Aproveito para felicitar todos os envolvidos na recente criação da barra energética de Querença, cuja base são produtos regionais e vai ser produzida, com vista à sua comercialização, numa parceria entre o Projeto Querença, a panificadora e pastelaria louletana Amendoal, e o curso de Engenharia Alimentar da Universidade do Algarve.
Criar um produto inovador, que conta com figo, alfarroba, amêndoa e mel algarvios na sua composição, parece-me ser um bom exemplo, pois valoriza, não só a terra e a agricultura, como o capital humano existente, sem passar em branco pelas pessoas. Os recursos naturais não se podem separar dos habitantes! É o caso da agricultura, cujas atividades até podem ser desenvolvidas em complemento e harmonia com o motor da economia da região.
É verdade que temos um Algarve a mexer e a posicionar-se nas primeiras linhas dos destinos turísticos de Portugal e da Europa, mas tenho consciência de este não ser um tempo de facilidades, mas de mostrar capacidade e resistência, aproveitando para uma reflexão sobre os outros setores de atividade que a região proporciona e de como desenvolver os recursos existentes.
A região trabalhou bem, consolidando a retoma que já se fizera sentir em 2013, e não podemos deixar de nos congratular com os resultados obtidos pelo setor do Turismo, nas suas variadas vertentes, em 2014.
Afinal, o Turismo do Algarve não só resiste, apesar dos arautos da desgraça e daqueles que já estavam dispostos a desistir, como apresenta taxas de crescimento e se responsabiliza por uma fatia importante dos resultados do Produto Interno Bruto (PIB).
Outra razão porque esta reflexão se torna urgente, prende-se com o desemprego e a sazonalidade que tanto penalizam os algarvios e as empresas da região do setor. Os números do último inquérito trimestral do INE, quanto ao emprego, são inegavelmente positivos, assinalando uma baixa no desemprego a nível nacional. Contudo, a estatística oficial global não é corrigida quanto às oscilações do mercado de trabalho decorrentes dos picos de atividade e isso é notório no registo das taxas de desemprego por região.
Entre outubro e dezembro, as regiões mais sensíveis a variações sazonais, nomeadamente por causa do turismo, registaram um aumento das taxas de desemprego, em comparação com os meses de verão. Foi o que aconteceu com maior expressão no Algarve, onde a taxa de desemprego subiu de 11,2 por cento para 14,9 por cento num trimestre.
Daí que considere imprescindível que, no plano económico, o Algarve se empenhe no combate ao desemprego, por mais qualificação dos seus ativos, mas também no desenvolvimento de outras atividades produtivas.
Considerou-se o regresso aos campos, que no auge da crise parecia ser uma tendência para ficar, em especial para jovens agricultores apostados em novos produtos e diferentes mercados. Olhando, porém, para os dados mais recentes do INE, a agricultura e pescas foi o sector onde a redução do emprego mais se fez sentir, tanto na comparação com 2013 como com o terceiro trimestre de 2014.
Terá sido um movimento meramente pontual? Ou podemos consolidar esta tendência, que permitiria não só aumentar o emprego, como esbater a sazonalidade e conferir mais riqueza e atrair habitantes ao interior do Algarve?
Turismo e Agricultura são compatíveis
É com esse objetivo que me parecia fundamental dar uma maior atenção à agricultura. Uma das medidas seria a criação de uma agência financeira, com dinheiros públicos (centrais e municipais) para articular e promover intervenções no interior, alavancada pelos fundos comunitários disponíveis para o setor.
Socorrendo-me de um dos muitos estudos já elaborados quanto às chamadas Áreas de Baixa Densidade, este desenvolvido pelo Centro de Estudos Territoriais do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em termos de propostas futuras o documento aponta para a necessidade de articulação dos promotores dos projetos com instituições e privados.
Isto porque, continuamos a ter no Algarve muita dificuldade em gerir a questão da articulação e coordenação das intervenções, que obtêm uma fraca participação da população local, a par da falta de continuidade das iniciativas, ou seu desajustamento, bem como a ausência de auto sustentação económica dos projetos.
Outras das propostas avançadas pelo Estudo era dotar os projetos de objetivos multifuncionais, para uma maior ligação a atividades turísticas, e ainda o lançamento de uma plataforma digital, que pudesse funcionar como central de vendas, agindo para a promoção de uma marca regional diversificada. Agora que se abre uma janela de oportunidades com um maior interesse pelo Turismo da Natureza, a par do turismo sol e praia e cidade/animação, estes passos de aproximação entre as diversas atividades produtivas e de serviços da região são urgentemente necessários.
O regresso à economia real, a um sistema que valorize a produção e as matérias-primas deve compatibilizar-se com os maiores e melhores conhecimentos e tecnologias, já presentes no nosso dia a dia. Precisamos de responder com criatividade aos desafios que se nos colocam enquanto sociedade, substituindo uma atitude conflituosa entre litoral e interior, por uma perspetiva de complementaridade, em defesa intransigente da identidade e dos valores do Algarve.
Precisamos de um poder regional que se sobreponha à lógica dos «quintalinhos» municipais, possa esbater o centralismo e, sobretudo, com um projeto motivador, que dê sentido aos dias que hão de vir.
*Engenheiro Civil