Segundo nos disse, iniciou-se na luta greco-romana, aos 14 anos, no Benfica, tendo sido campeão nacional por várias vezes, durante os seis anos em que praticou esta modalidade.
Como acontecia com os jovens de então, cumpriu o serviço militar no ultramar e não treinou durante sete anos. Em 1976, porque estava com demasiado peso para a sua altura, começou a praticar culturismo e nunca mais parou. «Em seis anos, mudei completamente o meu corpo e, ao fim desse tempo, era campeão nacional na minha categoria e o terceiro melhor de Portugal em todas as categorias», disse-nos aquele que é detentor de três terceiros lugares, três segundos e seis primeiros e de ainda dois recordes de Portugal: em 1990, com 41 anos, ganhou a geral; em 1995, com 46 anos, bateu o seu próprio recorde, que ainda perdura, como o atleta mais velho a ganhar aos praticantes de todas as classes. Internacionalmente, como veterano, com os seus 74 quilos, foi sétimo entre concorrentes de 28 países, perdendo apenas para os atletas com mais de 100 quilos.
Em maio próximo, vai aos europeus, em Barcelona, na classe de mais de 65 anos, onde não há mais de meia dúzia de concorrentes. «Estou a treinar com aquele que é considerado o grande mestre português, Ricardo Jerónimo. Chamam-me o dinossauro do culturismo, tenho um espírito jovem, estou em forma e com vontade de treinar, como se tivesse 20 ou 30 anos, mas necessito de um patrocínio. A minha alimentação é tão rigorosa que tenho de pesar os alimentos. E necessito de produtos naturais e dietéticos».
barlavento – Mas ninguém vive do culturismo, pois não?
José Gouveia – Pertenci ao corpo de segurança pessoal da PSP. Sou, neste momento, a pessoa mais louvada e mais condecorada deste corpo de segurança. Posso dizer que fui louvado pelo professor Freitas do Amaral, pelo professor Mota Pinto, em Diário da República, pelo então Presidente da República Jorge Sampaio, com quem trabalhei seis anos e meio e por quem tenho grande consideração, pelo rei Hassan II de Marrocos, pelo rei D. Carlos de Espanha, pelo Comando Distrital de Lisboa da PSP e condecorado, no Vaticano, pelo Papa João Paulo II.
O que é necessário para se ser um bom agente de segurança pessoal?
Somos treinados para não ter medo algum.
Mas o cidadão comum tem a ideia de que são pessoas com um metro e noventa, para tapar a entidade a ser protegida. O José Gouveia tem uma altura muito inferior a essa…
Um agente de segurança pessoal tem de ter uma mente sã num corpo são e ser uma pessoa muito inteligente. O nosso lema é «alerta e desconfiado». Deve ser metódico, ter boas vias de comunicação, poder de iniciativa. E, quando não havia GPS nem telemóveis e tínhamos de levar um dignitário a qualquer aldeia do país, tínhamos de ir, dois ou três dias antes, fazer reconhecimento e memorizar as estradas, as ruas, os locais, a localização dos hospitais, para usar em caso de atentado. Porque o nosso carro ia à frente e não nos podíamos enganar.
Qual foi a situação em que se sentiu menos à vontade?
Sempre me senti bem. Fui treinado para isso, não é? Mataram um colega meu, num atentado, em novembro de 1979, quando fazíamos segurança ao embaixador de Israel, em Lisboa. Eu andava diariamente com o embaixador, mas o meu colega, nessa semana, foi fazer serviço alternado comigo, dia sim, dia não. Levei o senhor embaixador a casa e, na manhã do dia seguinte, quando o meu colega o ia buscar, foi morto com 14 tiros e uma granada.
Foi a pior situação, na sua carreira?
Houve outras. Por exemplo, quando conduzia o Dr. Martinho da Cruz, confiei no meu sexto sentido e alterei o itinerário, no último momento. Escapei à emboscada para matar o juiz, feita por quatro indivíduos das Forças Populares (FP) 25 de Abril. Outra vez foi com o Dr. Castelo Branco, o diretor dos Serviços Prisionais. Houve uns elementos das FPs que tinham fugido e eu tinha fotografias deles. Andava sempre alerta e desconfiado. Avisava-o para nunca sair sem segurança. Nesse fim de semana, fui deslocado para outro serviço. Ele disse ao meu colega, na sexta-feira, que não necessitava segurança durante o fim de semana. No sábado, saiu de casa para ir comprar queijo, estava um tipo das FPs à espera dele e baleou-o. E há vários outros casos.
Quantos anos esteve no corpo de segurança pessoal?
Estive 25 anos. Fiz segurança a todos os Presidentes da República e Primeiros-ministros. Estive um ano
a trabalhar na embaixada americana e fiz parte da segurança ao Presidente Ronald Reagan, quando cá esteve, sendo a pessoa que mais o acompanhou.
A terminar, o nosso entrevistado sublinhou que os agentes do corpo de segurança pessoal são treinados em várias artes marciais e em tiro, mas só empunham a arma em último caso. Se puderem, não atiram para matar, porque o importante é saber quem enviou o agressor…