A associação ZERO sugere cinco pontos-chave que considera cruciais para a Cimeira Luso-Espanhola de hoje, com foco nos recursos hídricos, ferrovia, interligações energéticas e até na organização do Mundial de Futebol de 2030.
Entre as principais preocupações da ZERO está a questão dos caudais mínimos diários nos rios transfronteiriços, como o Tejo. Embora a eliminação dos «dias de caudal zero» seja um progresso, a organização considera que a simples definição de caudais mínimos diários não é suficiente para garantir a saúde dos ecossistemas fluviais.
Para uma gestão verdadeiramente sustentável, é necessário que o acordo se baseie em critérios mais robustos, que incluam caudais ajustados às dinâmicas naturais dos rios, garantindo que a água libertada ao longo do tempo seja suficiente não apenas em quantidade, mas também em qualidade e variabilidade. Isto é fundamental para assegurar a sobrevivência das espécies e habitats que dependem dos rios.
Além disso, a ZERO defende que o cumprimento do acordo seja monitorizado por uma entidade independente e que os resultados sejam tornados públicos de forma regular e acessível, promovendo a transparência e o envolvimento da sociedade civil na gestão dos recursos naturais.
Outro ponto central apresentado pela ZERO é a necessidade de expandir o acordo além dos rios Tejo e Guadiana, que atualmente são os únicos incluídos. A organização sublinha que rios como o Douro e o Minho, também partilhados entre Portugal e Espanha, estão sob crescente pressão devido às alterações climáticas, e merecem uma gestão coordenada entre os dois países.
Para a ZERO, a criação de um acordo mais abrangente, que envolva todos os rios transfronteiriços, é fundamental para garantir uma distribuição equitativa e sustentável da água, permitindo uma resposta mais eficaz aos desafios ambientais que se avizinham.
A mobilidade sustentável é outro tema abordado pela ZERO, que apela ao relançamento dos serviços ferroviários entre Lisboa e Madrid, uma ligação que considera vital tanto para o turismo como para o desenvolvimento de um sistema de transportes mais ecológico na Península Ibérica.
A associação defende a criação de serviços diurnos e noturnos competitivos, que promovam o uso do comboio como alternativa ao transporte aéreo, com particular foco na nova linha Évora-Caia, que deve ser plenamente aproveitada.
A ZERO lamenta a existência de programas de incentivos para promover a acessibilidade aérea de várias cidades ibéricas, sem que o mesmo tipo de incentivo seja aplicado à acessibilidade ferroviária. O relançamento da ferrovia seria «um passo importante para a promoção do turismo sustentável e uma alternativa eficiente em termos de impacte ambiental».
Em termos energéticos, a ZERO critica o projeto do gasoduto H2Med, considerando-o «ineficiente e caro», e sugere que os governos de Portugal e Espanha reavaliem a sua participação no projeto.
A associação ambientalista propõe uma maior aposta na eletrificação e no uso do hidrogénio verde como solução para a reindustrialização da Península Ibérica, apontando para a necessidade de uma cooperação mais estreita no planeamento do reforço das redes de transporte de eletricidade e no desenvolvimento de estratégias de armazenamento energético.
A ZERO sublinha que a eletrificação da indústria é um passo crucial para a descarbonização e competitividade da região, e defende que o hidrogénio verde deve ser utilizado de forma estratégica, apenas em sectores onde a eletrificação direta não seja viável.
Por fim, a ZERO vê o Mundial de Futebol de 2030, que será organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, como uma oportunidade única para impulsionar a rede ferroviária ibérica, transformando-a numa verdadeira alternativa ao transporte aéreo.
A associação, juntamente com a Aliança Ibérica pela Ferrovia, propôs a criação de «bilhetes verdes» que incluam as deslocações ferroviárias para assistir aos jogos, incentivando assim a utilização do comboio como meio de transporte.
Para que isso aconteça, a ZERO sugere uma cooperação estreita entre os dois países e as empresas públicas responsáveis pelo ecossistema ferroviário, de forma a garantir que as cidades-sede do Mundial estejam ligadas por uma rede ferroviária eficiente, confortável e rápida, com tempos de viagem razoáveis.
Os ambientalistas apelam também ao lançamento da terceira travessia do Tejo, uma infraestrutura ferroviária que permitiria uma ligação mais rápida entre Lisboa e Madrid, talvez ainda a tempo do Mundial de 2030.
A ideia da terceira travessia do Tejo não é completamente nova, já foi mencionada em vários contextos ao longo dos anos, principalmente no que diz respeito a melhorar a conexão ferroviária entre Portugal e Espanha. Discussões sobre a modernização e expansão da rede ferroviária têm sido um tema recorrente nas políticas de infraestruturas, tanto em Portugal como a nível europeu, para reduzir a dependência dos voos de curta distância e promover o transporte sustentável.
A defesa de travessias ferroviárias rápidas faz parte do movimento por uma transição energética e ambiental que envolve, entre outras coisas, a criação de alternativas sustentáveis no setor dos transportes. Este projeto em particular está associado à visão de aumentar a interconectividade na Península Ibérica, especialmente com a realização de grandes eventos como o Mundial 2030, que dá um pretexto adicional para reavaliar as infraestruturas.
Além disso, a construção de uma terceira travessia é vista como uma resposta à crescente procura por alternativas mais ecológicas e menos dependentes do transporte aéreo, embora existam dúvidas quanto à viabilidade financeira e ao impacto ambiental real.
O programa atualizado da cimeira está disponível aqui,
Foto: Bruno Filipe Pires