A ausência do médico de família da Extensão de Saúde de Ferragudo, por motivos de doença (prolongada), levou a que se instalasse o caos no atendimento aos utentes daquela localidade lagoense, desde o ano passado. Ao «barlavento» Francisco Martins, presidente da Câmara Municipal de Lagoa, e Luís Alberto, presidente da Junta de Freguesia de Ferragudo, confirmaram que têm recebido muitas manifestações de desagrado por parte da população perante esta situação.
«Chegaram-me mais de 50 queixas verbais, pois, pelo que sei, queixas escritas, no livro de reclamações, devem ter sido umas cinco. Há diversas pessoas a reclamar por não conseguirem marcar uma consulta na extensão de saúde», denunciou o presidente da junta de freguesia local.
Segundo os utentes, há pessoas a esperar um mês e meio por uma simples consulta, pois o único médico que está ao serviço «não consegue dar conta de todos os pedidos». Esta situação foi agravada desde a saída de um dos médicos e o falecimento do outro profissional, avançou Luís Alberto ao «barlavento».
Francisco Martins sublinha que a gestão da saúde não pode ser realizada de forma economicista e que, neste caso, a maior fatia da população que sofre com a situação são idosos e pessoas com dificuldades na mobilidade.
Contactada pelo «barlavento» a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve esclareceu que, «desde julho de 2015, que o médico desta Extensão de Saúde encontra-se ausente por motivos de doença». Por isso, para garantir a acessibilidade aos cuidados de saúde, a direção do Agrupamento de Centro de Saúde do Algarve (ACES) Barlavento contratou, «através de procedimento centralizado nos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, outsourcing de prestação de serviços médicos, com a afetação de horas médicas para prestar cuidados nesta extensão, tendo o contrato terminado no final de dezembro de 2015».
Entretanto, a ARS aguarda, «a conclusão do processo por parte da tutela para a adjudicação e entrada em vigor da nova contratualização de prestação de serviços médicos». Mas a situação, que a ARS assegura ser «pontual e transitória» está a colocar entraves no atendimento, segundo os utentes. Conforme avançou Luís Alberto ao «barlavento» chegou a haver «98 pedidos para receitas médicas, ainda à espera para serem prescritas».
A ARS argumenta que para colmatar esta falta foi deslocado, de forma temporária, um médico do quadro daquele ACES e uma médica interna para a Extensão de Saúde de Ferragudo. Os dois profissionais estão responsáveis por dar consultas «às segundas e terça-feiras, das 14 às 16 horas, (médico) e às quartas-feiras, das 8 às 13 horas (médica interna), sendo que os cuidados de enfermagem estão assegurados de segunda a sexta-feira, durante o horário de funcionamento daquela Unidade de Saúde», esclareceu a ARS.
No entanto, Luís Alberto contrapõe dizendo que na segunda-feira o médico não está na extensão, porque tem que ter horas de descanso. Os utentes ficam, de igual modo, sem acesso a consulta.
«No início do mandato deparámo-nos com a intenção de fechar quase todas as extensões. Fizemos pressão para que não fossem fechadas e acabamos por consegui-lo após um acordo com a ARS», recordou Francisco Martins. O edil, que até foi profissional nestas extensões de saúde, foi sensibilizado de que havia necessidade de ajustar horários, pois não havia recursos humanos para dar uma resposta adequada. Por isso, a Câmara Municipal de Lagoa disponibilizou casas para acolher três médicos, para evitar os encerramentos anunciados.
«Agora, após a disponibilidade permanente de cooperar, quando há uma aflição não sermos informados, chateia», confessa Francisco Martins. Por outro lado, a gestão de recursos humanos e qualquer alteração feita deve ser comunicada ao edil, que também preside o conselho da comunidade do ACES do Barlavento, justificou.
«Sempre que nos bateram à porta a pedir apoio, a Câmara deu», reforçou o presidente da Câmara, que não compreende o porquê de não ter havido uma abertura maior, antes, para resolver este problema em Ferragudo. E este foi o mais «aflitivo, o que deu mais brado, mas Estômbar, que chegou a ter três médicos, [agora] só tem um». A verdade é que os serviços (finanças, segurança social, repartições públicas) que «não encerraram, não têm pessoas a trabalhar. Daqui a um ano vamos dizer não vale a pena estar aberto, porque ninguém lá vai, pois é impossível o atendimento ser igual com vinte funcionários ou apenas com quatro», salienta ainda o autarca.
No caso de Ferragudo, a ARS comunicou que, em caso de necessidade, os utentes podem recorrer, fora daqueles horários, «ao Centro de Saúde de Lagoa (sede) e solicitar uma consulta de recurso do dia», sendo «agendada no próprio dia». O problema é que as pessoas, além de terem que se deslocar oito quilómetros, vão entupir a sede do centro de saúde. Esta extensão tem 2081 utentes frequentes inscritos, dos quais 579 não têm médico de família e 53 optaram por não tê-lo.