De um sonho comum de «dar ferramentas às crianças para viverem de forma mais consciente, harmoniosa e divertida em família», nasceu um projeto que leva o Yoga aos mais novos, de forma inclusiva
Um projeto que nasceu no confinamento de 2021, motivado pela COVID-19, pelas mãos de duas mães que, «com o silêncio e a falta de liberdade», uniram «a luminosidade das ideias e a força de vontade para dar corpo e alma» ao Yoga Kids Algarve.
É desta forma que Sónia Castro, de 41 anos, licenciada em Estratégia e Gestão Turística e supervisora de um departamento de vendas e marketing de uma marca hoteleira que atua no Algarve, na área do bem-estar, descreve o projeto que dirige em conjunto com Susana Caciones, de 36 anos, também licenciada na área do Turismo e do Marketing que, depois de nove anos ligada à hotelaria, deixou a carreira e entrou num curso certificado de meditação para crianças, após o qual iniciou as suas próprias aulas.
As agora sócias já se conhecem desde 2008, numa relação que «não foi amor à primeira vista» mas evoluiu no sentido de ultrapassar as divergências iniciais. Daí construíram uma amizade de longa data que culminou agora neste projeto a meias, com a sua primeira aula no dia 28 de abril. Sónia Castro explica que a pandemia lhe deu «uma perspetiva de incerteza. O que damos hoje por garantido, amanhã pode não o ser. Por isso resolvi começar a preparar a minha filha, que na altura do primeiro confinamento tinha quase três anos, para um mundo menos material, menos consumista, mais consciente. Foi nesse processo que encontrei o yoga».

Daí em diante, a hoteleira também avançou para uma formação certificada nacional e internacionalmente, para ministrar aulas de yoga e meditação a crianças dos três aos 12 anos. Concluída a aprendizagem, e em consonância com a sua formação em Estratégia, «achei que era necessário criar uma marca, que tivesse voz perante instituições e outras entidades, para que fosse possível realizar um trabalho organizado e estruturado», explica Sónia Castro.
É que, garante a agora instrutora, «o yoga exige prática, até nas crianças, e para isso precisamos de compromisso e consistência nas professoras e nas famílias».
As responsáveis quiseram levar esta modalidade a todas as crianças, independentemente da situação financeira das famílias, e por isso abraçaram aquilo a que chamam «yoga social». Susana Caciones detalha que esta vertente nasceu com o firmar de protocolos com os projetos Famílias UP e Akreditar+, ambos a laborar em Quarteira.
A prática de yoga pelas crianças, neste âmbito, tem vários benefícios segundo Susana: «promove a auto-estima e a auto-aceitação. As crianças relaxam e divertem-se, trabalhando várias vertentes como a consciência corporal e a concentração».
E no projeto Famílias UP, «as sessões abrangeram vários elementos da família». Neste momento, a vertente social está a funcionar no limite: «somos duas professoras, e temos quatro aulas semanais para todas as crianças com o pacote mensal normal. Nunca deixámos uma aula por dar, mesmo nos meses mais caóticos, de julho e agosto. Agora, em época escolar, temos sempre duas vagas reservadas para aulas gratuitas, destinadas às crianças provenientes de famílias com menos recursos financeiros», acrescenta Sónia Castro.
O objetivo base da Yoga Kids Algarve passa por «operar em todo lado onde acharem que a nossa presença acrescenta», segundo as responsáveis, que detalham: «a máxima da empresa passa por dar as nossas aulas indoor em locais próprios para a prática de yoga e meditação, neste momento em Loulé, Quarteira e Vilamoura». E que espaços são esses? Segundo Susana Caciones, «o Seven Spa, no hotel Hilton Vilamoura, onde temos capacidade para cinco crianças acompanhadas. Em Quarteira temos duas salas, uma para 10 crianças e outra para cinco, no Centro do Yoga da cidade. E em Loulé utilizamos uma sala interior no Centro Atman, onde temos capacidade para cinco crianças, mas dispomos de um jardim que já nos permitiu ter 12 crianças, com os devidos espaçamentos».
Cada aula tem uma duração de 30 a 45 minutos e é estruturada de acordo com a idade física e emocional dos alunos. Através de jogos, canções e histórias, os mais pequenos executam diversos conjuntos de posturas (Asanas numa linguagem técnica) e terminam a sessão com um exercício respiratório (Pranayama) para relaxar o corpo, bem como meditação infantil para apaziguar a mente.

Sobre a concorrência que existe na região, Sónia Castro mostra entusiasmo: «é muito positivo. Existem professores de yoga na região, a lecionar a crianças, com a sua metodologia, e não existe nada de errado nisso. Queremos que saibam que estamos aqui, podemos até trabalhar em conjunto e, se nos complementarmos uns aos outros, podemos abraçar mais iniciativas sociais».
A terminar, a monitora da Yoga Kids Algarve deixou uma reflexão: «Há uma célebre frase de Dalai Lama, onde ele nos diz que se todas as crianças de oito anos de idade aprendessem meditação, eliminaríamos a violência no mundo dentro de uma geração. Conseguem imaginar os resultados que teríamos se chegássemos a todas?».
Pais podem participar e fazer «detox» digital
A Yoga Kids Algarve promove, essencialmente, yoga e meditação em família. As responsáveis, Sónia Castro e Susana Caciones, fazem questão de contar com a presença dos pais das crianças que participam nas sessões, proporcionando «um momento para se desconectarem da tecnologia, que fica à porta da sala. É um momento de detox digital, tão importante numa era onde vivemos absorvidos por tecnologia».
Segundo Sónia Castro, «a faixa etária dos três aos seis anos é mais recetiva a esta prática com os pais». E trabalhar com crianças não significa a existência de distrações que não permitam a absorção de vários conceitos das aulas: «por vezes pensamos que não estão a prestar atenção à história ou ao objetivo da aula, mas dias depois temos feedback dos pais a dar conta que eles usaram algum termo aprendido na aula ou alguma técnica para saírem de uma situação, e isso dá-nos imenso prazer e satisfação», admitem as responsáveis.
Depois, à medida que as crianças vão crescendo, «criam a sua bolha e preferem fazer algumas sessões sozinhas. Mas tudo depende da criança, dos pais e da ligação que criam connosco», explica Sónia Castro.