A palavra certa é «chocado». Foi assim que Sandro Leandro, diretor comercial da Optimum Outdoor Solutions se sentiu quando recebeu, a 13 de fevereiro de 2015, uma carta da subconcessão Rotas do Algarve Litoral dando conhecimento da intenção de expropriar o terreno onde está a principal loja deste empresa, em Vale de Lousas, na fronteira dos concelhos de Lagoa e Silves, à beira da EN125.
Leandro chama a atenção para o facto da missiva dar «o segundo passo» irreversível neste processo, informando «que já tinha sido requerida a utilidade pública». «No meu entendimento, quando isto chega já não há muito a fazer. Significa que o terreno vai ser expropriado, a bem ou mal».
«Nesta altura, dizem-me que já tinham enviado uma carta anterior a comunicar-nos a existência do projeto» do lanço 2.1B ER125.
Leandro nunca a recebeu, facto que, aliás, veio a confirmar-se mais tarde. A carta fora devolvida ao remetente por não ter sido levantada a tempo.
Entretanto, «passaram-se dois anos. Não obtiveram resposta, mas não voltaram a tentar comunicar connosco». «Dizem que o projeto da rotunda esteve em consulta pública, que seguiu todos os procedimentos legais que se fazem sempre. Mas nunca ninguém dá por nada. Pronto, a culpa é da população que não se interessa», ironiza.
Depois disto, a proprietária dos terrenos e das instalações arrendadas à Optimum «foi contactada pessoalmente pela pessoa que negoceia pelas Rotas do Algarve Litoral. Falámos com o engenheiro, que se instalou na Junta de Freguesia da Guia para receber os proprietários. Falar, basicamente, no entendimento deles de falar, é apresentar uma ficha de avaliação que já está feita, com uma proposta», descreve.
«No nosso caso, propunham pagar cinco anos de renda equivalente ao pedacinho de terreno que iríamos perder, um cálculo determinado unilateralmente, sem ter em atenção quanto é que efetivamente pagamos» pelo espaço no seu todo.
Leandro frisa que a proposta de indemnização que lhe foi feita «não apresenta fundamentos e é abaixo do preço de mercado. A pessoa que negoceia as expropriações diz que foi estimada por um técnico especializado, um avaliador nomeado pelas Estradas de Portugal e que não têm influência nenhuma nisso».
Na verdade, o diretor comercial até via a nova rotunda com bons olhos, já que visa aumentar a segurança daquele troço da EN125. Tem por objetivo «eliminar todas as viragens à esquerda na EN125. Para nós até seria vantajoso», admite.
E pensou, porque não apresentar uma alternativa? «Quem negoceia as expropriações disse-nos para falarmos com quem executa o projeto para as Estradas de Portugal. Falámos com um outro engenheiro de uma outra empresa», a Norvia, em setembro de 2015.
Leandro pediu que fosse feito um acesso à loja que arrenda desde 2009, a partir da futura nova rotunda, «à imagem do que foi feito no Hotel Capela das Artes», em Alcantarilha, a apenas 2,2 quilómetros de distância. Até havia um entendimento entre inquilino e senhoria, já que esta estaria disposta a fazer um parque de estacionamento para que a Optimum pudesse continuar aberta ao público e a funcionar normalmente.
«Disseram-nos que iriam avaliar». Em novembro, na última reunião «com vista a resolver as coisas de forma amigável», a promessa caiu. «Foi-me dito que isso estava absolutamente fora de questão por razões de segurança. Ou seja, os critérios de segurança rodoviária mudam em apenas 2,2 quilómetros, pois a rotunda de Alcantarilha permite também o acesso ao parque industrial, feito a posteriori», compara, sublinhando o tratamento desigual.
Ainda assim, Sandro Leandro não desistiu. Avançou com uma segunda proposta, com o apoio da sua senhoria. «A proprietária propôs então fazer o parque de estacionamento a poente, perdendo ainda mais área de terreno, desde que o Estado construísse um acesso alternativo a partir da estrada lateral» para as Fontes da Matosa. Ou seja, um caminho indireto.
«O que já era mau, pois estamos ao lado da EN125 e as pessoas teriam que perceber onde estaria o acesso a 100 metros de distância». Uma situação confusa que acontece hoje, por exemplo, na Área Empresarial de Marim, em Olhão.
Resposta? Poderia ser feito, às custas da expropriada. Foi sugerido descontar o custo da obra no valor da indeminização. No epílogo, Sandro Leandro lamenta que tenha havido «alguma inflexibilidade» por parte do Estado. Apesar do espaço não ser próprio, mas alugado, foi alvo investimentos na ordem dos 50 mil euros, ao longo dos anos.
A nova rotunda que o irá render à inutilidade «vai ser feita em escavação, a loja está dois metros acima da cota da
estrada. A frente vai ser um talude, não está previsto enquadramento paisagístico, vai ficar selvagem. Até propusemos fazer um arranjo ajardinado, mas não foi autorizado».
Um dos argumentos que está na base da «inflexibilidade» é que a loja apenas tem acesso pedonal, sendo que o estacionamento de clientes é feito na berma da EN125, em domínio público, situação que poderia ser corrigida.
À falta de acordo, até ao final de fevereiro, a Optimum vai reabrir em novas instalações em Porches, no concelho de Lagoa. O gestor estima os custos da operação em cerca de 20 mil euros.
«O facto de os clientes chegarem aqui e verem uma porta fechada torna inquantificável saber quanto é que vamos perder, pois muitos não vão perceber que a loja mudou» de localização.
Por último, relativamente à obra da nova rotunda, «não se sabe muito bem quando é que isto vai começar. As obras eram para estar prontas em março e ainda nem arrancaram».
O «barlavento» pediu esclarecimentos à Infraestruturas de Portugal relativamente a este caso, mas não chegou a obter um esclarecimento atempado.