A italiana Nadia Battocletti e o espanhol Thierry Ndikumwenayo dominaram hoje os Campeonatos da Europa de Corta-Mato em Lagoa, numa edição marcada também pela medalha de prata histórica de Portugal na estafeta mista.
Battocletti e Ndikumwenayo confirmaram o favoritismo e conquistaram os títulos seniores na 31.ª edição dos Campeonatos da Europa de Corta-Mato, disputados no Parque Urbano do Parchal, em Lagoa, no Algarve, num Europeu que ficou igualmente assinalado por um momento histórico para a seleção portuguesa, este domingo, dia 14 de dezembro.
Na prova sénior feminina, Nadia Battocletti voltou a impor-se, ao conquistar o segundo título consecutivo neste escalão, depois de já ter dominado a especialidade em juniores e sub-23. A atleta italiana, de 25 anos, venceu com autoridade, em 24.52 minutos, confirmando o estatuto de uma das principais figuras do fundo europeu.
«Encarei a prova com a mesma mentalidade vencedora dos últimos anos. Como estive em Tóquio, estou aqui da mesma forma. Tem sido uma época incrível e foi muito bom conseguir revalidar o título europeu», afirmou Nadia Battocletti.
A italiana deixou a britânica Megan Keith no segundo lugar, a 15 segundos, e a turca Yasemin Can, recordista de triunfos na competição, com quatro títulos, no terceiro posto, a 21 segundos. Com esta vitória, Battocletti igualou os dois cetros das britânicas Paula Radcliffe e Hayley Yelling, bem como da irlandesa Fionnuala McCormack, ficando apenas atrás da norueguesa Karoline Bjerkeli Grovdal no palmarés histórico.
Na prova feminina, a principal esperança portuguesa, Mariana Machado, quinta classificada em seniores na edição anterior e medalhada em sub-23 e juniores, desistiu sensivelmente a meio da corrida. Laura Taborda foi a melhor portuguesa, ao terminar no 27.º lugar, a 1.28 minutos da vencedora.
«A prova estava a correr até faltarem duas voltas. Quebrei um bocadinho, mas, mesmo assim, ainda consegui manter-me no top-30. No ano passado fui 34.ª e queria melhorar esse lugar. Acabou por ser não muito positivo, mas suficientemente positivo», explicou Laura Taborda.
Coletivamente, Portugal terminou no 10.º lugar, com contributos de Joana Vanessa Carvalho, Ana Mafalda Ferreira, Neide Dias e Mónica Silva.
Ndikumwenayo sucede a Ingebrigtsen e trava ambição de Gressier
No setor masculino, o espanhol Thierry Ndikumwenayo conquistou o título europeu, ao impor-se na reta final ao francês Jimmy Gressier, num desfecho decidido ao sprint. Ndikumwenayo venceu em 22.05 minutos, menos três segundos do que Gressier, favorito à partida e que procurava juntar, em 2025, o título europeu de corta-mato ao de meia maratona e ao mundial dos 10.000 metros.
«Estou muito feliz por mim e por esta grande equipa. Nos últimos dias senti algumas dores, mas fiz a corrida sem tentar pensar nisso. Foi sofrido, aguentei e estou superfeliz pelas medalhas de ouro que conquistámos», afirmou Thierry Ndikumwenayo.
Gressier, antigo campeão sub-23, melhorou o bronze alcançado em seniores em 2021, deixando o suíço Dominic Lobalu no terceiro lugar, após uma luta intensa até à linha de meta com o britânico Scott Beattie, quarto classificado.
Etson Barros foi o melhor português, ao terminar em 14.º, a 39 segundos do vencedor, numa corrida em que José Carlos Pinto, campeão nacional da especialidade, abandonou praticamente a meio.

«Quis arriscar no início e estar na frente nas primeiras voltas. Senti-me bem, mas na terceira volta já fui sentindo o ritmo. Saio daqui com mentalidade em alta. Esta prova fez-me crescer e saio daqui com a vontade de trabalhar ainda mais», disse Etson Barros.
Portugal fechou a prova masculina com o 5.º lugar coletivo, o melhor resultado nacional em Lagoa, com Miguel Moreira, Rui Pinto, Alexandre Figueiredo e João Amaro a completarem a equipa. A vitória coletiva pertenceu à Espanha, à frente da Irlanda e da França.
Estafeta mista dá a Portugal uma medalha histórica
O momento mais marcante hoje para o país anfitrião surgiu na estafeta mista, prova introduzida apenas em 2017, em que Portugal conquistou a medalha de prata, a primeira de sempre neste formato, atrás da Itália, que garantiu o terceiro triunfo consecutivo.
Isaac Nader, campeão do mundo dos 1.500 metros, assumiu o último percurso e levou a estafeta portuguesa do quinto ao segundo lugar, culminando a recuperação iniciada por Salomé Afonso, após os percursos de Patrícia Silva e Rodrigo Lima.
O atleta algarvio chegou à ligeira subida da reta da meta já no segundo posto, depois de ultrapassar Bélgica, França e Reino Unido, sem conseguir alcançar Pietro Arese, que confirmou o triunfo italiano em 17.12 minutos, quatro segundos mais rápido do que Portugal.
Com este resultado, a Itália manteve o cetro na estafeta mista, enquanto Portugal somou a 60.ª medalha da sua história nos Europeus de corta-mato, reforçando um palmarés que inclui ainda o ouro conquistado por Jéssica Augusto, em 2010, em Albufeira.
Fitzgerald despede-se do escalão júnior com terceiro título
Nos escalões jovens, a britânica Innes Fitzgerald encerrou o seu percurso em sub-20 com o terceiro título consecutivo, repetindo os triunfos de 2023 e 2024 e igualando o feito da compatriota Stephanie Twell, única atleta a vencer três títulos no escalão entre 2006 e 2008.
No setor masculino sub-20, o belga Willem Renders conquistou o título europeu. Em sub-23, a espanhola María Forero e o irlandês Nicholas Griggs venceram depois de terem sido segundos classificados em 2024, em Antalya, num escalão em que o britânico Will Barnicoat, campeão em título, falhou o terceiro triunfo consecutivo.
A edição de Lagoa confirmou o elevado nível técnico do corta-mato europeu e consolidou Portugal como anfitrião de grandes competições continentais. Do ponto de vista desportivo, a medalha na estafeta mista, os resultados coletivos consistentes e a presença regular em lugares cimeiros reforçaram os sinais de crescimento competitivo da seleção nacional.
Fotos: European Athletics