Quando vejo e ouço o ogre de boçalidade que é Trump, essa aventesma ordinária, eleito presidente dos Estados Unidos da América, mais saudades tenho de Obama.
Um exemplo para o mundo. No outro dia, ao mostrar um dos vídeos da aula digital de História, com uma reportagem televisiva da CNN sobre uma fortaleza de escravos na costa africana, aparece Obama numa visita àquele lugar horrendo, onde se amontoavam escravos antes de embarcá-los, nos chamados navios negreiros, para a América.
Obama, admirador de Mandela, portador, tal como ele, do que há de melhor na esteira dos grandes líderes políticos dignos de admiração, dos valores da tolerância, da liberdade de expressão, do respeito pela diferença; ele próprio, Obama, símbolo maior da interculturalidade que se inscreve na matriz e na história dos Estados Unidos.
Quando vejo e ouço o ogre de boçalidade que é Trump, essa aventesma ordinária, eleito presidente dos Estados Unidos da América, mais saudades tenho de Obama.
Pergunto-me: como foi possível?!… Na nação mais poderosa do mundo, passarmos de um presidente liberal, educado e culto, de espírito aberto, para um grunho como Trump, enclausurado no seu narcisismo, que chega ao ponto de afirmar que o recente assassinato do realizador Rob Reiner e da mulher, tudo indica pelo filho, se deveu «à raiva que despertava nos outros» com a sua «neurose anti-Trump», insinuou o chefe de Estado norte-americano na sua rede social Truth Social.
Mas a História, o conhecimento do passado, tira-nos todas as ilusões, com as suas guerras, devastação e destruição da humanidade.
Vejam o filme Nuremberga, sobre o julgamento dos nazis no final da 2.ª Guerra Mundial, centrado especialmente em Hermann Göring, o n.º 2 de Hitler, numa interpretação notável de Russell Crowe, e no psiquiatra Douglas Kelley (num desempenho igualmente assombroso do ator Rami Malek), que o acompanhou na cela e com ele criou cumplicidades que lhe permitiram analisar a personalidade deste. Escavar mentalmente as raízes do mal.
Aí temos toda a complexidade do ser humano e dos bastidores do poder. A qual tem todo o seu significado na citação do genérico final do filósofo da teoria da História, R. G. Collingwood: «O único indício para o que o homem pode vir a fazer é o que o homem já fez., lúcida reflexão sobre a capacidade humana para o mal (ou para o bem) e, sobretudo, um alerta para o futuro (o qual se insinua nas sombras políticas do presente).
Paulo Penisga