (tendo em conta o seu funcionamento intelectual, a adequação comportamental, familiar e o bem-estar emocional) e o desempenho escolar efetivo dessa criança.
A criança com DAE mostra um adequado nível de raciocínio e de capacidade de compreensão das tarefas e matérias, mas falha nas aprendizagens e, especialmente, na avaliação escolar. Estas crianças correm o risco de serem identificadas como preguiçosas, pouco esforçadas ou desinteressadas. Portanto, a deteção precoce permite estabelecer intervenções dirigidas às dificuldades da criança, melhorando significativamente o seu desempenho e diminuindo a frustração académica. Para o diagnóstico criterioso das DAE é necessário recolher informação em entrevista com os pais, com os professores, observar a criança e aplicar testes estandardizados de desempenho cognitivo.
As DAE são permanentes e a criança necessita de um acompanhamento de reabilitação. É importante referir que uma criança com DAE que não seja referenciada na escola até ao final do segundo ciclo de escolaridade, dificilmente irá ter apoios e adequações ao seu percurso escolar.
O Hospital Particular do Algarve possui uma consulta especializada em neuropsicologia clínica para crianças, apta para avaliar e intervir em vários cenários. Presta aconselhamento parental para estratégias de modulação comportamental para as dificuldades de atenção e sessões de treino atencional tentando evitar a medicação.
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