Nuno Borges nasceu em Moçambique há 45 anos. Três meses depois, a comissão de serviço militar do pai acabou e foi para Coimbra, onde cresceu. Licenciou-se em Direito e, há 15 anos, fixou-se no Algarve, onde trocou a advocacia pela mediação imobiliária. Entretanto, descobriu a fotografia, que se tornou a sua grande paixão. «Quando uma pessoa chega a uma determinada idade, começa a refletir sobre o que anda aqui a fazer, e qual o propósito disto tudo. E a fotografia serve como ferramenta para essa análise», que já soma uma década.
barlavento – Aborda a fotografia enquanto ferramenta para a reflexão da vida. Como?
Nuno Borges – A fotografia é uma forma de escrita, feita com imagens em vez de palavras. O facto de ser uma escrita permite-nos conhecermo-nos melhor, porque, o ato de fotografar é feito na primeira pessoa, descobrindo, ou redescobrindo, quem somos.
O modo como o fotógrafo escolhe os temas e os aborda permite uma análise psicológica?
Exatamente.
Tal como muitas pessoas, começou a fotografar de modo generalista, mas rapidamente adotou dois métodos: light painting e longas exposições. Porquê?
Dentro da tal busca pelo conhecimento pessoal, vim a descobrir que gostava de procurar o «momento preciso» de que falava o grande mestre Henry Cartier-Bresson, mas que tinha necessidade de prolongá-lo para além dessa fração de segundo. Muitas vezes, esse momento perpetua-se para além do congelamento típico de uma máquina fotográfica. Esses dois estilos aplicados à dança, que me apaixona, fazem com que determinados momentos que, por si só, não transmitem emoção, venham a mostrar–nos a coreografia e o movimento, prolongando esse momento decisivo no tempo.
O que é que o atrai no light painting?
Tal como o nome desta técnica indica, é a pintura. Nas longas exposições, apenas se prolonga o momento decisivo no tempo. O light painting permite o desdobramento para uma área mais criativa. Usando a lã de aço incandescente ou a luz de lanternas, desenho determinadas linhas e formas, um grafismo que é o espelho da minha criatividade.
Fotografa por instinto ou pensa os temas, procura os modelos, e esquematiza durante dias ou semanas o que pretende fazer?
Correto. São raras as fotos que acontecem na contemplação da realidade. A minha fotografia passa por um processo criativo e, quase sempre, são concebidas no meu pensamento e, depois, executadas para a concretização daquilo que tenho em mente.
Referiu que dança é um tema preferido. Porquê?
Há uma frase que uma amiga que fotografei me disse, embora não seja dela: «o nosso corpo move-se; a nossa alma dança». E essa frase fez detonar esta linha de gostar de fotografar a dança, porque me permite captar a alma através do movimento. Passar da parte física para a espiritual, através da expressão cultural.
Quando se fotografa pessoas, há três visões diferentes: a pessoa como ela é, como ela própria se vê e como o fotógrafo a vê. Concorda?
Sim. Quando vou fotografar uma pessoa, procuro a sua essência. Tenho de me rever nessa essência. Tem de haver uma ligação entre a forma como eu as vejo e a forma como elas se veem. Se não houver essa compatibilidade de leitura, não posso fazer esse retrato.
Como gera essa empatia?
A fotografia é gerada em mim. Só consigo fazer o retrato, se tiver uma ligação emocional às pessoas. Tenho de conhecê-las para conseguir fotografá-las. Tem de haver uma sinergia e um processo de osmose emocional e espiritual para que a fotografia transmita essa carga emocional.
Embora não viva exclusivamente da fotografia, tem feito muitas exposições. Algumas fora Algarve, certo?
Sim. No início do ano, fiz uma exposição em Lisboa, no Festival Danças com Alma. Em termos de visibilidade do meu trabalho, há cerca de um mês ganhei o primeiro prémio do «Novo Banco Cais Reflex», um concurso internacional e dos principais a nível nacional, que dá sempre projeção. Mas, efetivamente, a fotografia é algo que deixei completamente à margem da questão financeira. Faço fotografia por paixão e, por isso, não tenho concessões a fazer. Só fotografo quem eu quero e aquilo que tenho em termos de conceção. E levo isso muito a sério, para que o trabalho seja cem por cento íntegro.
Que projetos fotográficos para o futuro?
Penso passar da dança e do ioga para o desporto. É o projeto «Soulmade», em conjunto com a fotógrafa Cristina Palma Moreira. Já está em curso o primeiro trabalho com a Nair Fernandes, campeã nacional de boxe. Preparamos material não só de fotografia, mas ao nível de audiovisuais, que será apresentado numa exposição, a acontecer brevemente. Depois, passaremos a outros atletas de Portimão e concelhos limítrofes.
Um conselho para um jovem que deseje iniciar-se em fotografia?
A fotografia é uma escrita, uma linguagem com imagem. Se eu tiver uma folha de papel em branco e uma caneta, penso no que quero transmitir aos outros, antes de começar a escrever. É igual, na fotografia. O conselho que dou é que, antes de começar a carregar no botão, faça uma reflexão sobre o que quer transmitir com as suas fotos.