Desde a fundação em 2021, a World Talents, plataforma sediada na incubadora de empresas da Universidade do Algarve (UAlg), em Faro, já angariou 2,8 milhões de euros de investimento e continua a crescer.
O pitch é simples para uma tarefa ambiciosa. «O que estamos a tentar fazer é uma ponte entre indivíduos altamente qualificados, empreendedores estrangeiros e as universidades portuguesas, para os ajudar a desenvolver projetos em Portugal. A ideia é que possam trazer as suas empresas e ajudar com o seu conhecimento e experiência. Também podem montar novas empresas ou ajudar as que estão a começar, através de mentoria», explica ao barlavento, Bernardo Saraiva, CEO da World Talents.
O Algarve é uma região apetecível para a captação de talentos e investimentos porque já tem um «ecossistema de inovação regional», segundo explica Hugo Barros, responsável do CRIA – Divisão de Empreendedorismo e Transferência de Tecnologia da UAlg.
Uma dinâmica que começou com o Algarve Tech Hub, com o objetivo de «atrair e reter talento e projetar as nossas empresas tecnológicas no exterior», impulsionado também pela fundação das associações Algarve Evolution e Algarve STP.
Além disso, «o Estado português, nos últimos anos tem vindo a criar políticas muito ativas de atração e retenção de talento. Há um conjunto de medidas, por exemplo como o Startup Visa e o Tech Visa».
O protocolo geral de cooperação entre a UAlg e a World Talents foi assinado em janeiro de 2024. «Tem sido um parceiro fundamental, porque nos têm permitido identificar projetos empresariais e atrair empreendedores. No CRIA fazemos programas de soft landing, para ajudar estes empreendedores a se instalarem na região, desde o hosting ao apoio nos planos de negócios e captação de financiamento», acrescenta Hugo Barros.
A lei das startups também ajuda a criar um clima favorável, já que «permite que nos primeiros 10 anos, uma empresa pague 12,5 por cento de IRC. E se tiver uma política de aposta permanente em investigação e desenvolvimento» há ainda vantagens previstas no âmbito do Sistema de Incentivos Fiscais à I&D Empresarial (SIFIDE).
Cabe à World Talents apoiar «os empreendedores a se relocarem em Portugal. Tratamos toda de toda componente legal e de logística . Por exemplo, estamos a tentar trazer um investigador de ciências marinhas, que está nas Ilhas Seychelles», exemplifica Bernardo Saraiva.
João Rodrigues, vice-reitor para a transferência, inovação e universidade digital da UAlg, vê com bons olhos esta parceria «bilateral». «Liga perfeitamente conosco e aproveitamos numa vertente de investigação. Os empreendedores trazem ideias para novos produtos e pedem a ajuda dos nossos investigadores para os desenvolver e investigar. É uma mais-valia para os alunos de mestrado ou de outras metas, poderem trabalhar nestes projetos», refere.
Dois exemplos concertos. Recentemente, «recebemos um empreendedor japonês que tem um projeto empresarial de mobilidade de estudantes internacionais e está a trabalhar para promover o intercâmbio académico entre o Japão e Portugal. É este tipo de projetos que nós como incubadora, queremos dinamizar para atrair talento e recrutamento», considera Hugo Barros.
E também «acolhemos um empreendedor sediado na Suíça que está a desenvolver uma tecnologia, cujo principal parceiro é o Google Maps. Envolve um dispositivo que pode ser instalado em táxis ou autocarros, que mede a qualidade do ar ao longo do percurso. Quando mais dispositivos circularem, mais viáveis serão os dados. Para uma região turística, como o Algarve, isto pode ser um projeto interessante», revela ao barlavento Timur Sitdikov, fundador da World Talents.
Hugo Barros complementa: «se a tecnologia já estiver pronta, nós podemos prototipar ou otimizá-la. Podemos também ligar o promotor do projeto com os municípios e outros players locais. Claro que no final, o que queremos é que crie uma empresa aqui. Idealmente, contratará estudantes para o desenvolvimento». E mesmo que a ideia nunca chegue a materializar-se, podem nascer outras (spillover effect).
Já o investidor japonês «tem um historial de economia e finanças. Se conseguirmos ter aqui uma empresa que coloca estudantes de um país tão avançado como Japão, em todo o mundo, a região já ganha muito. Se isso possibilitar o acesso a outros empreendedores e a novas redes internacionais de mentoria, ganha duas vezes», conclui o responsável do CRIA.

Bernardo Saraiva dá ainda o exemplo de «um empreendedor indiano experimente na criação e gestão de empresas de software que desempenhou um papel-chave como mentor na UAlg» e que «apoiou várias startups locais, através da partilha de conhecimentos especializados».
O CEO da plataforma refere ainda «um empreendedor norte-americano que gere uma empresa cotada na Nasdaq, avaliada em aproximadamente 700 milhões de dólares», interessada em investir em Portugal.
Mobilidade global para empreendedores
Além da UAlg, já assinou parcerias com a Universidade de Coimbra, Politécnico de Setúbal, e outras, sendo que «através do programa Global Talent Portugal, a World Talents atraiu cerca de 80 empreendedores e empresas para o país, com um investimento total de aproximadamente 2,8 milhões de euros». A mais recente a entrar na rede é a Universidade de Évora.
Bernardo Saraiva diz que esta iniciativa tem vindo a captar o interesse de «empreendedores e projetos de indústrias como inteligência artificial, desenvolvimento de software, energias renováveis e biotecnologias», e também, startups «focadas em desenvolvimento sustentável e soluções digitais para indústrias tradicionais».
Saraiva prevê que a curto prazo, a World Talents possa atrair mais dois milhões de euros em projetos de investigação e desenvolvimento, através de colaborações ativas entre empreendedores internacionais e as universidades portuguesas.