Associação Cabana Aldeia dos Palheiros é a única no Algarve que resgata e recupera animais de quinta. Tem mais de 170 a cargo e quer continuar a crescer de forma autossustentável. Responsáveis não conseguiram encontrar um terreno na região para continuar este trabalho.
De todo o país e até de Espanha chegam animais em estado crítico, ou prontos para serem abatidos, à aldeia de Estoi, do concelho de Faro.
A Associação Cabana Aldeia dos Palheiros nasceu há dois anos com um único propósito «salvaguardar o bem-estar animal». Quem o garante ao barlavento é a louletana Carla Sananda, uma das responsáveis pelo único santuário de animais de quinta, a sul de Lisboa, em conjunto com Artur Nascimento, de 41 anos, natural de Faro.
«Conheci o Artur e na altura ele já resgatava cães e gatos de rua. Eu vivia num apartamento e fazia o mesmo, sendo que tinha cinco cães e quatro gatos. Como na minha infância e adolescência sempre comi carne, o meu sonho, ao tornar-me vegan aos 18 anos sempre foi o de resgatar uma vaca. Achei que era o mínimo que podia fazer. O Artur tinha já este terreno e na altura, recebemos um telefonema para nos dizerem que tinham apreendido um lote de 109 animais num matadouro ilegal. Para conseguirmos resgatar alguns deles precisávamos de 1500 euros. Desafiámo-nos em um mês a consegui-los. Assim fizemos e um dia antes de serem abatidos, conseguimos ir buscá-los. Depois vieram as três cabras, os três bodes, as galinhas e os porcos. Assim começámos e temos agora mais de 100 filhos», conta Carla Sananda.

Cães, gatos, perus, vacas, patos, cavalos, bois, ovelhas e éguas convivem diariamente e em harmonia no santuário. Em comum? Todos resgatados em estado lastimável, mas recuperados pelo casal.
A maior parte chega depois de pessoas relataram as situações à associação, mas há ainda muitos que são recolhidos diretamente da rua pelos responsáveis. Todos têm um nome próprio, à exceção de algumas galinhas, que segundo Carla, «são muito idênticas».
Para a algarvia, que cresceu num seio familiar ligado à indústria animal, lidar com casos delicados faz parte da sua vida desde os 15 anos, idade em que realizou o primeiro parto a uma vaca. Hoje, com 43 anos, o momento que mais a marcou aconteceu há pouco tempo no seu santuário, com um burro, o Morango.
«Foi resgatado de Monchique em muito mau estado. Estava cheio de feridas e com apenas quatro anos já tinha sido muito explorado para passeios. Acabou por ficar ao cuidado de um senhor de mais idade que não sabia bem o que lhe fazer. Vivia num espaço sem luz. Chegou aqui em muito mau estado e tentámos recuperá-lo. Ainda aguentou três meses. Houve um dia que nos ausentámos por umas horas e quando regressámos ele não estava bem. Telefonámos ao veterinário, mas o Morango acabou por não conseguir sequer esperar por ele. Assim como exigia a lei, contactámos um serviço público para o vir colher. O que mais me chocou foi ver a insensibilidade com que lidaram com o burro. Até o chamaram de coisa. Não é uma coisa, era o meu Morango. Nesse momento, essa questão da insensibilidade dos humanos marcou-me muito e nem sou uma pessoa de me deixar afetar por estas situações», relembra Carla. «É preciso ser emocionalmente e psicologicamente muito forte», acrescenta.

Apesar de todos os contras, todo o trabalho compensa. «Às vezes estamos aborrecidos por algum motivo e chegamos aqui cansados, mas o dia fica logo ganho com pequenas coisas, como ver a ligação entre eles, ou a alegria com que nos recebem», afirma.
Mas e o que é que leva um casal a empenhar-se neste projeto? Carla responde: «é uma maneira de salvar os animais e de minimizar a atrocidade que se faz na indústria, que é muito cruel. Faço porque gosto mesmo deles e porque para mim não há diferença entre um ser humano e um animal. Eles não têm voz para se defender. Enquanto conseguirmos vamos resgatar o máximo de animais que pudermos, dentro das nossas possibilidades. O ideal seria mesmo acabar com os matadouros, mas uma coisa de cada vez».

Nova casa, novos projetos
A Associação Cabana Aldeia dos Palheiros prepara-se agora para se expandir. Como não disponibiliza animais para adoção, o terreno em Estoi já começa a ser pequeno para a família que não para de crescer. «Vendemos uma propriedade e quisemos logo adquirir um espaço maior, onde houvesse uma casa, mas acima de tudo um terreno grande para eles», refere Carla.
Infelizmente, a resposta às necessidades da associação só se encontrava no Alentejo, em Portalegre. Isto porque «com a nossa capacidade económica, no Algarve era impossível comprarmos alguma coisa, o que é uma pena porque somos naturais de cá e adoramos esta região».
Assim, no Alentejo, o casal e a sua centena de «filhos» vai ter um terreno com treze hectares, ou seja, 21 vezes maior que o que possui atualmente. De santuário de animais de quinta com o maior número de elementos, passam também a ser o maior santuário de Portugal.

A mudança definitiva está prevista para março. Então, «vamos poder ter voluntários, vamos estar abertos a visitas e queremos trabalhar com escolas. Isto porque queremos que as pessoas percebam que os animais têm sentimentos e ligações muito fortes entre eles e até com os humanos. As pessoas não têm essa noção e se os matadouros fossem de vidro ninguém comia carne. Depois como sou chef de cozinha vegan vou proporcionar também refeições aos visitantes para verem como é fácil comer bem, sem químicos e sem animais. A melhor parte é eles terem muito mais espaço para estarem em liberdade. Vamos também ter uma horta biológica e a ideia é produzir e cultivar ao máximo. Queremos mesmo ser auto-sustentáveis em tudo e vamos ser os primeiros a consegui-lo», garante a algarvia. «Esta é a nossa maneira de alertar e consciencializar», assegura.
Cada dia começa às 6h30
O dia a dia de Artur Nascimento e de Carla Sananda, responsáveis pelo santuário de animais de quinta começa bem cedo.
«Moramos aqui com eles porque à noite pode sempre acontecer alguma coisa e assim estamos sempre alerta. Depois temos uma ovelha agora com um mês que se tem de dar de biberão várias vezes por dia, então temos mesmo de viver aqui. Acordamos às 6h30 e começamos por limpar o terreno. Segue-se o feno em três pontos diferentes e a comida. Começamos com os cães e com os porcos. Libertamos alternadamente porque há uns que não se relacionam bem entre si. Nessa altura lavamos as boxes e damos-lhe comida. Depois damos água aos patos e aos porcos e comida às cabras. No fim fazemos uma revisão final e limpamos a casa. Temos de dar o biberão à Lucky às 07h00 e às 10h00 e só a seguir é que alimentamos os gatos. Das 6h30 às 10h30 é a rotina matinal e às 17h00 regressa o Artur do trabalho para verificar as águas, volta a dar feno e verifica se está tudo bem», conta Carla.

No tempo livre do casal, a algarvia dá aulas de yoga e Artur foca-se na permacultura. Ainda de acordo com a responsável, o único vício que têm são as idas ao cinema. «É a única coisa que conseguimos ainda fazer».
Falta financiamento e apoios
A Associação Cabana Aldeia dos Palheiros, em Estoi, sobrevive quase em exclusivo dos trabalhos que Carla e Artur vão fazendo no tempo livre que lhes sobre. Fora os 500 litros de água que chegam a gastar diariamente, a eletricidade e o veterinário, só de comida para os animais gastam-se 1200 euros mensalmente.

De acordo com Carla Sananda, uma das responsáveis do santuário, «ambos trabalhamos quase até à exaustão para conseguirmos o dinheiro para eles. Temos alguns padrinhos e madrinhas, mas são muito poucos. Ajudas temos das pessoas próximas como a família. O que nos faz falta são donativos ou comida para eles».
Para os interessados em ajudar o santuário, está há disposição o IBAN PT 50 0045 7211 4029 9436 1959 4, a página de facebook Associação Cabana Aldeia dos Palheiros ACAP, e MBWay, através do contacto 916 289 754.